sexta-feira, 11 de outubro de 2019

MEMÓRIAS - VISITA DO PM CAVACO SILVA A BANGUECOQUE

ESCRITO EM 2008

O PRIMEIRO MINISTRO CAVACO E SILVA EM BANGUECOQUE EM 20-21 DE ABRIL DE 1987Faz hoje 21 anos que o o Primeiro Ministro Prof. Aníbal e Maria Cavaco Silva se encontravam em Banguecoque. A comitiva era composta:

Primeiro-Ministro Prof. Aníbal e Maria Cavaco Silva;
Ministro dos Estrangeiros Pedro e Maria Pires de Miranda;
Dr. José Almeida Fernandes (Chefe de Gabinete do PM);
Dr. António Martins da Cruz - (Conselheiro Diplomático do PM);
Dr. Rui Quartin Santos (Ministro-Conselheiro do MNE);
Dr. José Arantes Rodrigues (Assessor de Imprensa do PM);
Dr. Francisco Sarsfield Cabral (Assessor económico do MNE);
Coronel Luis Marinho Falcão (Director da segurança do PM): 
Dr. Luis Xavier de Brito (Médico do PM);
Dr. Fernando Araújo ( Oficial do Protocolo);
Srª. Maria Soares Pires (Enfermeira)
Sr. José Jerónimo Cardoso (agente de segurança ao PM);
Sr. José Santos Duarte (agente de segurança ao PM).
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Achamos e porque poderá servir de matéria histórica para os interessados, vamos transcrever na íntegra o que se haja passado durante a visita oficial do então Primeiro Ministro Cavaco Silva, durante dois dias (20-21 Abril de 1987) à Tailândia. A Missão Diplomática de Portugal em Banguecoque estava sob a gerência do embaixador Mello Gouveia. Diplomata pragmático que tudo que projectava nunca falhava. Uma semana antes (nunca necessitava de muita gente mas pouco e boa), na sala do expediente da chancelaria reune-se com: Dr. Paulo Rufino, Fernando Oliveira (instalado na chancelaria e a representar o Grupo Amorim, o Chanceler, tailandês, Chalerm e eu José Martins. Foi dado ao grupo dos quatro as seguintes atribuições: Dr.Paulo Rufino seria a pessoa assistir os diplomatas inseridos na comitiva do Primeiro-Ministro; Fernando Oliveira o homem que deveria estar
permanentemente na chancelaria, na sala de comunicações (nessa altura não havia fax e a Internet uma ilusão!), a receber e a enviar as comunicações para o MNE, acrescentando-lhe a assistência aos jornalistas a que lhes estava franqueado o telex e o telefone para as comunicações para os seus jornais. 
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Na sala de comunicações foi colocada uma geleira (grande) carregada de cerveja e refrigerantes para a "rapaziada" da comunicação social matar a sede. O embaixador Mello Gouveia recomendou ao sempre eficaz Fernando Oliveira: "trata-me bem os jornalistas"! O chanceler Chalerm para tratar dos passaportes da comitiva e a bagagem. Eu sou o "homem" para exteriores e transportar a "rapaziada" da comunicação social, durante a noite pela cidade de Banguecoque. Durante o dia para transportar o "pivot" da televisão de Macau (TDM), o jornalista Fernando Maia Cerqueira, que reportava para Macau e em parceria com a RTP. A acompanhar o PM Cavaco Silva estava o João Pacheco Miranda da RTP, que ao fim do dia juntavam o material e seria expedido para Lisboa através do Satélite do Canal 5 de Banguecoque. 
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Todos estes serviços estavam por minha conta e não se poderia perder tempo no caminho. O Canal 5 (televisão sob a tutela do exército, real tailandês foi impecável na assistência) facilitou a sala e todo o material de emissão aos jornalistas João Pacheco Miranda e ao Fernando Maia Cerqueira. Trabalhavam-no antes do expedir, para Lisboa, como pretendiam. Como nota curiosa e já passaram mais de 20 anos a saídas à noite estavam programadas entre mim e o Dr. Paulo Rufino. 
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Se o Dr. Paulo Rufino ia para uma determinada zona eu seguia para outra diferente. Bem é que cautelas e caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém! E nunca confiar na rapaziada da comunicação social, não fossem eles encontrar o grupo da comitiva oficial a beber uns copos num dos bares da "Paptong" acompanhados de umas jovens beldades. Todos os homens são pecadores (embora se apresentem uns "puros"); a ocasião faz o ladrão e não estão livres à tentação de trincar a maçã que uma doce e traiçoeira Eva lhe ofereceu. Claro está os jornalistas também caiem em tentação, só que para eles há o ditado do frei Tomaz: "lê aquilo que eu escrevo e não repares para aquilo que eu faço"! Surtidas nocturnas muito bem planeadas e tudo correu excelentemente! Só não teria corrido bem ao jornalistas João Pacheco Miranda da RTP se não tivesse sido eu a desenrascá-lo na casa de massagens "Chao Prya I" para os lados de "Pratunam" área. 
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Ficou tudo arrumadinho (por 700 baths) entre ele e a massagista, dado que ela (jurou-me a pés juntos) que nunca tinha feito uma coisa (que ele lhe pediu) em sua vida... Os jornalistas até dão para umas "cachas" interessantes e a do Pacheco Miranda até seria na altura...
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Programa da visita oficial:
2o de Abril de 1987, pelas 10.25 as entidades tailandesas esperam o PM Cavaco Silva e sua comitiva na Sala VIP, do aeroporto da "Força Aérea Real Tailandesa". Os dignatários: H.E. Sr. Pong Sarasin, vice.Primeiro Ministro, sua esposa Senhora Malinee Sarasin.
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10.40 PM Cavaco Silva e sua comitiva chegam a Banguecoque a bordo do voo TG 603 vindo de Hong Kong. A aeronave estaciona junto à gare do aeroporto militar. Traje: "Lounge Suit" (casaco e gravata).
11.00 - PM Cavaco Silva e sua comitiva parte do aeroporto para o Palácio do Governo.
11.50 - PM Cavaco Silva é recebido pelo PM tailandês, General Prem. São tiradas as fotos habituais e entre os dois PM houveram troca de palavras durante 15 minutos.
12.20 - Chegada ao Palácio do Governo as senhoras de Maria Cavaco Silva e Malinee Sarasin vindas do Hotel Oriental.
12.30 - Almoço no Palácio do Governo em honra do Primeiro Ministro de Portugal Cavaco Silva e oferecido pelo PM tailandês General Prem. Toda a comitiva está presente (inclusivamente os jornalistas).
14.30 - Fim do almoço e o PM Cavaco Silva e esposa transportados para o Hotel Oriental.
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14.30 - Ministro dos Negócios Estrangeiros, eng. Pedro Pires de Miranda em "motorcad" segue para o Palácio do Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde se encontrará com o seu homólogo tailandês Marechal da Força Aérea Real Tailandesa Siddhi Savetsila. Conversações que se prolongaram por 30 minutos. Transportado o ministro Pires de Miranda para o Hotel Oriental.
17.30 - O PM Cavaco Silva dá uma Conferência Imprensa para os jornalistas/correspondentes estrangeiros, locais e portugueses. Cavaco Silva (o autor esteve presente) defendeu os direitos dos timorenses e acusou a Indonésia pela violação dos Direitos Humanos. Dá-se então um episódio muito curioso no final da conferência, quando foi confrontado com a última pergunta que lhe foi feita, na língua portuguesa, absolutamente correcta, pelo um jornalista tailandês M.L. Tuang Snidvongs que o PM Cavaco, admirado lhe perguntou: "o senhor fala português"? 
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Tuang Snidvongs expremia-se de facto em português (ao longo de vários anos encontrei-me com Tuang, em eventos comerciais ou conferências de imprensa e sempre falamos na pergunta que fez a Cavaco Silva) e ainda hoje o fala, embora já com muitas frases esquecidas. Tuang Snidvongs explicou ao PM português a razão porque falava português. É que seu pai tinha sido embaixador da Tailândia em Lisboa e de quando o Tuang era criança viria aprender a língua lusa com os amigos, vizinhos, miúdos como êle.
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20.00 - Jantar oferecido pelo embaixador Mello Gouveia em honra do PM Cavaco Silva e esposa no restaurante Rim Naam, do Hotel Oriental e na oposta margem. Onde naquele tempo era o mais fino e tradicional restaurante junto à margem do Rio Chao Prya. O PM Cavaco Silva e todos os convidados tiveram que descalçar os sapatos, entrar descalços e assim se conservarem enquanto dentro do Nim Raam. Porém e de realçar o embaixador Mello Gouveia, convidou toda a comunidade portuguesa, residente, em Banguecoque. 
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Era assim o diplomata que lhe dava gosto ter junto a ele, em todos os eventos (desde que não fossem protocolares) os portugueses residentes. E, bem recordo com saudades, de quando realizava eventos nocturnos no jardim da residência, todos os convidados partiam e, junto à base do pau de bandeira, quedava-se por ali um tempo sem limites a contar histórias e nós os portugueses ficavamos ali a ouvir o contador de histórias que em verdade o era. 
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Nunca o embaixador Mello Gouveia fez uma festa num hotel ou encomendou comidas de fora (aparte de uma onde esteve o pianista Adriano Jordão), mas todas eram confeccionados na cozinha da residência, onde não faltavam os petiscos portugueses e mesas com fundos em azulejos cheios de garrafas de bons vinhos portugueses. A fartura de tudo e a hospitalidade foram dons que sempre acompanharam o grande Homem da diplomacia portuguesa.
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Dia 21 de Abril de 1987 - Às 9 da manhã o casal Cavaco Silva e toda a comitiva parte para o Gran Palace e visitam o Templo do Buda Esmeralda. Regressam ao hotel Oriental e às 10.30 embarcam no barco "Oriental Queen" e o Governo Tailandês oferece-lhes um passeio ao longo do rio Chao Pray (Praiá) onde está incluído o almoço. Às 19.30 partem para o aeroporto de D.Muang. Às 20.30 tomam o voo AF 180 (Air France) Banguecoque Paris e dali para Lisboa. 
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A visita do PM Cavaco Silva à capital da Tailândia correu pelo melhor sem uma falha que se registasse. Tudo isto se deve ao dinamismo e saber do embaixador Mello Gouveia e aos colaboradores da embaixada, onde eu estou incluído. Porém vale a pena aqui inserir algumas passagens que o Prof. Cavaco Silva insere no seu livro que o intitula: "Aníbal Cavaco Silva - Autobiografia Política - Temas e Debates - Actividades Editoriais, Lda, relativas a sua visita a Banguecoque:
" No regresso a Lisboa parei em Banguecoque, para uma visita oficial de um dia (emendo foram dois), a convite do primeiro-ministro da Tailândia, general Prem Tinsulanonda. Quando em 3 de Abril de 1987 a Assembleia da República aprovou a moção de censura apresentada pelo PRD e o Governo caiu, pensei imediatamente cancelar a minha visita à Tailândia, no que fui desaconselhado, porque já anteriormente Mário Soares, enquanto primeiro-ministro, tinha, à última hora, cancelado uma visita àquele país. A Tailândia era vista juntamente com a China, a Coreia do Sul e o Japão, como um dos países da Ásia como potencialidades para a expansão das relações comerciais de Portugal. Era um país com uma herança histórica portuguesa - os Portugueses tinham sido os primeiros ocidentais a chegar ao reino do Sião, nos princípios do século XVI - em cujo estudo e recuperação se empenhava o nosso embaixador, José Mello Gouveia, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Portugal era o país da Comunidade Europeia com a mais antiga representação diplomática na Tailândia. O objectivo principal da minha visita e do ministro Pires de Miranda, que me acompanhava, era dar a conhecer Portugal como membro de pleno direito da Comunidade Europeia, e criar um clima político favorável ao incremento das relações económicas. As trocas comerciais registavam um forte desiquilíbrio - a mandioca era a principal importação de Portugal - e estava em discussão vários projectos de acordos bilaterais no domínio económico. Considerava-se também de interesse a negociação de um acordo aéreo para que a TAP pudesse escalar em Banguecoque. Timor fez parte da agenda das minhas conversações porque a Tailândia, contráriamente à China, apoiava a Indonésia. A posição portuguesa foi explicada às autoridades tailandesas e fez-se-lhe sentir que, sem a solução da questão de Timor, Portugal não apoiaria o aprofundamento da cooperação entre a Comunidade Europeia e a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático, que englobava a Indonésia, Singapura, Malásia, Tailândia, Filipinas e Brubei), a que a Tailândia dava muita importância. Em declarações aos jornalistas tailandeses denunciei a violação dos direitos humanos em Timor Leste, o que incomodou autoridades indonésias, tendo o ministro dos Negócios Estrangeiros, dias depois, vindo acusar-me de desconhecimento da situação no território. Estavam então presos na Tailândia dois cidadãos portugueses condenados a 25 anos de cadeia por tráfico de droga. Na perspectiva da minha visita e ba sequência de diligêncais feitas pelo embaixador português (N.minha Mello Gouveia) foi concedido o perdão real a um deles. Divulguei a notícia na conferência de imprensa que dei em Pequim, no Palácio do Povo, no dia 14 de Abril de 1987".
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Nota minha: Aqui o Prof. Cavaco Silva entra em erro e se compreende na informação em que diz que foi concedido o perdão real a um deles. Um preso saiu (do sexo masculino) precisamente, em liberdade após um dia da partida do Prof. Cavaco Silva. A do sexo feminino saiu em liberdade passado um mês. No entanto o perdão já tinha sido concedido e a demora de um mês se deve aos assuntos burocráticos. 
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Por razão deontológicas (que felizmente ainda se mantêm dentro de mim) não designamos os nomes dos dois detidos, que por várias vezes os visitámos, na cadeia e lhe levamos lembranças. No decorrer do tempo voltaremos a mencionar a visita, oficial do PM Cavaco Silva à Tailândia (hoje o Presidente da República) e quais os frutos que teriam sido colhidos desde há 21 anos.
José Martins