quinta-feira, 29 de agosto de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque

Quinta parte


Em verdade não foi fácil, nos primeiros tempos, a minha adaptação ao deserto. O trabalho demasiadamente duro sob altas temperaturas durante as 24 horas da volta dos ponteiros do relógio. Os anos que deambulei por África ajudaram a minha integração, climática, aos rigores do deserto. As primeiras seis semanas foram as mais dificeis. A duas de descanso reconfortavam-me. 
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Chegado a Portugal os familiares e pessoas conhecidas faziam-me perguntas acerca da Arábia Saudita; como se processava a vida por lá e condições de vivência e trabalho. Em Portugal a situação económica piorava e subia, em flecha, o custo de bens de consumo onde se incluiam os combustíveis. 
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Nada melhorava e as disputas políticas, um constante, entre os homens que surgiam como novos Messias e os salvadores da Pátria portuguesa. O "povoléu" entretinha-se, para esquecer as dificuldades económicas, a ver as telenovelas importadas do Brasil: "A Gabriela" e outras de "cordel" .

De Portugal e de volta ao inferno do deserto despendia uns dois dias em Lisboa e hospedava-me numa pensão, do lado direito do Teatro de D.Maria e nas proximidades da estação do Rossio. Em frente ao Café Gelo, deparava o mesmo cenário, grupos, de retornados desalojados de Angola e Moçambique e uns poucos da Rodésia. 
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Entre o grupo o amigo José Augusto Serras Pires, o filho mais novo da "clã" Serras Pires, cujo pai foi um pioneiro do desenvolvimento, genético e agrícola na região de Tete em Moçambique. O Adelino Serras Pires, enviou-me mais tarde por mão própria, para Banguecoque, o excelente livro que escreveu " Ventos de Destruição"
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Depois dos cumprimentos da praxe: "Ó pá que fazes"? Vim a saber que o José Augusto Serras Pires (uma revelação de piloto de ralies em Moçambique) estava integrado na República Central Africana como caçador guia numa empresa de turismo genético.

Mas outros retornados, já com idade difícil de conseguir trabalho, lamuriavam-se da infelicidade que foram atingidos e a viverem de esmolas a expensas da família e pessoas amigas. Tinha perante, os meus olhos a visão negativa do "tal" 25 de Abril de 74 que devolveu aos portugueses a liberdade, sem pão, e muito "palavreado", baratucho, nas praças públicas de Portugal. 
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Nas ruas de Lisboa e do Porto a cada passo me cruzava com gente de várias etnias e cores regressados de Moçambique e Angola, hospedados em pensões de baixo preço e encobrindo suas misérias. Uns meses depois de já, absolutamente, integrado na "GSI" na Arábia Saudita, fui incumbido por um director-geral, o americano Bill Smith para que em Portugal escolhesse três novos elementos para a companhia. 
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A "GSI" já por mais de 20 anos tinha ao serviço dois e servido a companhia em operações de prospecção de ramas de petróleo no Irão. Iraque, Jordânia e, no momento, algures, destacados numa "crew" na Arábia Saudita, que ainda não me tinham sido apresentados. 
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Uns meses depois viria a conhecer o Marcelino, mecânico e o Fernandes operador de máquinas perfuradoras. Mister Bill Smith nutria larga simpatia pelos portugueses e suas capacidades de produção. Desejava com isto mais a colaborarem na "GSI". 
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Recomendou-me, numa das idas a Portugal, para refrescar o corpo e a alma, que lhe conseguisse pessoal. Pouco lhe importava ter ou não ter conhecimento e habilitado para o serviço. Quem seria quem estaria apto para operar com a maquinaria usada pela companhia? Poucos seriam e o treino seria ministrado dentro das "crews".
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Coloquei um anúncio no "Jornal de Notícias" do Porto, a oferecerendo emprego na Arábia Saudita e com resposta à redacção. Passado dias fui recolher cerca de centena e meia de cartas para seleccionar. A maioria dessas respostas contavam uma história triste de um "retornado" que tinha regressado de África e com extremas dificuldades económicas.
Escolhi meia-dúzia e pelo telefone, números do merceeiro ou do vizinho do lado para que os chamassem e atender a chamada. Seleccionei dois retornados: um jovem na idade dos trinta anos, retornado de Angola com mulher e dois filhos alojados numa cela da cadeia de Vila do Conde. A construção da cadeia de Custoias levou à desactivação a de Vila Conde e, aproveitada, para alojar retornados. 
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O jovem retornado e residente numa cela de cárcere, com a mulher e dois filhos, sem as mínimas condições de dignidade de viver, ocupava-se nuns pequenos "biscates" com guia e tradutor de estrangeiros que se deslocavam a Portugal para efectuar negócios. O jovem foi recomendado por mim, ao mister Bill Smith, e seguiu para a Arábia Saudita. Passado dois anos comprou uma casa para viver, com a família, decentemente. 
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Chegado à Arábia Saudita mister Bill Smith, encontrando-lhe qualidades integrou-o na central computorizada (um camião fechado que recebia e armazenava, no deserto, dados dos vibradores que calcavam o solo) e mais tarde enviou-o para o centro de treino de programação da "Texas Instrumentos" em Dallas, para se especializar e voltar com os conhecimentos adquiridos para a Arábia Saudita. Os outros dois candidatos um mecânico e o outro integrado no grupo de perfuradores. 
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A "GSI" continuou a contratar pessoal português para diversas "crews" a operarem em várias partes do mundo onde pesquisava ramas de petróleo no mar e em terra. Prova-se mais uma vez que o trabalho dos portugueses e aliado à excelente adaptação e aprendizagem pronta e humildade no relacionamento estava a ser apreciado e pretendido pela "Geophisical Service Inc."

COMO VIAJEI PELA PRIMEIRA VEZ PARA BANGUECOQUE

Não conhecia absolutamente nada em relação à Tailândia, aliás de outros países da Ásia, excepto as antigas possessões: Goa, Damão, Diu,Macau e Timor. A ocupação dos territórios portugueses indianos tinha-a acompanhado e ter feito "monte" em certas manifestações, de desagravo contra a Índia pela a invasão, levadas a cabo no Porto. 
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Vi os soldados, expedicionários, portugueses vestidos de roupa de tecido "caqui" e bivaque a cobrir-lhe meia "carecada" a descerem a rua do Loureiro, no Porto e a derraparem com as botas de cabedal com solas pregadas de brocha miúda no passeio ensebado que os colegas levantantavam da calçada sob larga gargalhada. 
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Os rapazes vinham do Quartel General, situado ao cimo da rua do Cativo, oposto às traseiras do Teatro de São João, onde tinham ido recolher a guia de marcha. 
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Sobre Macau aprendi alguma coisa nos bancos da escola, onde na altura por obrigatoriedade os professores ensinavam os alunos, a partir da segunda classe, a epopeia portuguesa no Oriente. Em relação a Timor, situado nas Índias Orientais, o professor ensinava aos alunos que naquele território o petróleo brotava espontaneamente como a água surgia das nascentes. 
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Um soldado raso, meu vizinho (que nunca conheci) tinha sido mobilizado para servir o exército português em Macau. Ouvia em criança na minha aldeia que em Macau existia a "árvore das patacas" e só necessário abaná-la e apanhar do chão uma "chapelada" de moedas. 
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O pai do soldado, o ti Manel Médico (só de alcunha entenda-se) já velho entrou na senilidade. A tia Palmira, sua mulher trabalhadora, na agricultura, a dias deixava para o almoço do ti Manel Médico um tacho de feijões já azedados. O velho senil lá os comia (outra comida não tinha!) e dizia aos vizinhos: a Palmira trata-me muito bem... dá-me feijões com vinagre!
O filho António quando regressasse de Macau havia de chegar rico com muitas patacas... E quando, pela noite (raramente) uma avioneta voava pelo céu da minha aldeia, o saudoso ti Manel Médico do filho e das patacas ao outro dia à porta do casebre dizia aos vizinhos: " o mê António ontem veio visitar-me e passou aqui com um "róplano". 
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Estava distante dos meus planos viajar para a Tailândia e continuei, depois das seis semanas de trabalho, a seguir para Portugal e por algumas vezes passar por Las Palmas de Gran Canária. 
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Um dia na caravana de sala de jantar do pessoal expatriado junto a mim o britânico Jhon. Entre dois dedos de conversa pergunta-me: "Josi where´s go on you home leave"? Portugal Jhon... Ele responde-me: "Josi (na pronúncia dos ingleses) you are a crazy man! Hey you must to go to Bangkok to enjoy you home leave. O Jhon era daqueles jovens sossegados, pouco dado à bebida e seguia de amores com uma jovem tailandesa, com quem viria a casar e constituir família.
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Mostrava-me fotos tiradas em Banguecoque, em outros locais aparazíveis onde se incluia imagens de Chiang Mai. Toda aquela beleza me fascinou. O meu colega John encarregou-se de me dar todas as informações necessárias; chegada ao aeroporto internacional de Don Muang; alugar um táxi e a indicação do hotel onde me deveria acomodar. Umas outras, pequenas, recomendações. 
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Do meu pensamento já não saia a ideia de viajar até Banguecoque e ir ao encontro das belezas e o exótico que tinha apreciado quando vi o esplendoroso filme "O Rei Eu" (que não tinha sido rodado na Tailândia) em que os artistas principais são o actor Yul Brynner e a actriz Deborah Kerry.
José Martins