segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

É NATAL!:" NA NOITE DE CONSOADA . HA 12 ANOS, EU ESCREVIA"

segunda-feira, dezembro 25, 2006



NOITE DE CONSOADA

São já bastantes as consoadas passadas em Banguecoque. Umas duas dezenas por aí.
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A minha noite de consoada, evidentemente, não tem aquele calor de Natal como de quando da minha criancice, na minha aldeia, os quatro de minha casa: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu o mais novo do casal, sentados junto à fogueira, alimentadas de cavacas lá das matas do vale do Bóco.
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Noites frígidas, silenciosas, onde apenas nos chegava o som do ladrar da canzoada, lobeira, do aglomerado das cortes, no caminho do Rio Mondego, onde se acoitavam, durante a noite, os rebanhos de ovelhas. São passados muitos anos dessas minhas noites de consoada. 
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Ficou na minha memória o calor dessa noite e também o carinho dos meus que já partiram para o céu, porque no inferno não há espaço para eles de tão boa gente, haja sido, durante a passagem por este mundo de Cristo onde ainda vivemos.
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Em Banguecoque não se vende bacalhau! De estranhar para quem ler esta minha "croniqueta", escrita na noite, depois da minha consoada de família, onde nesta noite dei asilo, na minha mesa, a mais duas cabeças. 
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O Marcos, transmontano dos quatro costados, sem a esposa, e a Emília, filha do Marcos sem a mãe. É assim a noite de consoada para alguns casais que inesperadamente, por vezes, sem contarem, um não está presente na ceia. 
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A mulher do Marcos, tailandesa, uma hospedeira de ar da companhia aérea "Thai International" voava, precisamente, naquela noite de Banguecoque para Sidney. 
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Quando tive conhecimento que o meu compadre Marcos iria consoar, só, em companhia da filha e minha afilhada, uma "gralha" que fala pelos cotovelos, convidei-os para a minha mesa de Natal.
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O bacalhau na minha mesa foi do melhor! O meu velho amigo António Pedroso Lima, ex-director de exportação (hoje reformado) de uma secção de negócios da SONAE Indústrias, em princípio de Novembro, numa das suas habituais passagens por Banguecoque, teve o cuidado e sabendo que eu nesta cidade sou um "pobre de bacalhau", de meter na sua bagagem umas boas postas adquiridas num restaurante de Pedras Rubras, onde mais os seus amigos vão, periódicamente, lautearem-se com umas bacalhoadas.
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Consoada sem nozes, pinhões, avelãs, rabanadas e bolo rei, sem frio de enregelar do mês de Dezembro, teve calor humano... 
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Mas, apesar, de não ter havido bolo rei na minha mesa de consoada, já o tinha saboreado e de excelente qualidade, três dias antes, no jardim da missão diplomática, em Banguecoque, na festa de Natal que o Embaixadores de Portugal António e Maria Piedade Faria e Maya, chegados à capital tailandesa há cerca de um mês oferecerem, uma recepção, à comunidade portuguesa, luso-descendente e aos alunos, tailandeses dos curso de português, ministrado em duas universidades de Banguecoque.
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O bolo rei para a festa da embaixada não chegou de Portugal, mas de Macau, a pouco mais de duas horas de vôo de Banguecoque. Naquele território, administrado por Portugal por séculos e depois entregue à China em fins de Dezembro de 1999, ficou por lá a gastronomia e a doçaria, tradicional portuguesa e claro está, também, os costumes. 
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Vão durar para sempre, assim como, depois dos portugueses passarem pelo Japão, ficou o "Pão-de-Ló" e uma especialidade que chegou à mesa dos Imperadores.
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Na Tailândia ficaram, também, especialidades de doçaria portuguesa: o " Foi Tongue" (fio de ovos); o "Tongue Yongue" e os queques. 
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São passados 350 anos da data que a luso-japonesa Maria Pina de Guiomar introduziu o "Foi Tongue", (fio de ovos) e nos dias que correm não há criança de escola primária que não saiba que os fios de ovos, e os queques confeccionados no Bairro de Santa Cruz, são de orígem "portuguete" (portugueses).
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Depois da minha ceia de consoada de cinco pessoas:minha mulher Kanda, minha filha Maria, lusa-tailandesa; o Marcos, filha deste, igualmente lusa-tailandesa e claro eu, fomos visitar o "Bairro de Santa Cruz" com o propósito de assistirmos à celebração da "Missa do Galo". 
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Mas antes e porque ainda faltavam duas horas para que o pároco e seus acólitos subissem ao altar e celebrar a missa em honra do nascimento do Deus Menino em Belém, fomos os cincos para o emaranhado das ruelas, estreitinhas, do bairro de "Santa Cruz" apreciar os católicos sentados as suas mesas a consoar. A ceia tem as mesma característica da consoada portuguesa! Nada ali é diferente como reunião de família e noite de convívio. 
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Diferente são as iguarias posta em cima da mesa...Não há o bacalhau cozido com batatas e o repolho mas existe mesa farta de especialidades, tailandesa. À nossa presença levanta-se o chefe de família e oferece-nos uma cadeira para nos sentarmos. Agradecemos com um bom Natal e partimos para outros lados do bairro.
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Ainda há por lá casas, construídas de tábuas, centenárias que nos dão a imagem, real, como tinha sido o bairro e de quando a comunidade luso-descendente ali se instalou depois da queda de Aiutaá (Ayuthaya), em 1767 a expensa do grande General Thaksin e o libertador do antigo Reino do Sião, do poder temporário, do Rei do Pegú de que não só lhes deu terreno como madeira para construir suas casas e igreja para a prática do culto católico.
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Dentro das paredes do Bairro de Santa Cruz, desde há mais de uns 240 anos, foi instalada uma indústria, caseira, de fabrico de queques, tradicionais, portugueses. 
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Confecção de doçaria que serviu para a sobrevivência de várias gerações de uma família. Cosidos num forno construído de tijolos e alimentado a lenha. O negócio foi crescendo com os anos e ganhou fama em redor do bairro e passou para o outro lado do rio e vendidos no "Sampengue" (China Town/ou residência da comunidade chinesa). Com surpreza, nossa, mais duas indústrias caseira se instalaram e não duvidamos que outras mais irão surgir no futuro.
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O Bairro de Santa Cruz, assim como o do Rosário, este nas próximidades da Embaixada de Portugal, foram vítimas do progresso que tem início no príncipio dos anos de 1990. 
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O de Santa de Cruz, o cemitério onde várias gerações foram sepultadas, foi transferido para trinta quilómetros de Banguecoque e naquele terreno sagrado e de repouso dos mortos, foi levantado um enorme edifício, campos de jogo e de recreio de alunos da escola, pela igreja católica sediada em Banguecoque. 
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O Bairro do Rosário, genuinamente português, uma rua de casas, muito semelhantes às existentes em Macau, onde viveu a comunidade, portuguesa, macaense, sofreu a impiedade do camartelo e construído, nas bases novos edifícios que servem para acomodação de clérigos dos dois sexos. Lá se foi a presença de uma memória que o tempo, irremediavelmente, fará esquecer.
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Depois da celebração da Missa do Galo, na igreja de Santa Cruz, o dia 25 e o Dia de Natal já ia nas duas da manhã. A madrugada estava fresca e regressei a minha casa com os meus, o Marcos à sua com a filha.
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Em minha casa tinha outra missão a cumprir telefonar à minha família, em Portugal, que nessa altura estavam a cear a sua consoada.Todos bem por lá. Deitei-me e dormi que nem um justo sem ter sonhado com o Pai Natal e na sua descida, pela chaminé, e colocar no meu sapato um presentinho.
Até para o ano 2007 e na noite da consoada.
José Martins