sábado, 26 de janeiro de 2019

FUGAS - VIAGENS - ANDREIA MARQUES PEREIRA REPORTOU




Em Banguecoque ainda se dilata a fé (mas do império ninguém se lembra)
Passeios por Kudi Chin, o "bairro português" de Banguecoque.


Rui Gaudêncio (Fotografia)

26 de Janeiro de 2019, 3:06 
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Há 40 anos, a igreja “estava em ruínas”. “Passei por aqui de barco e tirei fotos. A cúpula tinha caído, havia correntes nas portas”, recorda Sebastian, metade tailandês, metade inglês. Vivia no estrangeiro, mas pensou “um dia venho aqui à missa”. Quando regressou à Tailândia, a igreja estava renovada. “Casei aqui, os meus filhos também.” Vive a 50 quilómetros de Banguecoque, mas é aqui que assiste todos os domingos à missa, na igreja de Santa Cruz, portuguesa de 1769. É domingo, são nove horas e a igreja, pintada de cor café com leite, está repleta de fiéis que ouvem o sermão multiplicado por altifalantes. Estamos em Kudi Chin e, apesar de a tradução ser “edifício chinês”, este é o “bairro português” de Banguecoque.
 As ruas têm a largura de passeios, vamos deambulando. “Não há portugueses aqui”, dizem-nos. Sobram os “doces portugueses”, em grandes e pequenas bancas improvisadas nas casas. Numa delas, Angsana Pinrat até nos afirma que a mãe do pai era “portuguesa”, Benedita. Ela é a quarta geração a produzir farong khanom (literalmente, bolos estrangeiros), como são conhecidos os doces portugueses daqui; e também bayhaua, doces muçulmanos. Hoje, são os primeiros a preencher o balcão: farinha, ovos de patos e açúcar para uma aparência seca. “Só faço entre Novembro e Dezembro, no resto do ano só por encomenda.” Até para a embaixada de Portugal já fez.
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São uns poucos metros até ao Museu-Café Baan Kudichin. Um galo é o símbolo, na porta uma fotografia dos pratos de referência: um “delicioso estufado de porco e batatas tradicional português” e “comida de fusão: pão tradicional português com porco, batatas e chilli”. 
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O museu fica nos andares superiores, entramos para uma café-loja que se desenvolve em torno de um pátio central onde não falta uma Nossa Senhora de Fátima branca. Navinee Pongthai é a proprietária, descende de portugueses. Mas também de Mon, por exemplo: “A maior parte dos tailandeses tem uma mistura. Nos tempos antigos, os portugueses gostavam das mulheres Mon, que têm pele mais luminosa e não tinham os dentes negros, como as tailandesas”, diz, sorrindo.

Navinee Pongthai, descendente de portugueses, dona do museu-cafe Baan KudiChin que fica no bairro portugues, Kudi Chin Rui Gaudêncio

Antiga diretora de uma empresa pública, decidiu abrir o museu com os objectos do quotidiano dos bisavós. A casa da tia (e que havia sido dos avós, da “Vo Lek”, “vo” de avó) diante da sua própria (onde nasceu), foi o local óbvio. 
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Agora, se num primeiro andar se conta a história da chegada dos portugueses à Tailândia e a sua influência no país – retratos de D. Manuel I e Vasco da Gama, modelos de caravelas e da primeira igreja do Sião (1540), e um exemplar de 1796 de uma Bíblia em língua siamesa romanizada, “a língua da igreja”, saltam à vista –, o segundo andar reconstitui parte da casa dos bisavós, mobiliário de madeira escura em quarto (abundância de figuras e quadros de santos iguais a tantos que se vêem por aqui), cozinha e sala de jantar – a mesa disposta com pratos da família (entre eles, cozido à portuguesa, frango estufado e torresmos, com os nomes em português – “a minha tia ainda faz as receitas”).
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Esta porção de terra foi dada pelo rei Taksin aos soldados portugueses que no século XVI ajudaram a combater os exércitos birmaneses. Mas também a chineses e a muçulmanos: por isso desembarcamos diante de Wat Kanlayanamit e vemos indicações para a mesquita Kudi Khao e para o templo chinês Kuan An Keng. 
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Agora, em Kudi Chin, um “local calmo”, onde “todos os vizinhos se conhecem”, há 83 nomes de família “portugueses”, mas para a maioria dos habitantes o “português” que acompanha o nome do bairro é apenas feitio. A grande herança parece ser a religião – como diz Khun Navinee, “não importa a etnia, a religião une-nos”. E em 2019 celebram-se os 350 anos da primeira missa no antigo reino do Sião.
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À MARGEM: A jornalista não escreve mal. Porém falta aqui muita informação sobre o bairro português de Santa Cruz, na margem direita do Rio Chao Prya.A parcela de terreno do Bairro de Santa Cruz, não foi só oferecida aos soldados portugueses mas a todos os portugueses e suas famílias, lusa/tai, depois da queda de Ayuthaya, em 1767, devida à invasão das tropas do reino do Pegú (Mianmar), a expensas do Rei Thaksin. 
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ÀS  almas desalojadas foram trazidas, em barcos e instaladas naquele local. Rei Thaksin oferece-lhes, além do terreno, madeira para construir casas de habitação e igreja para a prática da religião católica.
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A primeira missa no Reino do Sião (sem haver data exacta) não foi há 350 anos, mas há cerca de 500 anos pelos missionários do Padroado Português do Oriente, no “Ban Portuguet” (Aldeia dos Portugueses) na velha capital e a segunda do Reino, em Ayuthaya. Os portugueses conheceram o Sião em 1511 há 508 anos. Se o leitor correr este blog certamente que vai encontrar muita informação histórica sobre Portugal na Tailândia.
José Martins