sábado, 24 de março de 2018

FERNÃO MENDES PINTO E AFONSO XAVIER


Fernão Mendes Pinto tem sido o grande desconhecido, pouco lembrado, praticamente ignorado no meio académico e intelectual. Porém quando algum historiador pretende obter informações acerca da Tailândia (Reino do Siam) nos séculos XVI até XXIII, consulta a imortal obra a Peregrinação, quer esta publicada em língua portuguesa ou estrangeira.

Não temos conhecimento que a Peregrinação tenha sido traduzida para a língua tailandesa. Nas celebrações dos 500 anos (2011) do conhecimento dos portugueses, em 1511  do Reino de Ayuthaya, a Banguecoque vieram vários historiadores portugueses proferir conferências nenhum deles, lamentavelmente, se referiu a Fernão Mendes Pinto. 
Alguns filmes, históricos, realizados  na Tailândia,o mais importante, a grande metragem Suryothai AQUI de 3 horas de exibição, produzido por Chatrichalerm Yukol em 2001, teve como base de conhecimento a Peregrinação  a história da lendária  Raínha Suryothai contada por Pinto.
Bem me recorda, uma informação, sobre o filme, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa, embaixador Tadeu Soares informava ter visitado Chatrichalerm Yukol, de quando da rodagem do filme e observou, nas suas mãos, o livro da Peregrinação, mas a obra na língua inglesa e escrito por uma escritoria americana.

Surpreendeu-me à cerca de dois anos o investigador, Afonso Xavier contactou-me e transmite-me o seu interesse pela obra de Fernão Mendes Pinto e o estudo que estava a proceder sobre o português que mais viajou, pela Ásia e Oriente e transmitiu o que viu desde a sua partida de Lisboa ao Japão.


Há dias Afonso Xavier voltou a contactar-me e numa simpática carta, que transcrevo na íntegra:

Caro  Sr.José Martins,
Como vai tudo pela Tailândia? Parabéns e obrigado pela atividade continuada na nossa língua. Por aqui eu continuo  como trabalho sobre a Peregrinação. De facto, escrevo para  você para lhe dar a notícia de um  sítio web que acabo de criar para utilizar parte dos materiais da tese de doutoramento defendida o ano passado.

Envio por se for de utilidade quer para referenciar, quer para divulgar, quer simplesmente para dar uma olhadela por ser de uma temática de interesse comum.

O site está acessível em http://www.pucau.org e permite consultar todos os contextos (concordâncias) de cada um dos topónimos e gentilícios que aparecem na Peregrinação segundo o texto de  16 1 4 . Os  topônimos vão ordenados baixo uma entrada principal que recolhe todas as variantes gráficas ou derivados (gentílico) utilizados na edição de1614.

As concordâncias recolhem a oração completa que vem acompanhada pelo número de capítulo em que aparece. Ademais do contexto, oferece-se uma referência bibliográfica para os topónimos comentados em estudos de geografia histórica e uma análise crítica para os casos mais contraditórios. Todos os topónimos conhecidos vão ligados às coordenadas de latitude e longitude e o referente toponímico contemporâneo.

Se o topónimo não for conhecido, liga-se a uma outra entidade geográfica maior a que pertence, também recolhida no índice toponímico. Na secção de recursos pode-se baixar a base de dados comas entidades referenciadas por coordenadas em formato shape para trabalhar com um SIG, por exemplo o QGIS de software livre com que se elaboraram as imagens do site.

Também há uma ligação para baixar o formato KML e poder assim mesmo percorrer o espaço da Peregrinação em3D em aplicações como o Google Earth. A ideia é que recolha o   material elaborado para que possa ser utilizado em atividades educativas, divulgativas, de investigação. De momento leva o material mais  importante.
No futuro, gostaria de  ir acrescentado material (csv com as variantes, html com o corpus da Tartária, mapas locais, dicas de uso do material).  Todo o material é gratuito e livre.
Estou aberto a colaborações e muito especialmente a parcerias sobretudo com fins promocionais e educativos, para mostrar como melhor utilizar os materiais postos a livre disposição dos usuários.
Qualquer  sugestão, proposta de melhora e atualização é muito bem-vinda. Obrigado também por partilhar se considerar for desinteresse.
Com os meus melhores cumprimentos,
Afonso Xavier Canosa Rodrigues

O website, elaborado, por Afonso Xavier http://www.pucau.org inicia com a “Arribada”:

“A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Recursos para uma guia geográfica.Mais do que uma crónica de viagens, a  Peregrinação é um relato humano sobre os lugares e as pessoas. Uma das mais fascinantes descrições da Ásia do século XVI. Este sítio web apresenta um índice de topónimos e gentílicos que recupera o contexto em que aparece cada entidade geográfica mencionada segundo a primeira edição de 1614. Oferece também recursos relacionados para quem quiser aproveitar o trabalho feito e divulgar ou continuar o estudo da geografia da Peregrinação. Fica muito por conhecer!

O trabalho de Afonso Xavier, minucioso e não menos árduo, apresenta, dezenas de locais onde Pinto passou, e em  cada qual  há uma descrição do aventureiro português.  Eu recomendo o excelente trabalho do académico e o melhor, para mim,como investigador da  vida de Pinto, temos deparado.

José Martins

Curriculo de Afonso Xavier

Afonso Xavier Canosa Rodrigues estudou filologia galego-portuguesa na Universidade de Santiago de Compostela onde se doutorou com uma tese sobre a toponímia da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Foi investigador do Projeto Mercator Media em Aberystwyth (País de Gales) e do Arquivo Sonoro da Galiza do Conselho da Cultura Galega (Galiza).
Colaborou nas obras coletivas Mercator Media sobre diversidade linguística na Europa e A Nosa Fala sobre áreas linguísticas na área do Galego. É autor da primeira tradução direta de uma parte do Mabinogi para o Português. Possui o certificado de proficiência em engenharia da linguagem da Universal Network Language em que participou em projectos para Português e Latim.
Deu aulas de introdução à Linguística Geral, Morfologia, Sintaxe e Semântica na Mongolia International University (Mongólia). Nos últimos meses trabalhou na elaboração de um programa de reconhecimento automático de entidades geográficas mencionadas para textos galego-portugueses medievais e participou nos congressos internacionais de linguística histórica celebrado em Lisboa e da Associação Internacional de Lusitanistas em Macau defendendo a validez geográfica da toponímia da Peregrinação.
O website www.pucau.org  pretende divulgar parte do trabalho da tese de doutoramento sobre a geografia na obra de Fernão Mendes Pinto.

Fernão Mendes Pinto na Ásia

Por José Martins

Chamaram-lhe mentiroso depois de ter deixado de pertencer ao número dos vivos quando a sua obra, a Peregrinação, foi publicada depois de trinta anos de sua morte.

Partiu de Lisboa em procura da aventura e a fortuna no Oriente em 1537 com a idade de 26 anos. Regressou pobre em 1558 - igualmente como quando tinha partido - e no quase final de sua vida, pelos bons serviços prestados à Pátria Portuguesa, Filipe II de Espanha e Rei de Portugal, atendeu o pedido dos Padres italianos João Pedro Maffei e Gaspar da Cruz, este Reitor do Colégio de Santo Antão, para que lhe fosse concedida uma tença anual.

Chegou-lhe finalmente o tributo solicitado: "dois moios de trigo por ano enquanto fosse vivo. Ainda nesse ano a oito de Julho morre Pinto."

Ninguém melhor que Fernão Mendes PInto descreveu, até aos dias de hoje, as terras por onde andou: Costa Oriental de África, Índia, Pegú (Birmânia) Samatra, Sião Cambodja, China e o Japão.

Tudo foi Pinto nas viagens, transbordantes de aventuras: caminhante, cronista, soldado da fortuna, pirata, irmão jesuíta e o primeiro embaixador de Portugal no Japão. Hoje era rico, no outro dia um Jó.

Pinto por onde vai passando encerra na sua memória privilegiada o que observa: a fauna, usos e costumes dos povos, tormentas dos oceanos a que também esteve sujeito e naufragando várias vezes.

João de Barros, o cronista que escreveu as Décadas da Àsia, serviu-se de informações de Pinto sobre o Japão, assim como confessou, claramente, jesuita, italiano, Giovani Botero na sua obra "Relações Universais", publicado em quatro volumes de 1991 a 1596.

Já velho, cansado e desiludido do mundo, Fernão Mendes Pinto, sentado junto à margem do Tejo "roidinho de saudades" aguarda as chegada das naus vindas do Oriente. Pretende saber aquilo que por lá se ia passando. Era o feitiço da nostalgia, oriental, a atormentar-lhe a mente no fim de sua vida.

Pinto quando começou a escrever a sua "Peregrinação", não teve qualquer pretensão de os relatos ser publicados. Poderemos também chegar à conclusão, que o escritor escreve a obra com o "credo no pensamento" e o terror de ser levado ao Tribunal do Santo Ofício da Inquisição que imperou, como repressão nas gerações portuguesas, muito além da jurisdição do Rei de Portugal, por séculos.

Pode não corresponder à realidade, quando ao iniciar o seu relato dizer que a obra era dedicada a seus filhos: ... pois me quiz (Deus) conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura, que por herança deixo aos meus filhos (porque só para eles é a minha intenção escreve-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no decurso de 21 anos"

Terminou este testamento de família e morre cinco anos depois. Passados trinta anos a obra foi publicada e, quantos cortes teriam sido feitos, pela foice severa de gume afiado do Inquisidor-mor, antes de ter sido conhecida do público. 

Assassinaram um relato impressionante, daquilo que Pinto viu e nunca antes escrito por cronistas seiscentistas portugueses ou estrangeiros. Conheceu no Oriente Francisco Xavier foram amigos e emprestou-lhe dinheiro para que o "Apóstolo das Índias" construisse a primeira igreja no Japão.Fernão Mendes Pinto foi irmão jesuíta, mais tarde expulso da congregação fundada por Inácio de Loiola e nunca aclarado o motivo do afastamento.

Aventaram a hipótese que Pinto era "marrano" (1), ou pelos "prazeres carnais", que certamente teve durante as suas aventuras orientais.Pinto usa a prudência ao escrever a sua obra em não designar as suas aventuras de amor no Oriente. Entende-se que o cronista não pretender chocar a família dando-lhe conhecimentos de suas paixões amorosas e exóticas no percurso de sua caminhada pela Ásia e Oriente.

Paixões que atingiram muitos portugueses depois da era da expansão, entre eles: o poeta Luis de Camões, o escritor Venceslau de Morais, no Japão e o poeta Camilo Pessanha em Macau. Outros, no presente, anónimos entre os quais eu por exemplo.
Pinto foi ferido pela seta do "Cupido" na Ilha da Espingarda, Tenagashima, no Japão.A lenda ficou. Todos os anos, nos festejos anuais, realizados nesta ilha em honra da espingarda portuguesa, introduzida por Pinto logo que ali chegou com credenciais de embaixador em 1543.

A festa é dedicada a Portugal. Há disparos da espingardaria lusa do século XVI, quando ainda o disparo da bala não era accionado pelo gatilho, mas incendiada a pólvora com o morrão da mecha.

Pelas ruas de Tenagashima, uma caravela com as velas de Cristo percorre as principais ruas da cidade. Uma multidão, entusiasmada dá largas à alegria. No convés, marinheiros portugueses e o Fernão Mendes Pinto, todo garboso, na proa. Na ré a sua amada, nipónica de longos cabelos pretos esvoaçando ao vento.

Pinto deixou o Japão em busca de novas aventuras e terras e prometeu à sua amada - reza a lenda, já com um filho seu, que voltaria... Pinto nunca mais regressaria a Tenagashima e foi então que surge: " o poema da verdadeira paixão que fascinou as duas culturas, (2) a japonesinha de cabelos compridos e olhos negros amendoados, todos os dias em cima das rochas olha o horizonte do mar para o ocidente, na esperança do regresso do seu amado ao aconchego do seu seio".

Francisco Xavier morreu na Ilha de Sanchoão, na China. O apóstolo tomou de base esta ilha (local de marginais e piratas), na esperança de poder entrar na China e propagar o cristianismo. Nunca seus propósito foram conseguidos e morreu em 1552.

O corpo do santo é levado numa caravela para Malaca e dai, para Goa, onde repousam suas relíquias. Fernão Mendes Pinto, depois de tantas tormentosas aventuras na Ásia, estava em Goa e com o propósito de regressar a Portugal.

Relata, assim, a chegada dos restos mortais de Xavier a Goa: "Em este tempo o Padre Mestre Belchior determinou de ir numa fusta que o senhor viso-rey lhe deu, a buscar o corpo do Padre Mestre Francisco, que trazia hum irmão de Malaca, numa nao, e pola amizade passada que com ele tive, offerecy-me ao padre para ir com elle, como fui, e assi levou consigo três irmãos e 4 mininos da doutrina e a mim so, em outro de fora. Andamos polo mar 4 dias com suas noutes, em busca e achamos a nao junto// de Baticala, a 20 légoas de Goa...(3).

A fortuna não bafejou a Pinto na terra do sol nascente e escreveu:

"...nas partes da China e Japão e sempre me ocupey em ajuntar bens da terra que erao os que eu pretendia; sómente em Japão, todalas as vezes que lá fui ou mandey, acertei sempre perder; estando sempre penando nisto, queixando-me quam pouco ditoso fora em aquella terra, determinei de nunca tornar a ella, pois tudo me sucedia tao mal, e estando nisto, comecei a cuidar que se tornasse que me podia restaurar; acordando-me para confirmação do que me podia Deus ajudar, pois com ho dinheiro que eu tinha em Japão emprestado ao Padre Francisco, se ouve feito a primeira igreja e cassa da Companhia..." (3)

Poderá aqui entender-se que Pinto, neste seu relato de Malaca em 1555, quando foi para Goa para embarcar e regressar a Portugal. As suas economias encontravam-se decadentes. Mas foi ali, talvez, para recuperar o empréstimo feito a Francisco de Xavier no Japão. 

Em Goa teve conhecimento que Xavier tinha morrido e seu corpo a caminho de Malaca.
E no mesmo relato Pinto acrescenta: "E como esta determinação, cheguei a Goa, esperando as naos do reino para me partir logo, parecendo-me que minha glória e felicidade estava a entrar em Montemor com nove ou dez mil cruzados, e que com hum homem não roubasse o calis ou custódia da igreja, ou fosse mouro, que por nenhuma outra via se podia temer o inferno e que a misericórdia de Deos era grande." (3).

As cerimónias fúnebres de Goa em honra de Xavier são imponentes e com elas se aproveitam os jesuitas da propagação da fé. É então que Pinto influenciado pelo grande cerimonial e aliciado pelos missionários se consagrou à ordem como irmão jesuíta.

Sabem os jesuítas que Pinto é uma figura com enormes conhecimentos da Ásia e Extremo Oriente e, além de se aproveitarem da sua generosidade, ele é necessário aos jesuítas para que o enviem como mensageiro a terras onde eles ainda não tinham chegado com a cruz. Com isto também o ter sido despojado das suas economias.


José Feleciano de Castilho diz-nos:

"Acharam-no na Índia um homem aproveitavel, por seu talento, sua influência, suas relações e suas riquezas; lançaram-lhe o arpão. Chamaram-no ao confessionário, entregaram-no à direcção do mais hábil, preparam cenas de efeito, surpreenderam-lhe os votos, apoderarram-se-lhe da riqueza, negociaram com as suas virtudes e, seu exemplo, levantaram-no ao sétimo Céu. Amaldiçoado pela sua saída, conjugaram esforços contra o desgraçado (...); já o perseguem em Goa, a ponto de o constranger a fugir dali, já o enredam com o governo de Portugal de modo que não receba renumerações os seus serviços; já impõem aos seus escritos sepulcral silêncio acerca de notável homem; já fazem espalhar as vozes mais desfavoráveis para o seu crédito; já enfim, cometem, para prejudicá-lo, as mais vergonhosas falsificações".

No século XVI, pouco depois da sua obra ter sido publicada, o povo português estava habituado, ver para crer, não aceita ou dá crédito às narrações, daquilo que Pinto dá conta do que tinha visto na Ásia e desde logo inventam: "Fernão Mentes? Minto".

Tem sido esta ligação entre pinto e a sua obra a Peregrinação, ainda muito pouco conhecida a grandeza deste livro, pelos portugueses:

"... e o escritor é posto assim no ról dos aldrabões que falam muito mas não dizem nada, uma espécie de vendilhão a tentar vender a sua "banha da cobra", que ninguém está interessado em lhe comprar" (4).


Sobre a a vida e obra de Fernão Mendes Pinto, poder-se-iam, na sua análise, escreverem-se milhares de pa´ginas de tanto que viu e passou no Oriente.

Mais adiante voltaremos ao assunto.

Termino com um video e em homenagem ao historiador e comunicador Prof. Herman José Saraiva 

 - Fernao Mentes? Nao!

José Martins

(1) - Descendente da família judia ou cristão novo.

(2) - Avelino Rodrigues "Japão Mendes e Macau" Revista Macau

(3) - Carta do irmão Fernão Mendes Pinto para os padres e irmãos de Portugal, Malaca 5 de Dezembro de 1554. Documento existente na Biblioteca da Ajuda de Lisboa, 49.IV-49 fls.186 v-190 r (1) e publicada no volume 5 "Documentação para das Missões do Padroado Português do Oriente", por António da Silva Rego, em 1951.

(4) - Fernão Mendes Pinto - O outro lado do Mito de Maria Teresa Vale, em 1985

Imagens: Portugal 450 Anos de Memórias Japão coordenação e investigação de Gonçalo César de Sá - Embaixada de Portugal no Japão - 1ª edição 1993

Posted by Jose Martins at 4:23 PM

1 comment:


Suely Monteiro said...

Olá!
Pesquiso blogs em língua portuguesa na Ásia que se dediquem à Filosofia, História, Literatura e Artes.
"Minha Pátria é minha língua" e quero estar em contato com os patrícios.
Parabéns por seu trabalhe.
Se desejar visite o meu.
www.suelymonteiro.blogspot.com