sexta-feira, 7 de setembro de 2018

MEMÓRIAS DO TEMPO IDO (CAPITULO 1)

O tempo passa por nós à velocidade do vento! (Capítulo 1)

E, depois de tantas andanças, por África, durante 16 anos divididos por Angola,Moçambique e Rodhésia (Zimbabwe) e acidentalmente, em 1977, encontrei-me na Tailândia na cidade de Banguecoque.  O espírito português dos homens quinhentistas apoderou-se de mim. Esse entrou no meu ser nos bancos da escola primária,que frequentei na minha aldeia, situada no sopé da Serra da Estrêla.
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Surgiu o 25 de Abril e após a independência de Moçambique, em 1975, a Rodhésia deixou de ser um lugar estável e seguro para o homem branco.

Regressei a Portugal em Agosto de de 1977. O meu país, deixado em 1962,durante os 16 anos da minha ausência nada tinha mudado. Paredes conspurcadas com literatura política de "cordel", comícios dos partidos quase diários que me levaram a não me adaptar ao viver de momento.Os meus amigos chamaram-me homem de sorte porque após três dias de chegar a Portugal já estava empregado, como mecânico, numa empresa distribuidora de bebidas com um ordenado de 8 contos lá para os lados de Ramalde, no Porto, junto à Via Norte que ainda só ligava o Porto à estrada da Circunvalação.
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O homem emigrante português tem dificil adaptação a Portugal quando este permaneceu anos no estrangeiro, mesmo que tivesse sido nas ex-colónias.
Isto aconteceu, assim, comigo..

Todas as manhãs quando me deslocava de comboio de Pedras Rubras para a estação da Senhora da Hora e depois a pé até junto ao Largo da Cooperativa de Ramalde, lia o Jornal de Notícias de fio a pavio a secção de anúncios "precisa-se".

Um dia o milagre aconteceu: uma empresa americana necessitava de mecânicos para trabalhar no deserto da Arábia Saudita.Logo nessa manhã respondi ao anúncio e passado seis mêses estava a tomar o avião da TAP,para Londres e daqui para Dahran, na Arábia Saudita e na costa do Golfo Pérsico.
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Salário convidativo 38 contos, acomodação e em cada 6 semanas de trabalho contínuo, duas semanas de férias em Portugal com viagens de avião pagas de ida e volta.
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Bem me lembro, numa tarde quente do mês de Abril, quando a porta do avião foi aberta a baforada de vento quente que entra no espaço dos passageiros a cheirar a petróleo. Depois das formalidades, rígidas no aeroporto em procura de bebidas alcoólicas e material pornográficos (sem ter conhecimento) entrei na terra de religião muçulmana com uma garrafa de whiskie que inocentemente tinha adquirido no aeroporto de Heatrow na Inglaterra.  .

Fui perdoado,dado ao desconhecimento, de uma dose de vergastadas,uns meses no calabouço e direito a um bilhete de uma viagem de retorno a Portugal. Depois de uns 10 minutos de doutrinação, lá deixei, no Serviço da Alfândega, o whiskie de rótulo preto e as 15 libras estrelinas que levava comigo,para as primeiras impressões.
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Não houve tempo para vencer o "jetlag"! O deserto, esse mar imenso seco, esperava por mim. Um motorista paquistanês, transporta-me durante quase um dia inteiro,ao direcção à fronteira do Koweit, através dessa imensão árida e de areias em movimento onde pela primeira vez admirei a maravilhosas mirages que apenas as conhecia pelos livros. Estas existe e ao longe verifica-se a transpiração da areia que nos dá a visão de pedras polidas, negras, na àgua da corrente do rio.
José Gomes Martins

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Esta série de 4 artigos foi publicado, em 1997, no website "Portugal-em-Linha"