segunda-feira, 19 de agosto de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque

Escrito - Terça-feira, janeiro 22, 2008 - Há 11 anos


Segunda Parte
No Porto a vida era absolutamente monótona. Sou igual aos tantos milhares de operários que todas as manhãs, pelas seis horas tomava o comboio na estação de caminho de ferro de Pedras Rubras e deixava-o na Senhora da Hora. Daqui caminhava até ao Largo de Pereiró (Ramalde) onde se situava a empresa
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J.Cândido da Silva com um largo armazém de "stocks" de bebidas nacionais, estrangeiras e águas minerais. Motoristas, outro pessoal de cargas e descargas exibiam na roupa autocolantes de figuras políticas de ideologia comunista. 
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Das 24 pessoas que trabalhavam nas diversas ocupações, apenas três não comungavam nas suas ideias: eu, o proprietário da empresa e seu filho. Surgiam arremessos de palavras menos agradáveis dirigidos a mim onde se incluiam as frases: retornado e "facho" (fascista na línguagem calão da época).

Não era no meu pensamento político fascista ou retornado... Não pedi apoio, à minha chegada a Portugal ao IARN (instituto de apoio aos desalojados da colónias portugesas de África) e palavras,essas como era óbvio irritavam-me. 
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Em Portugal era certo o facto que os retornados eram mal olhados e segregados. Conhecidos, pelos menos esclarecidos, por exploradores de "pretos" e colonizadores em Angola e Moçambique o que não correspondia à realidade. Poucos dos desalojados chegaram a Portugal com meios de subsistência para sobreviverem com alguma dignidade. Viam-se grupos em cafés desses retornados a lamentarem-se de suas fatalidades de ter deixado, os pouco haveres, em África.
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O clima de permanência e o parco ordenado que auferia no Porto não era condizente ao modo de vida que tinha tido na Rodésia. Cheguei ao ponto de pretender voltar ao país administrado pelo PM Ian Smith, mesmo no estado de guerra aberta e muito próximo os ataques, a cidadãos indefesos, a portas da capital Salisbury. Todas as manhãs comprava o Jornal de Notícias e vasculhava a secção de ofertas de empregos onde pudesse ganhar bem mais que os modestos oito mil escudos.

Numa manhã dou com um anúncio, em língua inglesa, a pedir operadores de máquinas de perfurar para operarem no estrangeiro. Operador de "drillers" não tinha sido a minha especialidade na Rodésia, mas conhecia vários tipos dessa maquinaria, produzida na África do Sul e ter-lhe prestado manutenção nas minas de carvão do Yankee na Rodésia.
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Não havia problemas se tivesse de operá-las, o que necessitava era conseguir um novo emprego, fugir de Portugal, de ordenado de miséria por outro bem remunerado. O anúncio, em caixa média, informava os candidatos de se dirigirem à empresa por carta à redacção do JN.
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Respondi no meu "macarronado" inglês que tinha aprendido, sem método, regra com os ajudantes negros e várias namoradas que tinha tido na Rodésia. Passado uns oito dias tenho a resposta e entrevista marcada na "Texas Instrumentos", empresa americana de componentes electrónicos estabelecida com uma unidade fabril na vila de Maia (arredores do Porto). Sou recebido pelo mister Tony Short e entrevistado, mais ou menos numa linguagem entendível. Pergunta-me quais os modelos de máquinas, perfuradores tinha operado na Rodésia.

Designo várias marcas, pateticamente, sem conhecer que as perfuradoras (se fosse seleccionado) seriam máquinas gigantes de furar o solo a mais de 500 metros e não aquelas que eu estava familiarizado que perfuravam pouco mais de uns 10 metros. 
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Entretanto tranquilizava o mister Tony Short que seria capaz de me adaptar em curto espaço de tempo. Mister Tony Short, no estilo característico de "gentleman" britânico. tinha-me estudado pormenorizadamente, como director dos recursos humanos da "Texas Instrumentos" e perguntou-me: are you driller ou mechanico? Respondi-lhe: sir I as an mechanic... Alright we need not only drillers but mechanics too! 
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Senti alívio dentro de mim e respirei fundo... Iria ter, estava quase certo, colocação como mecânico e trabalhar, novamente, no estrangeiro. Fez uma anotação num bloco de notas e com a promessa que me voltaria a contactar.
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A entrevista aconteceu em Setembro de 1976 e em fins de Janeiro de 1977 não me tinha chegado nenhuma carta para me apresentar. Comecei a ficar preocupado e desanimado e a prever ter perdido a oportunidade de trabalho fora de Portugal. Princípios de Abril recebo uma carta que tinha sido aprovado e o meu destino seria a Turquia. 
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Ordenado mensal de 35 mil escudos, outras regalias (bónus de produção), alojamento, alimentação e por cada seis semanas de trabalho, seguidas duas de descanso com bilhetes de avião, entre o local de trabalho e Portugal, por conta da companhia. Foi me indicado o dia que deveria ir à inspecção "de corpo e alma" aos serviços médicos da Texas Instrumentos na Maia.

Em meados do mês de Abril recebo mais uma outra comunicação que me informava o dia que deveria partir para Londres e, no aeroporto, alguém me esperava para me conduzir para a cidade de Bedford onde se localizava a Texas Instrumentos (secção de operações para o Médio e extremo Oriente)
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O meu destino agora já não era o da Turquia mas o da Arábia Saudita. A deslocação a Bedford seria para a obtenção de visto e residência na Arábia Saudita, dado que em Portugal não havia Missão Diplomática deste país. Parto do velho e modesto aeroporto de Pedras Rubras. 
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Comigo seguem dois portugueses contratados como perfuradores e retornados de Angola da companhia diamantífera "Diamang". Nenhum deles falava uma frase sequer da língua inglesa e sou com isto o seus guia para os "desenrascanços". Durante as cerca de três horas de viagem de Portugal a Londres, os dois batiam sempre nas mesma "tecla": a Angola deixada, obrigados e o viver, salutar, que por lá tinham.
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A "Texas Instrumentos" foi impecável no tratamento e assistência no reino Unido. Instalaram-me, com os outros dois portugueses num hotel excelente em Bedford e ali aguardaríamos o visto nos passaportes, os bilhetes de avião para Dharhan e o dia da partida. Uma semana bem passada junto a um rio e as margens ajardinadas com flores de Tulipa. 
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Acontece outro incidente e tenho a minha viagem para a Arábia Saudita quase gorada! O meu passaporte possuía carimbos rodesianos de entradas e saídas do território. A Arábia Saudita era um dos muitos países que se opunha ao regime de maioria branca. Mesmo português que era dos quatro costados, o meu passaporte denunciava-me com um "branco" rodesiano.
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Incidente semelhante viria pouco depois a acontecer em Damman nos serviços de viação onde fui trocar a carta rodesiana pela saudita. Vou acompanhado de um interprete paquistanês e fui levado ao director de serviços. Entrega-lhe a licença de conduzir rodesiana, mira-a e colericamente e ao rubro para mim: Rudizia, rudizia! Bárra, bárra, bárra (sai daqui) e arremessa a carta, com desprezo, para o chão. 
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O interprete paquistanês vai apanhá-la e fora do gabinete do director enfurecido e em direcção a outro o paquistanês diz-me: The director do not like "rudizia" people! Porém ainda hoje estou por saber, como interprete conseguiu dar volta ao assunto, na secção de trocas de cartas, que depois de um pequeno teste de condução tenho o documento saudita, por cinco anos, para conduzir veículos. Mais tarde seria renovada.

Saí de Portugal com as divisas estipuladas pelo Banco de Portugal que seriam cerca de uns 14 contos para o Reino Unido. Montante designado nas últimas páginas do passaporte, para despender, na compra de uns maços de cigarros e alguma bebida. 
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Não havia a possibilidade de se comprar moeda estrangeira na "candonga" porque não a havia. A crise económica tinha-se instaurada em Portugal dentro da má gestão dos governantes de então. Eu mais os dois "patrícios" portugueses somos transportados ao aeroporto de Heathrow, em Londres e dali um avião da British Airways nos levaria a Dharhan a capital do petróleo da Arábia Saudita. 
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Desconhecia. totalmente, as regras impostas pelas autoridades no país. No "free shop" do aeroporto, comprei um cartão de cigarros Dunhill e uma garrafa de wisky "John Walker" de rótulo preto. O "chá" da Escócia seria para beber (às pinguinhas) no deserto e vencer as agruras das areias que sabia me esperavam.
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A aeronave voou serenamente de Londres a Dharhan sem se ter notado qualquer turbulência. Lá do alto fui admirando as montanhas da Europa e depois as bocas de fogo e fumo saidas das entrenhas do deserto e queimar o excesso dos gases dos poços de petróleo. Demorou o vôo cerca de umas seis horas. 
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Ao fim da tarde o avião aterrava em solo saudita. As hospedeiras de bordo abrem as portas de saída do avião e de imediato entrou uma baforada de ar quente com cheiro a petróleo queimado. Os passageiros encaminham-se para o interior da gare de saída, onde toda a bagagem era passada a "pente fino" pelos funcionários criteriosos e zelosos do aeroporto. Estou absolutamente tranquilo não levava nada comigo que pudesse infringir as leis aduaneiras sauditas.
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Sigo na "bicha" dos passageiros, vou ao tapete rolante esperar a minha mala, de cartão, fingindo ser de cabedal, e levo-a ao comprido balcão, abro-a e espero que um funcionário verificasse o que estava dentro. Depois de toda a roupa ser vasculhada fecho-a e escreve uns arabescos para que quando saisse para fora do aeroporto um outro funcionário verificar se na mala tinha sido aposto o "arabesco". 
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Não se privava, quando desconfiava, de apalpar os passageiros estrangeiros. Os naturais era gente gente de confiança os da "estranja" suspeitos. Quem não deve não teme, lembrei-me, que o funcionário não tinha verificado o saco de plástico do "free shopping" onde seguia a garrfa de Whisky e o cartão de cigarros!

Coloquei-o em cima do balcão para que visse o que estava dentro e escrever o "arabesco" que seria o livre trânsito para a saída. Verificou o conteúdo e logo para mim em voz colérica que me aterrorizou: Whisky, whisky, hey, hey passport,passport, passport! Mas porque cargas de trabalhos o homem me trata assim... Mas onde está o lado do crime que cometi! 
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Espero por ali uma boa hora até que todos os passageiros fossem despachados dos serviços aduaneiros. Estava completamente em baixo e vencido à chegada do meu, almejado, trabalho. Foi terrível aquela espera! O que pensava naquele momento: Vou ser preso? Vão me enviar de regresso ao ponto de partida?
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O funcionário vestido com roupa branca do pescoço aos tornozelos, alva de neve, ordenou-me que o seguisse para um outro gabinete. Segui-o atemorizado. O saudita arranhava umas poucas frases na língua inglesa. Dentro, mais ou menos por gestos, fui-lhe transmitindo que desconhecia que whisky não poderia entrar na Arábia Saudita. Pediu-me para lhe mostrar a carteira. 
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Abria-a e mostrei-lhe a minha riqueza que eram 170 libras em papel/nota que coloquei em cima de sua secretária. Retirou a minha riqueza e meteu-a no bolso da sotaina e colocou em seguida a garrafa de whisky dentro de um armário. E berrou-me num inglês algaraviado: "nest, nest time, iu,iu go calabouxo, calabouxo, iu,iu andarsatand"?. 
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Saí daquele quarto de terror que tinha sido: mais do que um calabouço e, apenas, com uns trocos em metal, no bolso... a minha reserva (que não era nenhuma) de libras para cigarros. A outra, que seria para seis semanas, ficou com o funcionário.
José Martins