quarta-feira, 6 de novembro de 2019

"QUANDO PARTE UM AMIGO É ALGO QUE MORRE DENTRO DE NÓS"


Sábado, 25 de julho de 2009

MORREU RUI CARTAXANA - UM GRANDE JORNALISTA

Estou a lembrar-me de quando em 1963 perguntei ao Rui Cartaxana, na cidade da Beira, o que eu teria de fazer para ser jornalista.
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Respondeu-me o Rui: "vai à livraria Salema, na Praça do Município, que tem lá um livro (deu-me o nome que não me lembro) que encontras lá os ensinamentos preliminares".
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O Rui jornalista do "Diário de Moçambique" era uma figura popular e na aldeia global que era a cidade da Beira e toda a gente conhecia o Cartaxana.
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Jornalista, fino, irreverente e transparente em todas as peças que escrevia. Tinha imensos amigos mas não conhecia nenhum e não poupava fosse quem fosse nos elogios se os merecesse ou acusá-lo, por acções pouco dignas, publicamente.
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Pertencia à nova geração de jornalistas da cidade da Beira e do único jornal diário que se publicava, na altura e propriedade da Igreja Católica, sob a jurisdição do grande Bispo que foi Dom Sebastião Soares de Resende.
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Rui Cartaxana é da geração do poeta Fernando Couto, pai do escritor Mia Couto e seu colega, no Diário de Moçambique; Henrique Coimbra e outros que se apagou o nome na minha memória.
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Depois de um grande sucesso, jornalístico, na Beira, o Cartaxana partiu para Lourenço Marques. Deixou a Beira magoado e falei, uns dias antes, com ele na Zona das Palmeiras (junto à Praça da Índia) onde tinha comprado uma casa nova. Era meu vizinho.
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O jornalista meteu-se com os latifundiários, poderosos, donos dos terrenos da baixa da Munhava, onde, entre estes, se incluia o célebre Dr. Palhinhas.
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É que os donos desses terrenos, alugavam parcelas aos nativos, estivadores do Porto da Beira, por 300 escudos anuais. Além da "palhota" construída, havia umas leiras, em redor, onde cultivavam arroz.
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Alguns arrendatários, explorados na estiva, não conseguiam a importância para satisfazer o arrendamento. Para grandes males melhores remédios manda-se cortar o arroz em verde e sem grão.
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O Rui Cartaxana, tem conhecimento do assunto, vai ao local e leva o fotografo do jornal o Ferro e capta imagens daquela selvajaria. No dia seguinte faz "manchete" na primeira páginas do Diário de Moçambique.
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Levantam-se os colonos de colarinho branco contra o Rui Cartaxana. Nomeiam, como defensor, de seus interesses o jovem advogado o Dr António de Almeida Santos (hoje pessoa grada do Partido Socialista)
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Entra Almeida e Santos e  Rui Cartaxana em conflito, e o jornalista publicou uns milhares de livrinhos "Carta Aberta", dirigida ao famoso advogado da praça da Beira, que se esgotaram rapidamente.
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Depois da "Carta Aberta" que denunciava tudo e mais que tudo, a vida na Beira, não começa a ser fácil para o Rui Cartaxana e acabou por "vender" a mobília a casa (a pagá-la a prestações à CGD) na Beira e transfere-se, com a família para Lourenço Marques.
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Os poderosos vingaram-se!
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Chegado a capital de Moçambique, junto a três jornalistas, onde está o Areosa Pena (outro progressista) fundam a melhor revista que nunca se tinha publicado o "Tempo", liberal e nunca se haja ligado ou vergado, ao "poder.
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Mas na Rodésia, onde residia, nunca deixei de ler a "Tempo", onde chegava logo após de sair da tipografia.
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Depois da independência de Moçambique foi natural que o Rui Cartaxana tivesse de encerrar a "Tempo" e regressar a Lisboa.
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Um dia perguntei alguém o que era feito do Rui Cartaxana, responderam-me: "É o director do jornal desportivo o "Record".
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Fiquei admirado porque o Cartaxana não estava vocacionado para o desporto mas para outro género de jornalismo.
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Foi um jornalista que os "poderosos" da Beira castraram a sua profissão de jornalista e um dos maiores que conheci.
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Paz à tua alma Rui que a tiveste, demasiadamente, grande.

José Martins

1 comentário:


Dylan disse...
#JORNALISTA SEM MEDO#
Rui Cartaxana não foi apenas um jornalista desportivo nem um mero ajuntador de letras. Foi uma figura de referência no jornalismo português e pioneiro na modernização da imprensa desportiva contribuindo para a profissionalização do sector.
A sua independência editorial era um sinal dos seus valores e princípios que sempre defendeu, mesmo que entrasse em choque com o seu clube do coração. Talvez fosse o fervilhar do seu sangue africano - indomesticável - contrastando com a atitude de colegas de outras redacções, comodamente silenciosos, avessos a polémicas e bajuladores.
Com o Rui, desapareceu o jornalismo crítico afrontador do poder, porque não dizer romântico e ousado.