terça-feira, 27 de agosto de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque

Quarta Parte
Chegado à "crew" com os ossos moídos dos solavancos da viatura num caminho irregular ao longo do deserto. Ora temos, aqui, areia mais além piso duro com pedras "lime stone" à mistura a inquinarem o trajecto e provocar-me saltos daqueles de bater, quase com a cabeça, no tecto da cabine do Toyota "Land Crusier". 
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Na "G7" o motorista paquistanês, um da meia dúzia de estafetas, motorizados, da GSI que de Dharhan transportavam o correio e pessoal, de ida e volta, entre as brigadas espalhadas pela imensidão do deserto saudita, foi apresentar-me ao "crew manager", Davis Slingthon, num pequeno escritório, instalado num meio espaço de uma das seis caravanas que alojavam o pessoal expatriado, cozinha e sala de estar e servir refeições. 
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Davis Slingthon, escocês, de face tisnada pelo sol tórrido do deserto, recebeu-me bem à moda britânica, não com um brinde de chá da escócia, mas com uma chávena de chá "Liptons" do ceilão e a bebida popular, mais servida e bebida na "G7", entre os árabes, asiáticos e europeus.
Os trabalhadores (labourers) alojados num aldeamento, provisório, de tendas. Claro e óbvio que não fui recebido de braços abertos como se o Davis Slingthon me conhecesse havia anos. Isso seria para mais tarde e de quando já familiarizado com todo o pessoal, expatriado, residente. Aquele lugar de trabalho era um espaço "babélico", com gente de várias nacionalidades: americanos, australianos, britâncios, canadianos, o Zé colombiano, o Alberto italiano de Pescara e o Diaz Sola, espanhol de Alicante
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Todos se exprimiam na língua inglesa. Mas com toques de pronúncia diferente que nos primeiros contactos me encontrei em "palpos de aranha" para entender os canadianos e australianos. Porém a latinidade encontrava-se no deserto. Fenómeno que mesmo de diferentes nacionalidades se aconchegam, uns aos outros; esquecendo as suas pátrias bem distantes e formam ali a latina. 
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Não é fácil a introdução entre o pessoal expatriado enquanto não chega a confiança mútua e qual o gosto, de cada um, nas conversas. Pessoas com idades compreendidas entre os 30 e os 55 anos e cada uma com uma missão a cumprir durante, os turnos de dia ou de noite de 12 horas cada um.

Uma dúzia de horas a trabalhar e outra para dormir e relaxar na sala de estar onde havia revistas, lidas e relidas e um televisor que alimentado por um gravador transmitia filmes americanos de "coboiadas" e ainda outros musicais. 
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Estou fora da civilização e do conhecimento do que se passava no mundo. Há trinta anos ainda era uma miragem o aparecimento das comunicações por satélite; os telefones móveis e a globalização da Internet. Pouco me importava, em verdade, daquilo que estava passando fora da "G7", mas com a objetividade, firme, de fazer dinheiro. Era mesmo para o amealhar! 
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A permanência em África tinha-me ensinado algo e um homem como eu na "ternura" dos 40 não lhe dava por aí além muita margem para se descuidar em preparar a velhice acabar, por aí, na "Sopa do Sidónio" (caldo dos pobres) e um "tristinho" a viver da caridade pública.

Durante as seis semanas naquele desterro desertino não havia despesas extras. Tudo nos era fornecido (menos os cigarros) sem despender um real saudita. O dinheiro ali não tinha significado algum. Teria sim quando partisse para férias e para que saísse da "claustrofobia" de ver as mesmas caras diariamente. 
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Estado que nunca me afectou, mas atinguiu alguns expatriados que os levava à irritação e ainda outros que se levantavam durante a noite e dedilhando uma viola, sentados nas escadas de ferro da entrada para os pequenos quartos das caravanas e ficavam por ali a imitar, as canções, dos "cowboys" texanos. 
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Uns toleravam-nos outros não aceitavam o distúrbio, nocturno, do descanso. O castigo aplicado e a regra imposta na "crew", no dia seguinte o cantor fortuíto, claustrofóbico solitário seria enviado para o "povo", na giría latina ali implementada, para a sede das operações da GSI em Dharhan onde lhe seria dado o bilhete de avião para suas orígens e sem retorno à Arábia Saudita. 
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O trabalho na brigada era de extrema dureza. Cada expatriado tinha que desempenhar a missão que lhe fora distribuída conforme a sua especialidade. O turno de dia com 12 horas seguidas era o mais difícil de cumprir. Pelas 5 da manhã um trabalhador iamanita dava três murros, calculados, na porta de cada quarto das caravanas. 
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Anunciava a hora do "pino" da cama e que o "break fast" e as jarras de vidro com sumos, estavam em cima da mesa na sala de jantar. Os oito expatriados do turno do dia, depois de passar água pelo rosto, entravam na caravana para o pequeno almoço a esfregar os olhos; com cara de poucos amigos e a oferecer "soco".

Alguns, logo, na primeira refeição matinal bebiam uma jarra de um litro de sumo de laranja ou de ananás; abancados à mesas devoravam uns quatro ovos estrelados, embebidos com meia garrafa de molho de tomate e fatias de carne de vaca (a imitar fatias de bacon), porque na Arábia Saudita não entrava carnes ou salsichas de porco. A religião islamita não o permitia. A um lado e seguidas estão as "lancheiras", térmicas com meia dúzia de sandes, latas de conserva, fruta e uma vasilha igualmente térmica com 10 litros de água com pedras de gelo para o expatriado matar a sede e vencer a desidratação a que vai estar sujeito no local de trabalho. 
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O trabalhador terá que partir para o local onde está fixa a máquina a perfurar o solo (por vezes a 40/50 quilómetros) bem abastecido de víveres e água. Não vá por aí o diabo tecêlas  em lhe avaria a viatura pelo caminho, perder-se na rota pelo facto do vento apagar o rasto dos pneus e as sinalizações (bandeirinhas vermelhas) que indicam o trajecto. 
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O deserto tem semelhanças ao mar, não afoga em água mas provoca a desidratação de líquidos do corpo, debaixo de altas temperaturas, a vítima entra em delírio, desorienta-se e caminha enquanto tiver forças na busca da sobrivência, observa miragens de lagos, verdura a brotar nas margens e dirige-se para lá sem tino que seja, para a presa de água de sua imaginação e cai como uma andorinha que não pode acompanhar o bando na travessia do deserto em procura da primavera na Europa. 
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Homem perdido no deserto o mesmo que o marinheiro do navio gritou: "homem ao mar"! O alarme foi dado e todos se mobilizam, no acampamento, para o procurar. O acontecimento é transmitido, pelo rádio móvel do acampamento, para o centro de operações em Dharhan.

O chefe de campo dos "labourers", um ex-beduino nascido numa tenda e conhecedor das agruras e belezas que o deserto encerra, prepara o seu grupo de trabalhadores e parte em procura da pessoa perdida. Os expatriados seguem-nos. 
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As luzes dos farois das viaturas de tracção às quatro rodas são a orientação nocturna para os pesquisadores. Conduzem os "jeeps" por entre as dunas, por espaços abertos e o perdido não foi achado. Ninguém pregou olho e a consternação é geral no acampamento. Aventa-se o pior. 
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Na manhã seguinte um helicóptero, vindo de Dharhan ou de outra base mais próxima está no acampamento. O piloto recebe informações e levanta voo principiando a voar em círculos e progressivamente os vai alargando. Dois expatriados acompanham o piloto no voo e olham as areias como o Lince fita a presa na espectativa de encontrar a vítima com vida. 
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Futuram que a irão encontrar mas a dúvida existe se exausto ou sem vida. Durante a minha permanência na GSI, perderam-se dois homens, um na Arábia Saudita e outro nos Emiratos Árabe Unidos. Sem água (a comida aqui não é importante) uma pessoa que se perdeu no deserto, durante o sol a pino, o calor levou-lhe o sal do corpo e desidratou-o completamente.

Tanques de ramas e navios petroleiros no porto marítimo de Dharhan
Começa na "G7" o meu percurso de 9 anos ao serviço da GSI (Subsidiária da Texas Instrumentos, Dallas, Texas nos Estados Unidos) e durante este período muita coisa aconteceu e vai modificar o meu viver. Viagens de avião pelos céus de muitos países; uma volta ao Mundo em 42 dias e acabei por me fixar na Tailândia. 
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A crise do preço das ramas de petróleo (atingiram os 10 dólares o barril em 1984/1986) dá aso ao final (de outros colegas igualmente) a terminação da minha profissão de mecânico e "oil man" e vir a iniciar-me como "manga de alpaca" na Embaixada de Portugal em Banguecoque. A vida continuou e só vai ter fim quando partir para os "anjinhos". Ninguém é imortal. 
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Pelo menos que fique contada a história de minha passagem pelo Globo onde nasceram lobos e cordeiros. Talvez tenha perdido algo de ter tomado o lugar de cordeiro... .
Não estou arrependido.
Sobrevivi!
José Martins