terça-feira, 3 de setembro de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque

Terça-feira, janeiro 29, 2008 - (Escrito nesta data)

Sétima Parte
Banguecoque é uma cidade fascinante! Há sorrisos e humildade de todas as pessoas. Encontro-os no pessoal do "Honey Hotel", nos motoristas de táxis (embora com a filosofia própria de sobrevivência) e nas raparigas dos bares "go-go dance" da soi "Cowboys, a travessa do pecado, frequentada pelos "oilmen", puritanos, casados, divorciados e amaricados. (Oil men, homem da exploração de petróleo, que eu também o era)
O meu baptismo na soi "Cowboy" aconteceu ao segundo dia depois de ter chegado à capital tailandesa. Um grupo de 14 rapazes da "GSI", hospedados no "Honey Hotel", juntaram-se no bar "Loreta" e cada um, conforme as garrafas eram esvaziadas (não era o usado o copo, mas um recipiente de esferovite onde o líquido da garrafa se mantinha fresco), ia pagando a rodada. 
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A rapaziada inglesa atirava-se para o gin com água tónica, os australianos, depois de ter engolido umas 20 garrafas,pequenas, de cervela "Kloster", ficavam mais ou menos aviados. Outros havia (crónicos) apreciavam o tai whisky, o popular, rum "Mekong", destilado, a partir, da cana do açúcar. 
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As raparigas entretinham a clientela dançando sobre um tablado, trajando biquinis com os peitos progegidos que periódicamente se revezavam para descansar. 
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Espaço absolutamente de bebida e de festa! Os "oilmen" desforravam-se na soi "Cowboy" da abstenção e jejum, durante seis semanas, de qualquer bebida alcoólica na Arábia Saudita. 
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Os que faziam escala no aeroporto do Bharein já haviam de jejuado com as primeiras meia dúzia de latas de cerveja, onde apesar do emirato estar sob os desígnios, das virtudes, da religião islâmica, estava aberta e excepção, a estrangeiros, de lhes ser franqueada a venda de bebidas espirituosas.
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A Sukhumvit road, na década 70/80, durante a tarde observava-se os "oilmen" a passearem calçados de botas de cano alto, de ponteira bicuda, camisas de tecido xadrezado, chapéus usados pelos cowboys do Texas americano, acompanhados, normalmente, pelas namoradas tailandesas, de pele escura e das terras nordestinas da região do "Esarn", a confinarem com a fronteira do Cambodja e do Laos. 
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Os tailandeses, bem no seu humor, siamês, característico e tradicional que se pode verificar em murais pintados, há séculos, nas paredes dos templos, estava bem patente na Sukhumvit road e com a chegada dos "oilmen". 
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Num t-shirt foi imprimido um boneco a representar a sua figura, corpulenta e bem alimentada, com designações a "chacotearem" os homens de algibeiras bem nutridas de "petrodólares", que cambiavam, das sete da manhã à meia-noite num guiché do "Thai Farmers Bank" um pouco acima do velho hotel Embaixador. 
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O t-shirt denunciava o passado e o presente dos "oilmen": "casado e divorciado, várias vezes, vagabundo. "liar" (mentiroso), bazofiador; amante de aneis com largas pedras preciosas ou puramente falsas; adquiridas e atendidos pelos simpáticos joalheiros estabelecidos nas redondezas; máquinas fotográficas e grosso charutos no canto da boca. 
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O t-shirt voltou famoso e um excelente negócio para os vendedores de rua da Sukhumvit que expunham todo o género de artigos nas paredes adjacentes ao passeio. 
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Outro t-shirt, com a mesma graça, refere-se a suas namoradas, tailandesas. Pela graça que as designações encerram vamos descrever no texto original em língua (macarronada) inglesa
Um dos famosos t-shirts, referindo-se às namoradas tailandesas dos "oilmen"
YOU´VE BEEN HAD...
Dear falang (nome dado, pelos tailandeses aos estrangeiros)
I write letter to you. Have you tell you now have big problem.
At my home Nakon Nowhere, Buffalo sick and cannot get rice from field.My father need 3,000 baht for medicine to make Buffalo good again. my broter me fall same. Need 5,000 baht for borrow good man help my father. Now my mother stay hospital and my baby also, both have denge fever from drinking water no good after my brother fall down well. Grandmother have a motorbike accidente, hit four chicken in road, but chicken fled scene, so have no one pay for her in hospital next bed my mother and baby, want 4.000 baht her. Sister in monkey house for make sex sow in Bangkok have to pay 200 baht everyday for food she, but police say no problem give 20,000 baht sister can go free. Young brother go hospital to cut for the ladyboy need 10.000 baht for operation. I think easy it you send 100,000 baht to me, can send my bank at Mangdar Bank. Now you stay you country. I now that I stay with you only one night, but you number one man for all 35 I go with last month. Now I know it you love much and think of you everyday I do room after disco. I not work same bar before - now have a new job Kanchanaburi River Kwai Road at Bird Watchers Bar, boss there have good heart and good man, have lots of pretty girls everyday and bar very good fun.
P.S. Please to send photo I can remember which one you.

IN THAILAND!!
Um "oilman" numa refeição com um amigo num restaurante de porta aberta na Sukhumvit road

A Sukhumvit é a arteira principal e a preferida pela rapaziada dos "petrodólares". Os indianos siks de turbante e barbudos, abriram estabelecimentos de alfaiataria, onde pela "bagatela" de uns 20 dólares se vestia um homem dos pés à cabeça. 
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Nessas lojas adquiriam-se bilhetes de avião a 100 dólares de ida e retorno para Singapura, Filipinas e Hong Kong. A indústria turística, na Tailândia ainda tinha poucos turistas estrangeiros, além do "oilmen" que se deparavam nas ruas da baixa de Banguecoque. 
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Portugueses a viajarem à Tailândia, raramente se encontravam, a não ser, algum a caminho de Macau e quedar-se, na Tailândia para visitar os templos. 
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Um dia cruzou-se por mim, na Shukumvit road, um casal na casa dos 60 anos. Pensei devem ser portugueses. A minha curiosidade, para me certificar, levou-me a seguir os seus passos para os ouvir falar e com isto identificá-los. 
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De facto eram portugueses... Andavam por ali "pasmadinhos" e apresentei-me. O casa regressava a Lisboa depois de visitarem familiares em Macau. Depois de dois dedos de conversa diz-me a senhora: "comprei um corte para um vestido de tecido de seda, tailandesa e, enganaram-me, com seda chinesa"!
Restaurantes havia vários ao longo da rua entre o soi números 22 até ao 2, o fim da Sukhumvit road e principiava a "Plonchit". Com 100 baht (cerca de três dólares) almoçava-se ou se jantava de excelente comida, picante ou menos conforme o gosto do cliente e onde os mariscos estavam, sempre inseridos e o arroz frito (uma especialidade) no menú. 
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Os tailandeses, têm orgulho da sua culinária e gostam de perguntar aos visitantes se apreciam a comida tailandesa e em verdade é excelente!
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Os restaurantes de comida rápida, americana, só surgiriam passado uns seis ou sete anos com a primeira Mac Donald ao fundo da Ploenchit e na área de Pratunam. 
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Raramente se encontrava uma pessoa tailandesa, jovem ou criança fornecidas de "banhas", mas de um corpo seco e saudável, dado à alimentação de arroz,vegetais, carne de frango (ainda sem alimentação de ração), de búfalo e muito peixe que o havia, abundantemente, no mar, canais de Banguecoque e no grande rio Chao Praiá que divide a capital em duas partes. 
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Como já o descrevemos, a cidade era calma, não se registavam grandes roubarias, assaltos a pessoas (aliás ainda hoje Banguecoque, onde vivem mais/menos de 12 milhões de almas, continua a ser um burgo seguro para os turistas), mas uns pequenos roubos de máquinas fotográficas ou de outro utensílio que se descuidaram e esqueceram posado na cadeira do lado onde estiveram sentados. 
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Depois da Sukhumvite road estava o soi "Paptong", uma travessa que liga, no princípio da "Silom" road, com a "Surawong" road. 
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O soi "Paptong", hoje famosa e não há turista estrangeiro que a não visite para fazer compras no mercado da noite ao ar livre; beber uns copos e divertir-se com umas raparigas nos bares "go-go dance". 
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Na ocasião que comecei a visitar Banguecoque, o soi "Paptong" era pouco frequentado pelos "oilmen" e mais frequentado pelos turistas japoneses que nessa altura era o maior quinhão, significativo, de visitantes, dado ao desenvolvimento económico japonês e que viria a ser a idade do ouro e normal se ver turistas do Japão pelos países da Europa.

A alegria das raparigas tailandesas contagiam todos que bebem uns copos e passam um bocado da noite nos bares da "Cowboy" e da "Paptong"
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O movimento nocturno do soi "Cowboy" tinha outra dimensão e também pela facilidade, havida, na área de mais hoteis e "guesthouses" de diária a preço módico. 
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A história da "Paptong" (que apesar de se situar perto da Embaixada de Portugal, só a viria a conhecer passados uns seis anos de já estar fixado em Banguecoque), tem início na década 40 do séc. XX. Antes o local, um meio rural com a cultivação de vegetais e arroz. 
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Um emigrante chinês comprou ali um largo terreno que pertencia à Casa Real Tailandesa, por 2.850 dólares. Os seus patrícios, chineses apelidaram-no de "maluco" pelo facto de ter investido o avultado montante e numa área distante do "China Town". 
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Ao exército japonês foi-lhe franqueada, livremente, a entrada na Tailândia e que viria a dar aso à construção da "Ponte do Rio Kwai", na província de Kanchanaburi (proximidade da fronteira com a Birmânia), pelos prisioneiros do "Commonwalth Nations" (iglesas, australianas, canadianas, nova zelandesas, indianas e de outros países aliados onde se incuíam soldados americanos), cujo objectivo seria ligar Singapura à Birmânia e se possível estendê-la à Índia. 
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A construção da ponte redondou em tragédia e onde foram sacrificadas mais de uma centena de milhares de vidas de soldados e trabalhadores e ficou conhecida pela "infame ponte". 
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O Sr. Paptong (nome do chinês que havia adquirido o campo rural) abriu uma rua, construiu um restaurante, mas tarde uma "guesthouse" e o nome da travessa fica baptizado pelo soi "Paptong". Igual à travessa do "Cowboy". A Sukhumvit road ficava demasiada distante do centro comercial e da área ribeirinha de Banguecoque. 
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A zona da Sukhumvit, até à Ekkamai (soi, ao sul, 61) era considerada a zona preferida das elites tailandesas onde viriam a construir mansões de madeira de teca, que na altura existia com abundância no Reino do Sião.
O hotel do chinês Paptong começou a ser frequentado pelos oficiais japoneses. A Segunda Guerra terminou com a derrota dos alemães e a fugida em debandada dos japoneses da Tailândia. Começa, então uma nova era para o soi "Paptong" com os voos dos aviões da Europa para a Ásia, Oriente, Austrália e Nova Zelândia. 
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O aeroporto de Don Muang, devido a sua situação geográfica é ponto obrigatório de escala das aeronaves que se deslocavam da europa, com demora de uns três ou quatro dias de viagem e em Banguecoque efectuava-se a mudança das tripulações que se tinham hospedado no hotel "Paptong". 
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O soi começa a crescer e voltar famoso não só pelas tripulações e passageiros dos aviões, como pelos marinheiros dos barcos que fundevam na doca do porto de Banguecoque, no rio Chao Praiá, a uma milha, mais ou menos da Feitoria de Portugal. Onde há marinheiros e tripulantes terá que haver bares e, não foge à regra, em qualquer espaço do mundo que neles haja raparigas. 
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A "Paptong" nasceu quarenta anos antes do soi "Cowboys" e tomou-lhe o lugar e o movimento nocturno do "Cowboy". Porém (embora a não frequente há muitos anos) o espaço criado e "americanizado", pelo "oilmen" nunca abandonou as caracterísiticas de sua fundação e os vendedores de rua não assentam na travessa banca. 
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O soi "Paptong" quando o comecei a frequentar era um local turístico, sossegado, já com muitos bares de "go-go dance" onde as raparigas, num tablado ao centro do bar dançavam (absolutamente protegidas as suas partes pudicas) e agarradas a "varões de metal" exibiam-se fazendo autênticas acobracias. 
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Os passeios, providos de cadeiras, mesas e vasos com plantas, tornando o espaço aprazível para se beber uns copos de cerveja, ver um filme, tranquilamente.
A jornalista "free lancer" Carol Thatcher, filha da Primeira-Ministro, do Reino Unido, Margareth Thatcher, em 1984, visitou o soi "paptong" bebeu no bar "King Castle" e de outras vezes que visitou a Tailândia uma ou duas noites dedicava-as, para se divertir na travessa do "Paptong" e beber um copo nos bares. 
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Segundo me informou um amigo de Macau (em 1986 Paptong aditivo) que teria sido um português que introduziu no soi "Paptong" as massagens e os banhos turcos. 
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A tabuleta luminosa, todas as noites se acende e designa "La Costa" (os tailandeses têm dificuldade de pronunciar (da) e substituiem a pronúncia por (la)). O que, para mim, me diz um quaisquer: José, Joaquim, António da Costa português. 
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A história verdadeira ou falsa (contada ao meu amigo por um idoso e conhecedor da "Paptong") foi a seguinte: "em tempos um tripulante de um barco português, por uns dias lançava a âncora no porto de Banguecoque para descarga, carga e abastecimento na margem do Chao Praiá. Ora o Costa, aliás como outro tripulante o faria, foi matar o tempo até ao soi "paptong"
Continuou, sempre que passava por Banguecoque a visitar o soi "Paptong" e  um dia ficou de amores com uma jovem tailandesa, empregada de mesa do restaurante do chinês "Paptong". Mais adiante e numa das ancoragens do seu navio, no porto, o Costa disse adeus ao mar e ficou por Banguecoque. 
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O da Costa, um tripulante (talvez com um amor em cada porto) apaixonou-se pelos olhos amendoados tailandeses. Certamente navegou pelos portos do Mediterrâneo e experimentou as massagens e os banhos turcos. 
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Um negócio, que lhe salta desde logo à vista, reconfortante e relaxante para os homens que viajavam por dias da Europa ou do Oriente em aviões cuja turbolência e a morosidade da viajem bem necessitavam de uma massagem e um banho a vapor para lhes retirar o "jet lag".
O negócio progrediu ao da Costa a olhos vistos! Não fizeram fortuna mas estavam no bom caminho para atingir a meta. Tiveram filhos e compraram automóvel. Um dia sua mulher, acompanhada dos filhos, saiu de Banguecoque, para uma província visitar a família, conduzindo o automóvel. 
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Um acidente na estrada roubou, ao da Costa, a vida da mulher e de seus filhos. Pela fatalidade que foi atingido o português da Costa enlouqueceu (não seria para menos) e desapareceu do soi Paptong. 
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Obviamente viria a morrer, não se sabe aonde e certamente o seu corpo cremado num templo budista. Talvez tenha ali acabado os seus dias e a viver da esmola de "uma" malga de arroz. Procurei nos arquivos antigos, há anos, do Consulado de Portugal em Banguecoque e não encontrei assento de óbito ou inscrição consular. 
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Porém todas as noites, há dezenas de anos, a tabuleta de néon, no soi "Paptong" se acende e lá está o portuguesíssimo  nome "DA COSTA". Deixei de visitar o soi "Paptong" há mais de 10 anos pela noite.
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O soi ficou congestionado com bancas de roupa e bugigangas que torna difícil caminhar-se e as esplanadas que antes havia nos passeios desapareceram. O progresso e o desenvolvimento que tudo nos leva. Restam-nos, valha-nos ao menos isso, as memórias de um passado delicioso!
José Martins
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Informaçõe http://www.angelfire.com/ e "Paptong Bangkok´s Big Little Street" de Alan Dwasons: Minhas, várias fontes e das obras "Thailand Land of Beautiful Woman de "Dean Barret"