quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque

domingo, fevereiro 03, 2008



Nona partes
Regressei ao deserto da Arábia Saudita e as duas seguintes semanas, após seis de trabalho, fui goza-las a Portugal. Voltei a Banguecoque passado três meses da primeira visita. 
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Desconhecia que Portugal estava representado com um a Missão Diplomática; que os portugueses tinham sido os primeiros europeus a conhecer o Reino do Sião e neste Reino se mantiveram, como únicos do mundo ocidental por mais de um século.  
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Um dia ao ler a edição de uma pequena publicação "This Week", distribuída gratuitamente, numa página estava desenhado um mapa de Banguecoque, as ruas com a localização das embaixadas e consulados de países acreditados na Tailândia. Localizei a Embaixada de Portugal, junto à margem do rio Chao Prya.
O meu passaporte, ainda o de modelo de capas verdes e de poucas folhas, para quem viajava muito como eu, esgotava-se em pouco mais de dois anos com as "carimbadelas" nos aeroportos. Necessitava de adquirir um outro e aproveitaria a requerê-lo em Banguecoque já que existia uma Missão Diplomática.. Tomei um táxi no "Honey Hotel" e passado uns 20 minutos estava na Captain Bush Lane, 46 e onde já tinha passado e a pouco mais de 30 metros o barco de quando fui navegar no rio e canais.

Entrada (1978) da Embaixada de Portugal. (a) velhos barracões; (b) o edifício onde está instalada a chancelaria; (c) ao fundo virava-se à direita para a embaixada e chancelaria. Na imagem do lado direito se observa o edifício da chancelaria já remodelado e os barracões desaparecidos.Consulado do Embaixador Mello-Gouveia.

A entrada da missão quedava-se um guarda que depois de lhe mostrar o passaporte e apresentar-me com português franqueou-me a entrada e indicou-me o caminho a seguir. À minha direita estava um enorme barracão de tábuas e folhas de zinco onduladas. Do lado esquerdo um taipal de tábuas de madeira e arbustos que por ali cresciam. Estava a caminho da "Nobre Casa" (que mais tarde a baptizei), ao lado direito um meio muro e em cima ripas de madeira. 
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Nesse meio muro e ripas numa distância de uns 20 metros estavam as entradas com meias portas, muito bem trabalhadas por artista marceneiro e já velhas, de madeira de teca. Numa das duas colunas que suportavam as portas uma lanterna de metal, enferrujada e logo a seguir o escudo português, gravado numa placa de esmaltada em oval absolutamente deteriorada.
Uma lanterna e o esmalte com o símbolo da Pátria Portuguesa em miserável apresentação...
Envergonhei-me não por ser português mas pelo desmazelo e pouco dignificado, estava à frente dos meus olhos, o símbolo da Pátria Portuguesa. Murmurei: "isto é que é a Embaixada de Portugal em Banguecoque"? Uma autêntica pobreza franciscana! Entrei na arcada da "Nobre Casa", decoradas com uns "plintos", que me pareceram ser de orígem chinesa e ali colocados havia umas dezenas de anos. 
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Entro no palacete, a residência do chefe-de-missão e o serviço de atendimento aos utentes, instalado no salão ao lado direito da entrada que considero nos dias de hoje o "nobre". Atendeu-me o chanceler, tailandês, Chalerm e passado uns minutos o vice-cônsul, de orígem goesa, José de Souza. 
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Identiquei-me ao Souza como português e necessitava de um novo passaporte, mostrando-lhe o que possuia com duas folhas. O vice-cônsul Souza, nasceu em Zanzibar (o pai tinha sido cônsul na ilha), a representação encerrou e o Souza teria sido transferido para Nairobi, no Quénia e mais tarde transita para Islamabad (Paquistão) de quando o Quénia cortou relações diplomáticas com Portugal, devido aos problemas havidos em Angola, colocando-se ao lado, como óbvio, dos grupos nativos, apoiados pela China e a União Soviética de linha dura de regime comunista.
A Embaixada de Portugal. (a) pau-de-bandeira; (b) muro que dividia o terreno; (c) a "Nobre Casa" em estado de conservação caótico; (e) segundo muro que devidia o terreno; (f) entrada para a chancelaria de residência do chefe-de-missão. Foto dos anos 1955/58, que ainda não tinha mudado de cenário quando pela primeira vez ali fui.
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O Souza sob a protecção do então governante Prof. Oliveira Salazar (cheguei a ver, mais tarde em sua casa, uma fotografia onde está, mais a sua esposa, junto ao ditador) que penso sob seu apadrinhamento foi colocado no Consulado de Portugal na capital da Tailândia sob a gerência do então Encarregado de Negócios o Dr. Sebastião de Castello-Branco. 
Mais tarde eu viria a servir por sete anos consecutivos e de quando acreditado como embaixador de 1988 a 1995. Naquele serviço de chancelaria (viria a ter conhecimento de quando ao serviço da Embaixada de Portugal em Banguecoque), imperava o "ócio" e passar os dias até que ao fim do mês chegasse o "cheque de Lisboa" para satisfazer os ordenados e a verba para funcionamento da missão.
A entrada da Feitoria de Portugal nos anos 1910/1916. Consulado de Luis Leopoldo Flores.
Se tal não acontecesse seria disponibilizado do "saco azul" da secção consular, engordado com os emolumentos cobrados aos utentes. Saco "azulado" que viria a terminar de quando assumiu funções, em 1992, o ministro dos Estrangeiros Dr. Durão Barroso e inventado (diplomaticamente) o (FRI) "Fundo de Relações Internacionais".  
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Voltando ao vice-cônsul José de Souza (Souza com Z) atendeu-me com enfado e friamente e diz-me: " O senhor terá que apresentar o registo de nascimento para que lhe passe um novo passaporte".... Respondi-lhe: "Mas saiu um decreto que para se obter um documento de viagem apenas é necessário o Bilhete de Identidade"! O Souza sugeriu-me: "Vá ao Bharein e peça um novo passaporte no Consulado de Portugal"... Retorqui-lhe: "Vou a nado é"?... Para me deslocar ao Bharein (apesar de ter de atravessar o Golfo Pérsico de avião em escassos 15 minutos), necessitava de um visto, de entrada no emirato, que não era nada fácil obtê-la. E continuei para o Souza: "Não é necessário nada o Registro de Nascimento para me emitir um novo passaporte, entendeu"?

Terreno da Feitoria de Portugal nos anos de 1910. Consulado de Leopoldo Luis Flores.

Entendi que não me valia a pena entrar em discussão com um funcionário incompetente, com um rei na "barriga" e a servir "mal e porcamente" os portugueses que ao consulado se dirigiam a pedir um documento ou apoio consular. Saí daquele espaço absolutamente desprezível e de vergonha para um português que ali se dirigia para obter (dentro de seus direitos) e apoio consular ou diplomático.
Terreno da Feitoria nos anos de 1910. (a) sombra da "Nobre Casa" (b) um funcionário com um macaco; (c) muro que dividia o terreno; (d) pau-de-bandeira; (e) muro do lado sul a dividir o terreno; (f) ancoradoiro para o feitor e utentes, dado que em Banguecoque o usual para deslocações era o rio Chao Prya.


 
Continuei a não ter conhecimento o passado histórico de Portugal na Tailândia. Na próxima viagem a Banguecoque voltei novamente ao consulado e agora munido do registo de nascimento. Foi esta a minha vingança! E obti um novo passaporte. 

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Na altura geria a Missão Diplomática o embaixador Renato Pinto Soares, que me pareceu ser ele quando saiu de dentro, das instalações e passou junto a mim. Não me perguntou quem era de onde vinha e para onde seguia. Também não foi necessário.
José Martins