sexta-feira, 6 de setembro de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque

Quarta-feira, janeiro 30, 2008



Oitava partes
Os leitores que leram a sétima parte pensarão por aí que em Banguecoque, de quando a primeira vez visitei a cidade, desperdicei todo o tempo nos bares do soi "Cowboy" a entornar garrafas de cerveja. 
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Em realidade, durante os 10 dias (os 700 dólares que trouxe comigo da Arábia Saudita não bastaram para as duas semanas previstas) que permaneci na capital tailandesa ocupei-os em visitas a templos na área onde se situa o "Grand Palace"; um passeio de barco pelos canais de Thomburi; ao "Rose Garden", para apreciar o folclore tailandês e os elefantes amestrados, ainda "bestas", na altura importantes na locomoção de toros de madeira das florestas do norte para as margens do rios, para depois ao sabor da corrente navegarem até às serrações ou para seguirem nos porões do barcos para o estrangeiro.
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Mas voltando ao montante de 700 dólares, foi escasso, dado que aluguei o carro do tio do motorista que me transportou do aeroporto para o hotel por três dias e saí para os arredores de Banguecoque. 
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Fiz contas à vida e houve a necessidade de voltar e ficar sob o ar condicionado quatro dias na "guesthouse" em Dharhan até que chegasse o dia de voltar à "crwe" no deserto.
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Longe se quedava ainda o privilégio de uma cartão "American Express" que viria dois anos depois. Banguecoque não tinha parado no tempo e iria crescendo (assim como o resto do Reino), conforme o desenvolvimento económico da Ásia, especialmente o do Japão. 
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A Tailândia continuava a sobreviver à infiltração do regime comunista, implementado na Birmânia, Cambodja, Laos; Vietname e nas florestas do Sul junto à fronteira da Malásia. Se poderia afirmar que a Tailândia estava num ninho revestido de cobras venenosas. 
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A democracia (embora condicionada) da Tailândia e o regime comunista do Cambodja, Laos e Vietname tinha como fronteira o grande rio "Mekong" no lado do Leste do Sudeste Asiático. Dissidentes tailandeses e aderidos à doutrina comunista da União Soviética causavam problemas ao exército tailandês que os perseguiam nas florestas do sul e as do nordeste. 
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A 16 de Fevereiro de 1997, a Princesa Real Vibhavadi Rangsit, durante uma visita que fazia aos soldados que patrulhavam a fronteira com a Malásia, no sul da Tailândia, para lhes levantar o moral, o helicóptero que a transportava foi atingido pelo fogo dos rebeldes e a Princesa, uma das vítimas, viria a falecer passado uma hora.

Suas Majestades os Reis da Tailândia Bhumibol Adulyadej e Sirikit em 1968. Em Agosto de 196o Suas Majestades visitaram Portugal

Em Banguecoque nada se notava e a vida entre os tailandeses continuava na paz plena com o dia a dia dentro da normalidade. O Reino produz muita comida e povo com o estômago cheio não causa problemas. 
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Uma das preocupações dos Reis da Tailândia foi que seus súbditos não lhes faltasse a alimentação. Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a fome nos países envolvidos no conflito directo ou indirectamente, as populações viram-se a braços (em Portugal foi um facto) com a falta de víveres. 
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Entretanto os armazéns nas margens do rio Chao Prya (Praiá), desde Bang Sai (ao sul do Ban Portuguete - Aldeia dos Portugueses em Ayuthaya) a Banguecoque, estavam repletos de arroz e outros cereais. Enquanto nos países vizinhos, devido à moléstia do regime comunista, as populações sujeitavam-se a privações de toda a ordem, desde as perseguições, ao genocídio em massa e à fome. 
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Os tailandeses continuavam a viver na abastança e, junto à fronteira, com esses países, sob a "pata" do regime comunista, faziam negócio de produtos da terra, sabão, fósforos e cigarros. Na Tailândia "os golpes de Estado" era um facto corrente e o executivo do Governo nas mãos dos militares.
Sua Majestade o Rei Bhumibol Adulyadej acompanhado de sua filha Alteza Real Maha Chakri Sirindhorn, caminham entre arbustos nas "terras altas" da Tailândia.

Os amantes da democracia condenavam a administração militar de então, mas ao exército tailandês se deve a Tailândia não ter caído nas teias do regime comunista que tanta desgraça e retrocesso do desenvolvimento económico, causou, aos países do Sudeste Asiático. 
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No "coffee shop" do "Honey hotel" passava largas horas a ver televisão e a gozar a frescura do ar condicionado e livrar-me da humidade do ar durante as horas de calor de ponta. Todos os noticiários davam as noticias com imagens das actividades de Sua Majestade o Rei Bhumibol Adludyadej ainda na altura um monarca jovem e com grande vitalidade. 
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Ora se via o rei da Tailândia em Banguecoque em eventos religiosos nos templos budistas, ou em visitas a aldeias remotas. Vemos um Rei a caminhar, entre arbustos, com uma máquina pendurada ao pescoço e um mapa na mão, acompanhado de uma jovem, sua filha Alteza Real a Princesa Maha Chakri Sirindhorn, com um bloco de notas nas mãos onde ia escrevendo o que via e ouvia de seu Pai. O respeito e a veneração do súbditos ao seu Rei impressionava e mais ainda um Rei a caminhar entre carreiros de montes!
Bem é que eu pouco sabedor da vida dos Reis, pensei, que os monarcas apenas se sentavam num trono, movimentavam-se entre-os-muros dourados do palácio e rodeados de "lacaiada" palacial e de "bobos" para os fazerem rir de quando sizudos. Tinha pela minha frente um Rei do Povo. 
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O meu Rei, há 28 anos, e me curvo respeitosamente pela paz e harmonia que no seu Reino tenho disfrutado, onde me nasceu uma filha, lusa-tailandesa e a licenciar-se na Universidade Chulalongkorn, fundada em nome e honra de seu avô, Rei Rama V. Continuando, preciso de conhecer algo sobre a cultura da Tailândia, os templos e a filosofia de suas gentes. A ignorância em mim existia sobre como seria a Tailândia. 
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Estaria distante de conhecer que os portugueses tinham contribuído para o desenvolvimento do Reino do Sião, havia mais de quatro séculos; que o Fernando Mendes Pinto (sabia eu quem tinha sido o Pinto!), tinha escrito na sua obra a "Peregrinação" brilhantes páginas onde descreve o Reino do Sião, como terra de "boa gente", de fartura e de outras histórias que têm servido de fonte onde os "sábios" vão beber. A "Peregrinação" tem sido minha bíblia que me acompanha, como português de patriotismo "baratucho", sempre me desloco pelos caminhos da Tailândia percorridos pelo Pinto. 
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O motorista, um velhote a rondar a casa dos 65 anos, já experimentado nas andanças de guia/motorista transportou-me num velho "Toyota Crow", de uns bons 10 anos de rodagem, com as chapas a bater deste a cobertura do motor às pancadas, secas dos amortecedores. Descemos a "Sukhumvit" e passamos pela "Wireless" e logo à entrada da via elitista do lado direito deparo com a residência do embaixador de Espanha e um pouco mais abaixo a do embaixador dos Estados Unidos.  
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Estou na rua Rama IV (Rei Mongkut) e a uns 300 metros entro na "Silom road". No canto ergue-se um imponente hotel de 33 andares o "Dusit Thani" e a uns 30 metros o escritório, identificado com letras "gordas" a linha aérea nacional soviética: AEROFLOT. A "Silom" road, comercial com prédios baixos e poucos subia aos 6 andares de altura.
1988-Silom road, passado 10 anos, depois de ter visitado pela primeira vez Banguecoque, poucos prédios altos tinha sido construídos. (a) O Cemitério da Silom, onde nessa altura ainda se sepultavam pessoas.

Não me apercebi que a 100 metros da entrada da Silom ao meu lado direito se situava a travessa do "Paptong". Mais abaixo o hotel "Narai" de doze andares. Dei conta antes de chegar ao "Narai" havia um cemitério de grandes dimensões, mas, saberia lá que aquele campo de repouso eterno estava cheio de história e que lá dormiam o sono eterno o Dr. Joaquim Campos, Cônsul que tinha sido de Portugal e uma proeminente figura, nos meios culturais em Banguecoque. 
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Igualmente, a poucos metros de sua sepultura erguia-se o mausoléu do Engarregado de Negócios Luis Leopoldo Flores. Outros portugueses e luso-descendentes de várias etnias dormiam sob as placas tumulares onde nestas estavam inscritos nomes genuinamente portugueses. 
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Normal o meu desconhecimento porque só tinha tido a oportunidade de frequentar a escola do ensino primário elementar por 4 anos e não me deu aso do que aprender que o Vasco da Gama descobriu o Caminho Marítimo para a Índia em 1498 e o Pedro Alvares Cabral o Brasil, no dia de Santa Cruz em 1500.

A "Silom" road ao fundo encontra-se a "New Road". A lado direito, na esquina, uma casa de três andares que me trás à lembrança de ter visto construções, mais ou menos semelhantes, em Moçambique. Janelas de vidraças pequenas e nos beirais cornijas rendelhadas. Na "New Road" não se presenciava grande movimento, o normal de outra artéria de Banguecoque. Circulavam os "tuk-tuk" carregando vegetais, uns táxis os "Blue birds" japoneses e crianças de uniforme que se dirigiam para as escolas. 
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Dos dos lados da "New road" estabelecimentos de frontarias decoradas; papelarias com artigos de escritório e livros "deve e haver". Ao lado esquerdo um imponente edifício de traço arquitetónica, elegante e linha idênticas aos de Londres, Paris ou mesmo de Lisboa; os "Correios Gerais de Banguecoque" que naquele local já levava 100 anos de existência. No topo um, pequeno, frontispício, onde encaixava um relógio. 
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Entrava nas minhas narinas o cheiro da fritura de peixe que nos passeios as cozinheiras de rua, vendia à clientela quotidiana. Outras, assavam largos de pedaços de raizes de tapioca, de cor amarela que mergulhava em mel produzido pelas abelhas selvagens nas matas de Ayuthaya e das montanhas de Lopburi. 
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Uma velhota que depois, saberia eu, que por anos a viria a encontrar no mesmo local e a deixei de ver quando um condutor descuidado a atropelou e a mandou a pobre mulher para o crematório, do templo budista, dali bem perto na "Prya Thai" road.
 O local onde embarquei e naveguei pela primeira vez no rio "Chao Praya". À volta do ancoradoiro (b) tudo se encontrava com um século. (a) o banco "Hongkong and Shangai Banking" a primeira instituição bancária, estrangeira, que se estabeleceu, na "Captain Bus Lane" na capital do Reino do Sião.
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Depois dos correios o condutor virou o velho "Toyota Crow", num velho soi que me dava conta que naquela travessa teria havido, anos que "já-lá-vão", muito movimento de cargas e descargas de mercadorias de e para as navegações ancoradas, dali bem perto, o rio "Chao Prya" (Praiá). Nas duas margens erguiam-se velhos armazéns construídos de chapas de zinco que os anos e a aragem nocturna húmida as enferrujou.  
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Ao fundo da "Bush Lane", para depois na curva virar à direita, havia uns armazéns em completo abandono e pequena vegetação crescia em redor. Aquele espaço estava cheio de história de Portugal no Reino do Sião! Não me apercebi que que para depois daqueles velho armazéns estava um dos edifícios, em ruínas, dos mais belos de Banguecoque, a Embaixada de Portugal, de outra era, cuja a construção remonta da década 60 do século XIX.
O antigo "Hongkong and Shangai Banking" e terrenos ajdacentes viria a dar lugar ao "Royal Orchid Hotel Sheraton" e ao "River City Shopping Centre", o mais especializado em antiguidades e joalheria.
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Um barco a motor do tipo dos "tuk-tuk" foi alugado por três horas por 300 baht e principiou a navegar, lentamente, pelo rio "Chao Pryá" acima. O rio já nessa altura possuia uma vida intensa fluvial. Afluência de turista ou que viesse anos depois sê-la no Chao Prya, era vaga. 
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Hoje o rio é um ponto de água, quase obrigatóriamente a ser navegado pelos estrangeiros que viagem para Banguecoque e poucos se privem de não conhecer o rio e tudo que as margens encerram. Nas margens lá estavam, alguns como espectros, os armazéns de um passado onde todo o comércio, local e internacional se processava nas margens. 
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A cidade foi crescendo, abertas novas vias e travessas ao logo do rio e os armazéns foram substituídos por outros de ferro e cimento. Mas uma grande parte desses armazéns ainda funcionavam nas cargas e descargas de batelões que transportavam a mercadoria, para os barcos a jusante e em águas mais fundas.
Comboios de batelões, puxados por reboques, ainda navegam no rio "Chao Prya". (a) Igreja de Santa Cruz.
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Puxados por um ou dois reboques comboios de batelões de 6 ou mais moviam-se, vagarosamente na água, enterrados até ao convés. Traziam o arroz e outros produtos agrícolas das baixa de Ayuthaya e que tinha sido junto nos enormes armazéns de Bang Sai e outros mais a montante. Três ou mais dias a desceram o rio e os reboques a lutarem contra as mais de meia-dúzia de marés-cheias que do Golfo do Sião estendiam-se até às baixa de Ayuthaya. 
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A umas poucas milhas da minha partida, chama a minha curiosidade a cúpula com uma cruz encrustada no topo. Ao redor "stupas" (torres) e templos budistas, com as cobras "voadoras" da mitologia thai, nos quatro cantos dos templos dourados, para os proteger dos "demónios". 
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O guia/motorista não soube explicar-me o porquê daquele monumento onde no cimo estava uma cruz, mas disse-me "there is "Santa Cluz" ( além é Santa Cruz). Não percebi nada em cima da informação que tinha obtido e continuei. Um pouco mais adiante na entrada de um canal está um forte com canhões entre elas. Ameias iguais às que tinha visto algures, em Portugal e África.
O Forte de Banguecoque com ameias lusa e canhões de grosso calibre
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Já não perguntei nada sobre as ameias e das peças, antigas, de fogo de grosso calibre. Todos os países se defenderam dos inimigos e os rios e as embocaduras são pontos estratégicos para a instalação de postos de protecção dos intrusos que cobiçam as terras dos outros. Estava naquele barco a navegar um "ignorante" sobre a história da Tailândia e de Portugal e que aquelas ameias eram genuinamente portuguesas e certamente as peças de artilharia, de Macau ou Goa, fundidas e decoradas pelo "mestre" de fundição Manuel Bocarra.
O templo "Wat Arun Ratchawararam", inciada a construção das "stupas" em 1842 (quando ali já existia o templo) e finalizadas em 1909, durante o reinado do Rei Chulalongkorn Rama V. O templo com mais imponência, na margem direita do Chao Prya que recomendo visitar aos portugueses de visita a Banguecoque.
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Pegado o templo "Wat Arun Ratchawararam" com quatro "stupas" (a maior com 34 metros de altura) dirigidas para o céu azul, daquela manhã sem núvens. Visitei-o junto a peregrinos, tailandeses que ali tinha ido em romagem e colocar "maçarocas" de flores do lótus ao Lorde Buda e fazer suas orações. Templo carregado de história política nos primeiros da fundação de Banguecoque na década 70 do século XVIII.
 O "Grand Palace" uma das sétimas maravilhas, que foi residência de Reis e de grandes actos protocolares, Imperadores, Reis, Chefes de Estado e embaixadores.
Naquele majestoso palácio foi assinado, em 1858, um Tratado de Amizade Comercio Navegação,entre Portugal e a Tailândia, com Izidoro Francisco Guimarães, Visconde da Praia Grande,  Governador de Macau.
A minha viagem pelo rio, muda a direcção, para o lado direito e entra nos canais de Thomburi. Vias fluviais, muito importantes na fundação da cidade de Banguecoque. Terrenos baixos onde não havia a hipótese de construir vias terrestes. Pelo rio e os canais da Tailândia tudo chegava à capital, desde os produtos da terra à lenha e ao carvão. 
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Ao longo dos canais, erguidos em cima de estacas de madeira erguiam-se casas com varandas. Estabelecimentos comerciais de chineses, templos, mulheres a lavarem a roupa e a miudagem a saltar das varandas para o rio. Miúdos iguais aos de todo o mundo que para mim: "Yú-Yú-Yú pedindo-me uns bahts".

O grande largo o "Sanam Luang". Hoje diferente da altura que o pisei. O tempo é de mudanças!
A minha excursão fluvial, pelo rio acima e canais terminou no ancoradoiro junto ao "Grand Palace". Caminhei uns 300 metros e entrei dentro do esplendor de instalaçãos palaciais que me deixaram extasiado por tudo que entre-muros deparei que na continuação da minha hsitória me irei referir em pormenor. À frente o grande largo o Sanam Luang, onde crianças despreocupadas, aproveitando o vento, lançavam papagaios, para a atmosfera. Naquele enorme largo se juntava (ainda nos dias de hoje) os súbditos de Sua Majestade o Reis do Sião (Tailândia) para homenagear o monarca ou apresentarem-lhe suas queixas.
José Martins