sexta-feira, 19 de abril de 2019

A MINHA SEXTA-FEIRA EM BANGUECOQUE

Como peregrinação e obrigação tive mais uma Sexta-feira  Santa  no Bairro Português de Santa Cruz, que o visitei pela primeira vez há quarenta anos. Desta vez e pela primeira levei a minha mulher, chinesa, ao evento.
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Chegados ao bairro na hora do sol posto, caminhamos os dois pela viela que vai  dar á fábrica artesanal de queques e para trazermos alguns para casa. São apetitosos, não saiem do paladar de séculos e conservam-se por dias em casa. 
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Em suma são deliciosos e tudo mundo sabe que estes fantásticos queques são originários da Terra Lusa! 
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No bairro, há uma dúzia de anos, confeccionava-se o fio de ovos na forma de tradicional, como em Ayuthaya (segunda capital da Tailândia) século atrás, porém hoje, o fio de ovos (Foi Tong) entrou na área industrial e vendem-se toneladas por todo Reino da Tailândia. 
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Se perguntarem a origem do Foi Tong a qualquer cidadão tailandês logo lhe responde: "portuguete". Poderia escrever muito mais a cerca do Bairro de Santa Cruz, fica para depois. seguem imagens legendadas. 
A matrácula que não tardará a percorrer as vielas do bairro anunciar que a via-sacra vai ter início. Acredito que este objecto veio de Ayuthaya para o Bairro de Santa Cruz por volta do ano 1768 e lá já usada na Sexta-feira  Santa.
Religiosa a conversar com mulheres cristãs do bairro.
A viela que me leva, mais minha mulher, à fábrica dos queques. Estava emcerrada!
A religião católica  muito forte no bairro. Um nicho com a Última Ceia embutida na parede de uma moradia.
Mãos piedosas preparam o andor para Jesus Cristo ser deitado depois de ser despregado da cruz. 
A nave da igreja de Santa Cruz com pouco fieis. O som da matrácula ainda não tinha dado sinal de si....
O abade espera pela pecadora para depois a absolver dos seus pecados.
Deambulante pelo bairro à procura de imagens. Minha mulher a resmungar, atrás de mim e sem pernas para me acompanhar, sentou-se nun banco junto ao majestoso Rio Chay Praya, esperando por mim. Passei pela casa de madeira que ali foi construída há mais de dois séculos e não consigo saber a quem pertenceu. Não está assombrada, posso garantir, porque mora lá gente, creio de parcos recursos materiais.
Imagem de marca nocturna. Se o leitor vier a Banguecoque e der um passeio, turístico pela noite (perca), rio acima e rio abaixo, vai certamente ver a cruz no topo da abóboda e saber que ali, por volta dos anos de 1768/1780, viveram 3 mil almas com sangue português e foragidas de Ayuthaya, protegidas pelo General Thaksin e o primeiro Rei da era de Banguecoque.
A entrada, pelo rio da sua margem direita para o Bairro de Santa Cruz.
Encontrei a minha mulher e o seu sorriso. Enquanto eu andei por ali, ela foi comprar queques para levar para casa.
Da esquerda, vista de frente a imagem. José, Madalena e a Virgem Maria. Perguntei à linda e triste jovem, da direita, que nome tinha na cerimónia. Respondeu-me: "I´m Virgin Mary!" 
Numa mesa eram (a fazer de conta), esfaqueados o bom e o mau ladrão que seriam depois crucificados junto a Jesus Cristo.
 O pretoriano 
A via-sacra dá volta à igreja de Santa Cruz, parando  e orando, os fieis, em cada estação.
Gostei do sorriso, para a lente da Nikon, da menina, gordinha, da lanterna.
O momento, na via-sacra, é de religiosidade profunda.

Vestes brancas dirigem-se para o monte do calvário para a cerimónia da descida de Jesus  Cristo da cruz.
O adro da igreja cheio de fieis.
A cerimónia vai iniciar-se dentro de momentos...
O acto de silêncio é profundo. Não assisti à descida de Jesus Cristo dado a ter reportado muitas vezes.
No regresso a casa registo a imagem de um gato do bairro a tratar da vida
Passei pela casa do neto do capitão Filipe, português, que foi do Porto de Banguecoque, pelos anos de 1850. Não o vi na cerimónia. Era velhinho e certamente partiu para os anjinhos. Era o último português residente do bairro.
Nesta rua foi o cemitério do bairro de Santa Cruz. Foi profanado, levaram as ossadas para um outro cemitério, construído de novo, a quarenta quilómetros dali. O espaço, que era grande e conheci, foi ocupado com residências e salas de aulas. 
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Por último, apesar de na Tailândia, não existirem meio milhão de católicos os valor dos bens da Igreja do Vaticano são incalculáveis. Quando o cemitério começou a ser profanado levantei a minha voz na imprensa. 
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Vozes de "burro" não chegam ao céu e que se lixe a memória dos mortos e glória aos vivos do Vaticano. Todos os bens que foram oferecido a Portugal, e muitos, pelos Reis da Tailândia foram pifados pela Igreja do Vaticano.... 
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Resta-nos o espaço onde foi construída a Feitoria no ano de 1820. Os Portugueses foram GRANDES na Ásia, depois desde a tomada do Governo, pelos castelhanos, em 1580, os portugueses perderam toda a força havida. 
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Invasões francesas, o Rei e os nobres que fogem para o Brasil, onde chegaram com a cabeça rapada por via da camada de piolhos que apanharam na viagem, a implantação da República em 1910,  a Revolução dos Cravos de 25  de Abril de 1974, Portugal nunca mais levantou cabeça! 
José Martins