sexta-feira, 23 de agosto de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Terceira parte
Na manhã do dia seguinte ao incidente passado no aeroporto e a lição aprendida que na Arábia Saudita não podiam entrar bebidas alcoólicas sob os desígnios da lei do Al Corão. Ninguém, antes de partir, para o país onde abundava o ouro negro e os "petrodólars", me tinha avisado. Em 1977 o "boom" da exploração das ramas de petróleo estava no princípio do auge. 
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Dharhan, mantinha-se o quartel general das pesquisas e exploração, sob a administração da ARAMCO (Arabian American Oil Company) e a concessionária, territorial, de prospecção. Em 1933 foi assinado um Acordo entre a ARAMCO e a Corte Saudita e estipulado que os lucros da exploração de petróleo seriam divididos em iguais partes (50%-50%).  
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A Texas Instrumentos, com a sua subsidiária Geophisical Service Inc ( a que estive ligado) foi incumbida pela ARAMCO para iniciar as operações de sísmica em 1927, ainda muito rudimentares, em Damman, a uns 10 quilómetros para o norte de Dharhan e descobriu o primeiro lençol, subterrâneo, de ramas de petróleo.

Onze anos depois, em 1938, a ARAMCO extraía, diáriamente, 1.500 barris de petróleo em bruto. Em 1950 o Rei Abdul Aziz Ibn Saud pretende nacionalizar a exploração do "ouro negro" e assinado mais um Acordo entre a ARAMCO e a Coroa saudita que a receita dos lucros se mantinha e divididas em partes iguais para os dois lados. 
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Entretanto o privilégio da exploração e pesquisa continua a pertencer à companhia americana.. Em 1973 a monarquia saudita adquire 25% das acções, em 1974 60% e no ano de 1988 toma o total controlo da companhia e muda-lhe o nome: "Saudi Arabian Oil Company". Quando cheguei a Dharhan, entre duas cidades: Al Kobar e Damman as instalações, por ali, ainda eram muito rudimentares. Escritórios dentro de contentores climatizados com ar condicionado. 
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A embaixada dos Estados Unidos e a Universidade do Petróleo eram as instalações com alguma imponência em Dharhan. Damman e Al kobar, cidades satélites de Dharhan de larga dimensão, junto à costa sul do Golfo Pérsico, mas desordenada a construção. 
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Notava-se o estado de riqueza, quilos de ouro de lei e pedras preciosas vendiam-se nas ourivesarias. Artigos japoneses: máquinas fotográficas e de filmar; rádios, televisões e toneladas de cassetes de música. Os potenciais clientes (e com grande apetência) para o ouro e pedras eram os sauditas. Para o material electrónico os emigrantes de orígem asiática, da Europa e américas.
A abastança da Arábia Saudita era de tal ordem que o que fosse importado não estava sujeito a impostos aduaneiros. Todas as novidades electrónicas, inventadas apareciam à venda nas lojas comerciais (não havia largas superfícies), onde se incluiram os primeiros "home computer", de armazenagem de dados em cassetes de gravação de música. Não havia emigrante que saísse da Arábia Saudita, para férias ou terminação do contrato que não partisse, levando consigo enormes cartões com rádio ou televisão. 
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Em primeiro lugar quedavam-se os filipinos, povo alegre em que na vida dele a música é uma componente importante. Poderiam não ter comida em casa para "adubar" o estômago, mas no lar existiam sempre um gravador para reproduzir cassetes de música ou um rádio ligado a uma estação emissora.

Cambistas de porta com montes e mais montes de dólares (como resmas de papel) a cambiar divisas americanas por riais a moeda local, que por mais estranho que possa parecer não valia, um "real" que fosse no exterior. Assim, todos os emigrantes, que saíssem da Arábia Saudita teriam que trazer com eles dólares americanos, ou "travel cheques". 
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Hipótese de assaltos não havia e o que caísse na tentação dentro de dias (normalmente à quinta-feira) seria levado à praça pública em Damman e depois das rezas em honra de Alá seria degolado pela espada cruel do carrasco perante a multidão vestida de branco e a desfiarem as contas dos rosários árabes. As duas partes do corpo do criminoso levadas para parte incerta do deserto e deixadas, ali, a "esturricar" ao sol e ao desejo dos abutres. 
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Mas se fosse um pequeno roubo, o castigo seria bem mais diferente, o corte de uma mão e (ainda havia) alguma complacência para o modesto ladrão, a opção, de escolher qual das mãos que deveria ser desligada do braço. Não vou aqui (segundo me informaram) descrever o método, cruel, como a operação é efectuada pelo facto de provocar calafrios!


Notas da Arábia Saudita do tempo em que por lá andei
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Pela introdução de bebidas alcoólicas na monarquia ou material pornográfico, prisão do prevaricador e um número de "vergastadas" (diariamente) com uma vara de cana que podem ser a "bagatela" de umas 10 a 500 (dizem) nas nádegas em pelo. O adultério outra prática, condenável, e (segundo me disseram) pelo apedrejamento da "turba" à mulher e degolar o pescoço ao homem que cobiçou a mulher do outro. Porém raramente este crime acontecia e o espectáculo da punição vedado à comunidade, estrangeira, residente. 
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Mas além do incidente que enfrentei no aeroporto, nada tenho apontar à gente saudita. Durante os anos de minha permanência no país criei amigos, verdadeiros, sauditas e bebi (Alá nos perdou!) com eles, uns whiskies, detrás das dunas do deserto nas proximidades da "crew" G7, que eles, individualidades gradas sauditas, o possuíam sem problemas isentos das malhas da justiça e de castigo. 
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Pessoas hospitaleiras e (nunca cheguei a entender o porquê...) gostavam de Portugal. E para aqueles que não conhecem o sentido da palavra Portugal para os árabes ficam a saber: a palavra Portugal é o nome da laranja.
.Não quero que fique ignorado um gesto que muito me sensibilizou e a prova de hospitalidade daquela gente. Um dia saí da brigada estacionada no deserto e tive que me deslocar, como chefe da manutenção dos veículos, a uma pequena povoação para que o Emir (chefe do pequeno núcleo no oási) nos facultasse o abastecimento de água potável para ser consumida no acampamento (outra água havia com abundância para lavagens, extraída do subsolo com as perfuradoras mas com cheiro, activo, a enxofre). 
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Naquela pequena povoação havia uma loja de venda de peças para automóveis/camiões e outros acessórios. Fui seduzido por uma buzina com quatro cornetas que emitiam vários sons, para quando seguisse de férias a montar no meu veículo particular. Não levava comigo dinheiro que chegasse para a adquirir e pedi ao meu colega árabe que mo emprestasse que lho pagaria no regresso ao acampamento. Custou o objecto 150 dólares. 
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Quando lhe ia fazer a entrega da importância recusou-a e responde-me: "abákxixe (presente na linguagem árabe). Ao meio dia de minha apresentação nos escritórios de operações da "GSI", foi-me destinada a "crwe" (brigada) onde deveria ficar destacado. Um motorista paquistanês seria a pessoa que me levaria à brigada G7, localizada, não muito distante da fronteira do Kuwait.
Antes de penetrar nos areais do deserto admirei, no percurso, ao longo da costa do Golfo Pérsico, uns poucos oásis verdejantes, pomares de árvores tamareiras suportando largos cachos de bagos, amarelecidos, das deliciosas tâmaras e uma parte importante, da dieta árabe. Mulheres vestidas de preto e com o rosto coberto por um véu transparente que não dava a oportunidade de se lhe ver se era bonita de rosto. 
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Mesquitas com torres de onde dos quatro cantos lá do alto saim campanas de auto falantes dirigidas para os quatro pontos cardiais. Nesses oásis pastavam "chibos" e uns pouco camelos para que os proprietários pela manhã e ao fim da tarde, extraissem do amojo, o leite para abastecer a casa. A Toyota "Land Cruser" deixou o piso alcatroada e penetrou na imensidão do deserto. A estrada tinha terminado e agora apenas a direcção, quase por instinto, como o beduino (pastor nómado) que o motorista teria de calcular a localização da G7. Perante os meus olhos tinha pela frente a visão de um mar de areia onde não se observava viva-alma. 
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Os ventos matinais apagam os rodados dos pneus dos veículos e só instintivamente, ou com uma bússola (para os familiarizados) poderia levar ao destino. Longe estava, para vir, a tecnologia GPS! Cinco horas já rodadas pelas areias do deserto e ainda não se vislumbrava o acampamento G7. 
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Só quase ao pôr do sol, se deu conta, distantes, a luzes dos holofotes que durante a noite iluminavam todo aquele espaço de operações para a prospecção de ramas de petróleo, que dormiam há milhares de anos nas profundezas do oceano de areia, onde moravam 16 expatriados e cerca de 150 trabalhadores.
José Martins