quarta-feira, 27 de novembro de 2019

HISTÓRIAS DE UM CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO




Julho de 1996
                           EU E OS COMISSÁRIOS
Como correspondente estrangeiro, quando um comissário da União Europeia  passa pela cidade onde estou baseado, tenho a honra (!) de ser convocado para estar presente. 
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Das várias visitas em que fui reportar: reuniões, copos de água (onde se bebe tudo menos água), conferência de imprensa da praxe onde o sr. Comissário reporta os encontros e as acções futuras sobre o comércio, relações políticas ou as ajudas humanitárias, no exterior da comunidade. 
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Há um mês estive na inauguração da sede comercial dos negócios da União Europeia com o Sudeste Asiático em Banguecoque. Ao acto estiveram presentes: embaixadores acreditados, um ministros dos Estrangeiros, empresários, académicos e gente ligada à Finança. Evento muito lindo  e jovens com um “palminho de cara” a decorarem o ambiente.
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O comissário Manuel Marin (Espanha), inaugurou o departamento cortando a fita com uma tesourada. O momento foi de grande solenidade!
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Após a tesourada dirigiu-se ao pódio onde iria proferir o discurso da inauguração. Marin é um homem habituado a estas andanças de inaugurações. Não necessita de papel para discursar. Tudo muito bem cuidado e até (penso), com muito treino ao espelho na casa de banho, como deve compor-se perante uma assistência que não perdoa uma gralha ou calinada. 
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Sem querer, atraçoei o “mi hermano” espanhol. Interrompi-lhe o discurso, riu-se às gargalhadas e riram-se a bandeiras despregadas embaixadores e o resto que ouvia atentamente o Comissário para as relações dos países do Mediterrâneo, Médio Oriente e América Latina. 
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A meio do discurso, o meu telefone móvel, pendurado no cinto e invisível, accionou em surdina a campainha. Ignorei o toque e praguejei para mim: lá estão os “gajos” a chatiar-me...«vê lá se te avias com isso e manda para cá».
Mantive-me actor em primeiro plano, com a Nikon F3 pronta a disparar sobre aquilo que já futurava passar-se. O móvel não mais parava de tocar.
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Quase tos os presentes, estavam munidos de telemóveis e começaram a retirá-los dos bolsos verificando se tinham sido activados.. Marin parou de discursar  e perante aquela cena patética, desatou a rir às gargalhadas e a ele se seguiram os presentes, por uns trinta segundos.
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Disparei, disparei a máquina até que o flash parou extenuado de tanta luz que vomitou.
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Por fim, calmamente, retirei o telefone do cinto e desliguei-o da bateria, para a sessão solene, do momento, não ser mais perturbada.
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O departamento, da UE, inaugurado com o nome EBIC, funcionou, na baixa de Banguecoque, pouco mais de um ano. Foi chão que nunca deu uvas. Um lobby para um embaixador, inglês, reformado, mais uns 4 funcionários. Tiveram que vender as mobílias para pagar a renda.
José Martins