segunda-feira, 23 de setembro de 2019

MEMÓRIAS - CALOU-SE A GUITARRA DE ANTÓNIO PORTUGAL, EM BANGUECOQUE

terça-feira, março 18, 2008

MEMÓRIAS - CALOU-SE A GUITARRA DE ANTÓNIO PORTUGAL, EM BANGUECOQUE

INTRODUÇÃO
O embaixador José Eduardo de Mello-Gouveia, quando partiu da capital tailandesa e foi assumir a gerência do Missão Diplomática de Portugal em Tóquio (Junho 1988), deixou a Missão de Banguecoque alicerçada para a continuação das actividades comerciais e culturais. Como já referi o dinâmico diplomata veio encontrar a embaixada em míseras condições. Tudo estava adormecido e naquela representação de Portugal, no Reino da Tailândia, ( país de largas tradições séculos atrás, em Ayuthaya) existia o completo marasmo e o chefe de missão, de então, além de viver na "Nobre Casa" com carências de acomodação, por falta de verba resumia-se, apenas, a passar os dias. Um palacete em verdadeira decadência, a cair aos pedaços e envolvido entre barracões absolutamente apodrecidos. Não houveram actividades comerciais ou culturais e nem espaço para as poder realizar. Os sete anos da permanência de Mello-Gouveia além de terem sido produtivos deixou obra para ser continuada. Um Gabinete Comercial, cujo edifício foi mandado construir por ele. Dentro, sentado a uma secretária, um jovem activo de nome Chanu, formado nos Estados Unidos, "public relations" que viria a fazer um trabalho excelente por dois anos; uma secção cultural, sem adido, que viria depois. Várias monografias publicadas e muito interesse dos portugueses, de passagem por Banguecoque, de visitar a Embaixada. A comunicação social de Portugal e de Macau, desempenhou um papel muito importante para divulgar Portugal na Tailândia e as relações históricas entre os dois países vindas há vários séculos. Durante mais de 20 anos eu próprio continuei a noticiar tudo o que de bom era levado acabo na Embaixada. Hoje ainda o continuo a fazer com muito gosto. E o farei até que exista.


JUNHO DE 1994 IMPORTANTES ACTIVIDADES CULTURAIS DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE

Foi um mês em cheio e grande azáfama dos serviços culturais da embaixada. No dia 26 de Maio, enviei a peça para a Agência Lusa com o texto e parte do comunicado de imprensa que me foi fornecido por Ermelinda Galamba de Oliveira, a gerente do funcionamento da Secção Cultural da Missão Diplomática Portuguesa na capital da Tailândia.

O texto: " PORTUGAL EM BANGKOK - Festival - Sob o título genérico " de Fados e Filmes", os Serviços Culturais da Embaixada de Portugal estão a organizar uma semana de cultura portuguesa, nesta cidade, que terá lugar de 9 a 18 de Junho. O "Quarteto de Guitarras de Coimbra" com os cantores Paulo Saraiva e António Bernardino, iniciarão este ciclo com dois concertos, um a 9 e outro no dia 10 de Junho. O primeiro evento será um jantar de gala/concerto, num dos melhores hoteis da cidade, destinando-se os lucros de jantar/concerto a uma obra social votada ao apoio de mulheres e crianças, sob tutela de uma influente activista social patrocinada por uma das princesas da Família Real. O segundo realizar-se-á no auditório da Alliance Française e destina-se a uma audiência mais alargada. O Quarteto de Guitarras, composto por António Brojo, António Portugal, Aurélio Reis e Luis Filipe Ferreira, desloca-se a Singapura no início de Junho, onde participará no Festival de Artes daquela cidade, e tem ainda programados dois concertos em Kuala Lumpur e Malaca. O festival prosseguirá na semana seguinte com a apresentação de três filmes portugueses, também no auditório da Alliance Française, cedidos pelo Instituto Português de Arte Cinematográfica e Audio-Visual. Trata-se dos filmes "Amor e Dedinhos de Pé", "Adeus Princesa" e "Retrato de Família".

A GUITARRA DE ANTÓNIO PORTUGAL CALOU-SE, PARA SEMPRE, EM BANGUECOQUE
Morreu a "trova do vento que passa" . Silenciaram-se para sempre as cordas da guitarra de António Portugal

Nove de Junho de 1994 uma quinta-feira quente e húmida em Banguecoque por cerca da cinco horas da tarde dirigi-me para o hotel "Dusit Thani", ao Norte da "Silom Road", com a finalidade de me encontrar com os membros do " Quarteto de Guitarras de Coimbra". Pessoal do hotel decorava o "Sala Tiara", no topo do grande edifício, onde dali a panorâmica, observada sobre a cidade de Banguecoque, era o de altas gruas em cima ou nos alicerces dos prédios. Bem se poderia advinhar, na altura, que a capital tailandesa em próximo futuro seria uma cidade de arranha-céus e torres de cimento. O acordar de um grande burgo onde se encontrava adormecido o desenvolvimento urbano. No hotel Dusit Thani, às sexta-feira e sábados pela noite, num salão, ainda a sociedade, residente, antiga dançava o "tango" argentino. Sala "nostálgica" dos tempos românticos da "Cidade dos Anjos". Um hotel construído em 1970 com um serviço e de excelência e passados 38 anos mantém-se com as mesma característica e um dos melhores de Banguecoque. "Sala Tiara" configura um "capacete" e um componente da farda de um guarda da "Casa Real Tailandesa".

António Portugal acompanhando os cantores Paulo Saraiva e António Saraiva na "Sala Tiara".

Um espaço para ali ao fim da tarde se saborear uma bebida, um chá, um café, trocar dois dedos de conversa com um amigo. Lá do alto admirar Banguecoque no seu todo até ao Rio Chao Praya. Utilizado para grande recepções, sociais e diplomáticas e eventos culturais. Naquela noite de 9 de Junho um grande acontecimento e evento cultural genuinamente de expressão portuguesa. Os sons das guitarras iriam acompanhar os fados de Coimbra cantados pelos mestres Paulo Saraiva e António Bernardino. Gente de todas classes sociais da cidade de Banguecoque encheram as mesas da "Sala Tiara".
Foto da esquerda: Embaixador Castello-Branco com António Portugal. Lado esquerdo subiu ao palco para cumprimentar todos os membros

Depois do jantar o sarau de música e fados de Coimbra. As luzes mudaram de intensidade luminosa; os sons, mágicos e indolentes das cordas das guitarras envolveram todo o espaço e acompanharam os fados da cidade do Mondego onde se ouviu a "Samaritana". Pouca assistência entendia a letra dos poemas, cantados, mas não foi necessário porque o fado coimbrão entrava no ouvido dos presentes e desde logo os sentimentos lhe invadiam a alma.

O espectáculo de 10 de Junho o "Dia de Portugal" as cadeiras do Auditório da Alliance Française ficaram completamente ocupadas

Dusit Thani, não lhe encontrando, aparantemente, qualque sinal de doença que infelizmente, de regresso a Portugal, foi acometido de um ataque cardíaco que lhe roubou a vida quando ainda tinha muitos anos, neste mundo, para dedilhar a sua guAntónio Portugal, um exímio guitarrista, com quem conversei na Sala Tiara do hotel itarra a que lhe dava o nome: "o meu "Stradivarius". Sua morte chocou todos aqueles que apreciaram a sua arte, em Banguecoque e a quem tratava por "tu" o seu instrumento a guitarra. António Portugal deixou de pertence ao número dos vivos e óbviamente já esquecido na fraca memória dos homens. Mas porque temos, arquivado um texto, que na altura da tragédia, foi publicado no semanário a "Tribuna de Macau" que por vários anos fui correspondentes na Tailândia, a título de homenagem o transcrevo:

António Portugal: "UMA GUITARRA NO LUGAR DO CORAÇÃO" - Morreu a "trova do vento que passa"

" O meu Stradivarius", comentava António Portugal quando referia a sua guitarra predilecta construída em 1961, por Joaquim Grácio, o fabricante de instrumentos de Artur Paredes. O músico e compositor de Coimbra, faleceu nos Hospitais da Universidade de Coimbra, na sequência de um acidente vascular cerebal que o afectou no regresso de uma digressão à Tailândia, para participar no 10 de Junho - enquanto o Presidente Mário Soares o distiguia com a Ordem da Liberdade.António Jorge Moreira Portugal, de 63 anos, começou a aprender guitarra em 1947, com o célebre barbeiro Flávio Rodrigues, de quem foi o último acompanhante. Autêntico arqueólogo da canção coimbrão - designação que preferia a fado, porque menos restritiva e capaz de a distinguir da castiça expressão musical lisboeta - Portugal ensaiou permanentemente novas vias. Ainda no liceu, constituiria, em 1949, o seu primeiro grupo, a que se juntavam as vozes de José Afonso e Luis Goes.
Duas fotos em espectáculos de lugares diferentes: "Sala Tiara" no hotel "Dusit Thani" e no Auditório da "Alliance Française"

Pinho Brojo a mais célebre dupla de guitarras-um conjunto que assinalou, no ano. Acompanhou, actuou, compôs e gravou com todas as referências marcantes da música conimbrense, de Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira e de Fernando Machado Soares a António Bernardino - não excluindo na sua carreira terá sido, com passado, quatro décadas. Juntaram-se, pela primeira vez em Junho de 52, no Emissor Regional do Centro, numa transmissão da Serenata de Coimbra. A experiência permaneceu, em diálogos cúnplices, no acompanhamento de cantores e nas guitarradas soltas. Mais tarde, o duo acabaria por garantir ao cordofone o estatuto de instrumento de concerto. Nos anos 90, entraram em estúdio eregistaram em vinil, com o seu último quarteto - que integrava Aurélio Reis e Luis Filipe (acompanhados, designadamente, pelos "rouxinois" António Bernardino, Luis Goes, Alfredo Correia e António Rolim) - a colectânea histórica de oito décadas da música de feição estudantil, intitulada Tempo (s) de Coimbra
Minha filha Maria Martins, acompanhada, vai colocar colares de flores de jasmim ao membros do conjunto de artista, académicos, da Cidade de Coimbra
Preparavam-se já para registar o que definiam como seu testamento musical, que englobava o espólio das guitarradas que tinham composto, as que permaneciam inéditas. A conversa com aquele "virtuoso músico de eleição", aprendia-se quase toda a história do canto de Coimbra. Portugal sustentava que o fado era, afinal, de orígem trovadoresca, dos tempos em que a Corte estava sediada na cidade. Detestava o "nacional-cançonetismo" dos anos 40 e garantia que Menano foi, sem dúvida, "um dos grandes cantores da Europa". Membro da CDE e ex-deputado do PS, António Portugal seria. aliás, um dos grandes inovadores da música citadina. As modernas baladas militantes, em que desempenhava papel relevante a poesia do seu cunhado, Manuel Alegre, já não falavam dos amores românticos dos estudantes, mas antes da cidade sitiada pela polícia de choque, durante a Crise Académica de 69. Nessa época compõe, para a voz de Adriano, um dos mais belos temas de sempre da inspiração coimbrã. A Trova do Vento Que Passa.
Foto da esquerda: quarteto de guitarras e cantores de Coimbra durante a actuação no palco do Auditório da Aliança Française. Foto da direita: Ermelinda Galamba de Oliveira, adida cultural, Joana de Vasconcelos, leitora de português e um amigo. Não escondem a satisfação que lhes vai na alma

No momento em que desaparece uma autêntica lenda da guitarra de Coimbra - na senda de Artur Paredes e Flávio Rodrigues - , merecem apenas registo os versos que Manuel Alegre escreveu no seu livro de curso.

Traz no sangue uma canção /Retratos por revelar/Na inquieta imaginação/Se lhe falam em estudar/Tem a moral da cigarra: Para ele é sempre Verão;/Porque traz uma guitarra.No lugar do Coração

Diário de Notícias/Tribuna de Macau