sábado, 17 de agosto de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque

Escrito no ano 2008

As voltas que a vida de um homem dá!
Longe estaria de pensar que parte de minha vida seria despendida dentro dos meandros da diplomacia.
 
Nasci de uma família, serrana e tradicional de pastores no sopé da Serra da Estrela e a levante do Rio Mondego. Fui criado e educado de forma que um dia fosse um homem de bem. Educação, rígida, ministrada pelo meu pai, de não prejudicar a próximo e nunca bulisse que fosse numa pêra ou uma maçã mesmo que um ramo das árvores se estendesse ao caminho ou ao carreiro público.

A serra era demasiadamente fria e cruel para quem pelos montes e vales tivesse que fazer de sua vida a de pastor de ovelhas. Profissão, aliás, que meu pai não desejava para mim. Fiz a quarta classe do ensino primário aos dez anos. Com esta idade parti num comboio fumarento para o Porto onde iria iniciar a profissão de marçano numa queijaria (que ainda hoje existe), na Rua do Loureiro nº 46, do lado oposto à Estação de São Bento.
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A Segunda Guerra Mundial tinha terminado a 8 de Maio de 1945 e cheguei à cidade Invicta em Outubro do mesmo ano. A miudagem da Sé, do Largo das ruas Chã, do Corpo da Guarda, dos Caldeireiros e da da Cordoria, pejorativamente, tratavam-me por parolo e chegado da terra da coina.
Era um Porto onde praticamente todos se conheciam.Rodavam carros de bois de cornos compridos jungidos a cangas decoradas com motivos alegóricos, puxando cargas de mercearias e sabão dos armazéns da Rua de São João, em direcção aos arrabaldes do Porto. Havia chapas de bosta de boi pela calçada e zorras carregadas de carvão vinham de São Pedro da Cova para a central geradora de corrente, para movimentar os eléctricos dos STCP, Serviço Transportes Colectivos do Porto, para os lados de Massarelos.

Calcorroei todas as ruas do Porto e decorei seus nomes. Andei pendurado nas traseiras dos carros eléctricos, para não pagar os seis tostões do bilhete, pois que, raramente, os possuia... Fui levado na frente de um automóvel Hillman, na rua de Passos Manuel e acordei no serviço de urgência do Hospital de Santo António com um golpe na cabeça e um lábio rachado. Vi os primeiros filmes de "coboiadas" no velho Parque das Camélias, na rua Alexandre Herculano, a portas da Praça da Batalha.

Fui crescendo no Porto "tripeiro" e cheguei a pracista, com 13 anos, a oferecer laranjadas Invicta; cerveja Cristal e gasosas da Companhia Fabril Portuense, pelas "tascas" das ruas: Escura, Bainharia, Pelames e pela Viela dos Gatos. Também fui caixeiro de balcão e tive o privilégio de usar gravata.

espigado e para melhorar de situação tirei a carta de condução de ligeiros aos 18 anos.Um caso sério para que meu pai me emancipasse! Diziam-lhe: "não emancipes o rapaz ó Luis os automóveis além de matarem galinhas e gatos nas estradas também matam gente"! Fiz o que pude para o convencer. Entrei assim na maioridade aos 18, quando os homens só eram grandes aos 21.
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Fui cinco vezes a exame e a misericórdia do Eng. Gualtino, da Direcção de Viação de Santa Catarina, à quinta vez, lá me aprovou. Uma carta de condução mesmo de ligeiros representava um estatuto que não estava ao alcançe de todos os rapazes de 18 anos. Era sim para os filhos dos papás, que vaidosamente guiavam os Buicks, os Chevrolets e os Cadilaques pela baixa tripeira.

Bem me lembro do Senhor Rocha Rocha Brito - concessionário do Teatro de Sá da Bandeira e do Coliseu; proprietário de stands de automóveis - passeando quando o tempo lhe dava para isso, guiando o seu magnífico rabo de peixe, descapotável, com uma flor vermelha na lapela do casaco e a seu lado uma bonita corista ou artista que actava nos espectáculos de revista teatral. Fez furor e até grande ardor a muitos quando já de idade, talvez a rondar os 70, no carro e a seu lado se sentava a trapezista, espanhola Pinito Del Oro, o maior nome, feminino, circense de meados do século XX.

O ADEUS AO PORTO E A PORTUGAL

Numa manhã de Maio do ano de 1962, tomei o comboio, na estação de São Bento com destino a Lisboa, numa carruagem de terceira classe. Passados dois dias estava a bordo do navio Pátria que me levaria, navegando nas águas azuis e bonançosas do oceano Atlântico ao porto marítimo de Luanda. Não vou enumerar as dúvidas que todos os emigrantes, como eu, encerravam nos seus seres, sobre qual o futuro que os esperava nas terras além-mar.
Seria Angola a terra da promissão e as palavras que ouvíamos do comunicador Ferreira da Costa dali transmitidas e difundidas pela Emissora Nacional? Venham, venham para Angola, a província precisa muita gente, eram as palavras familiares do jornalista que a todas as casas dos portugueses chegavam. Mas ali continuavam a morrer pretos e brancos, civis e militares portugueses.A vida em Portugal não era por aí além para que um jovem como eu e outros mais da minha idade tivessem futuro. Os portugueses tradicionalmente, desde séculos, emigravam para todos os cantos do Mundo, fugindo ao estado de pobreza que grassava no país onde tinham nascido. Os mais afortunados, passado uns anos de ter deixado Portugal regressavam a suas orígens.

Poucos eram os que voltavam para se fixar definitivamente, mas apenas para passarem uns tempos de férias, visitar a família, os amigos e dar nas vistas. Era assim normal, depois da década de cinquenta do século passado, verem-se emigrantes portugueses, regressados do Brasil, Venezuela, Estados Unidos e das colónias portugesas Angola e Moçambique, a conduzirem automóveis de luxo, americanos, a dar nas vistas e mostrar o seu estado de riqueza. O que até podia ser falso... 
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Isso entusiasmava os jovens que ambicionavam ir ao encontro do El Dorado, como já havia séculos os portugueses se aventuravam a partir para as terras do Oriente e do Brasil, em sua procura. Poucos o encontraram e muitos ficaram por aquelas bandas, enterrados, e com eles as ambições da procura do imaginário.
O paquete Pátria navegava bonançosamente, a umas milhas largas de aproximação do porto de Luanda. Do convés e pousando as mãos na amurada, admirei as luzes de iluminação, mortiça, que fixavam na minha mente a visão de uma imagem em meia-lua. Pensativo, fiquei por ali à espera que o barco amarrasse as cordas às peanhas do cais. Perguntava de mim para mim, qual seria o meu futuro em África. Arrependi-me, sei lá as vezes sem conta, de ter deixado Portugal.

Estava ali um pobre, com 150 escudos na algibeira, de alma e ambições sumidas! Todo aquele entusiasmo que se encontrava dentro de mim, quando embarquei no Tejo estava, ficara esvaído. Um novo caminho, futuro, estava à minha frente e tinha de procurar vencer as diversas etapas que se me viriam a deparar durante 16 anos que andei por África, distribuídos por Angola, Moçambique e Rodésia.
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Preencheria largas páginas se me dedicasse a descrever os caminhos percorridos nestes três países. Passei por riscos, porque todos eles se quedavam em guerra. Não deixo porém de afirmar que os melhores tempos que passei em África foram na Rodésia, governada pela maioria branca.
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As independências de Angola e Moçambique viriam a dar cabo do meu sossego na Rodésia e vi-me obrigado a regressar a Portugal, com uma caixa de ferramentas de mecânico e uma vontade indomável de recomeçar novamente. De marçano, pracista, negociante de batatas, castanhas e hortaliças no Porto, regressei a Portugal como mecânico de automóveis, camiões e maquinaria pesada de construção de estradas.

A Rodésia mudou e moldou completamente o meu ser.Oito dias depois de regressar da Rodésia já estava empregado como mecânico na empresa J.Cândido da Silva, a mais importante da capital do Norte na distribuição de bebidas nacionais e estrangeiras. Ordenado (o estipulado pelo sindicato dos metarlúgicos) oito contos mensais! Uma pobreza para um mecânico que auferia dois mil dólares rodesianos, mensalmente...

Embora estes não fossem papel monetário que circulasse no exterior, davam para uma vida agradável na ex-colónia britância sob o Governo de Ian Smith.Em Portugal pouco, mesmo quase nada, tinha mudado durante a minha ausência de 16 anos nos países africanos. Muita política de chinelo, os profetas surgiam quotidianamente e as manifestações de rua eram uma constante. Fui aliciado para me inscrever como camarada no Partido Comunista. Ofereceram-me bilhetes para fazer monte no festival do Jamor que não aceitei.

Corri a sete pés de medo, na Praça da República, quando um petardo, colocado de baixo de um carro, rebentou na rua João das Regras. Tinha-me integrado numa manifestação organizada pela "irreverente" jornalista Vera Lagoa. Vidros das janelas voaram e os manifestantes, tal como eu, em correria desordenada espalharam-se pela relva do jardim, no centro da praça e em direcção às ruas do Almada e da Boavista. Oito meses em Portugal, para ser esquecidos.

Só tinha a hipótese de me manter um humilde mecânico a ganhar para as "sopas" e os cigarros e seguir a profissão, sossegado; teria de solidarizar-me com a linha de pensamento (que não era nenhuma) político dos operários que me rodeavam. Deixei Portugal pela segunda vez e tomei novo rumo. Este agora seria as areias escaldantes dos desertos da Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, os olivais da Tunísia e as montanhas do Curdistão (Turquia).José Martins