quinta-feira, 12 de outubro de 2017

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR - 10ª PARTE

Consulado António Frederico Moor


Na ocasião que António Frederico Moor assume a gerência do consulado surge uma nova era no Reino Sião, ou seja a da modernizaçã0 que iria ser continuada e chegou aos dias de hoje.
. Sua Majestade o Rei Mongkut era um homem extremamente inteligente e uma intuição fora do vulgar para assimilar línguas estrangeiras com relativa facilidade.  . A instalação dos missionários americanos em Banguecoque viria a moldar o perfil deste grande homem e o futuro do Sião.
. O Princípe Mongkut, filho mais velho do Rei Rama II e da Rainha Srisuriyendra é o herdeiro, universal, do trono do Sião.

Na idade dos 15 anos o Princípe Mongkut foi a apresentado ao nobres, siameses, como o legítimo sucessor de seu Pai Rama II e o continuador da Dinastia Chakri. A juventude do príncipe é passada entre os muros do Grand Palace fora da vista dos siameses que um dia viriam ser seus súbditos, seguindo, assim, a tradição da Casa Real. Estudou a literatura Siamesa e a Pali, poesia , a história do Sião, a arte antiga de prática de guerra, incluindo as armas de defesa utilizadas.  . O jovem princípe Mongkut pouco teria aprendido relacionado com as exigências protocolares da corte. Seu meio irmão o Princípe Krom Mun Chesdabodindr (mais tarde entronizado Rei Rama III), nasceu em 1787 de mãe plebeia o qual não teria o direito à sucessão da coroa siamesa. Mas, o príncipe de jovem, mostrou vocação e capacidades de saber lidar com a direcção e os destinos do reino.  . Bem visto pelos nobres, integrou-se em vários projectos e visitas aos meios rurais, levados a cabo pelo seu avó (Rama I) e de seu Pai (Rama II). Príncipe Krom grangeou além da simpatia dos membros da família real, tem toda a nobreza e o povo consigo.  . Em 1824 o Rei Rama II faleceu, Príncipe Mogkut tinha apenas 20 anos de idade, seguido a religião budista e entrado num templo.(Nota: o templo Wat Pawarnives, onde Monge Mongkut viveu é, justamente, pegado ao Campo da Imaculada Conceição, em Samsen, onde antes do nascer do sol recolhia, no bairro, esmolas)  . O Monge Mongkut, depois de ter professado e seguir a doutrina do Lorde Buda, deixou de estar sob a jurisdição da Corte, mas sujeitar-se às Leis do Budismo e aos altos prelados que regem a Igreja Budista. Com isto é entronizado seu meio irmão o Príncipe Chesdabondindr, ao qual lhe foi dado o título de Phra Nang Klao (O Rei que se senta nas nossas cabeças).
. Monge Mongkut vive 26 years no templo e aquelas todas comodidades que teve entre os muros do Grand Palace, são trocados pela extrema pobreza. Viveu como um normal monge budista e pelas manhãs, descalço, caminhava entre os bairros e navegava, em almadias, ao longo do rio Chao Prya recolhendo comida para os monges do templo e flores de lótus para adornar os altares do templo. Quando a estação das chuvas chegava ao fim o Monge Mongkut, deslocava-se às províncias onde pregava sermões aos siameses. 
. Todas as longas jornadas, eram feitas pelo pé e o Monge Mongkut descalço. M.R. Seni Pramoj e M.R. Kukrit Pramoj, na sua obra "A King of Siam Speaks" - The Siam Society - Bangkok 1987, numa passagem: "Com ele não seguia vaidade, não levava bolsa com dinheiro ou sapatos calçados. Por algumas veses pouca saúde. Quando convidado para entrar numa casa o Monge Mongkut dizia: Paz para esta casa e ali descansava, bebia e comia o que por lá havia . Estas peregrinações aos meios rurais do Sião, as caminhadas de madrugada em Banguecoque recolhendo esmolas; o misturar-se com o povo deu ao Monge Mongkut o modo de vida, real, dos siameses. Porém, Monge Mongkut, ainda no templo budista aprendeu a língua inglesa que a falava e escrevia correctamente.  . Ainda não tinha sido entronizado como Rei do Sião trava correspondência, com os seus amigos, americanos, com o senhor e senhora Eddy de Nova Iorque: em 1848, 1849 e depois de assumir a direcção dos destinos do Reino Sião, era ele próprio que escrevia as cartas aos cônsules; embaixadores, outras altas individualidades estrangeiras onde se incluiu troca de correspondência com a Rainha Vitória de Inglaterra e o Presidente dos Estados Unidos Buchanan.Todas a prosa se pode considerar escrita dentro de subtileza, elegância e amável em todas as passagens.  . Era um Homem de uma cultura invulgar para a época. Dormia 5 horas por noite. Um visionário que entende que para o Reino do Sião seguir a senda do progresso deveriam seus, filhos príncipes aprenderem a língua inglesa.  . E foi com isto que o Rei Mongkut escreveu uma carta ao sr, Adamson Esquire, gerente da filial "Borneo Company Limitada" , em Singapura para lhe contratar a senhora Leonowens, professora de inglês, na cidade ilha, para ensinar a língua inglesa a seus filhos, príncipes, no Grand Palace, com um salário de $150 por mês com alojamento.  . Ana Leonowens, senhora arrogante, no bom estilo vitoriano da época, ao fim de cinco anos, partiu de Banguecoque, escreveu um livro onde "parodia" um Grande Rei na obra "The Romance of the Haren", que não corresponde à realidade e escrito como forma da Ana, fazer dinheiro.  . O conteúdo do livro foi aproveitado para produzir uma longa metragem, um espectáculo musical de vários anos exibido em Nova Iorque e serviu (mesmo com todas a mentiras ficcionadas, pela novelista) para que a Tailândia fosse mais conhecida no mundo. Para melhor informação relacionada com a Anna Leonwens convidamos a um clique: http://portugalnatailandia.blogspot.com/2007/07/ana-leonowens-no-bairro-portugus-da.html
 . Voltando à gerência do consulado por Frederico Moor não se registou desenvolvimento, comercial, ou diplomático entre o Sião e Portugal. O cônsul Moor, teve como é óbvio, uma excelente educação, antes de vir para Banguecoque.  . Corria-lhe nas veias sangue holandês, por parte de seu pai Hugh Moor, pelo lado da mãe (possivelmente) chinês e português. Embora, tenhamos, procurado em várias fontes não conseguimos obter a informação se sua mãe Ana Maria (pelo casamento foi acrescentado Moor) a quem Monsenhor Manuel Teixeira a dá como macaense.  . Por norma, ainda actualmente, quando é aplicado o "pejorativo" "macaense" a uma pessoa é pelo facto de descender de cruzamento de sangues português/chinês, mesmo diluído que seja. A família de Hugh Moor, não temos dúvida alguma, deveria ser de prestígio na sociedade macaense nos finais do século XVIII.
. A irmã de António Frederico Moor, Ana Doroteia Rosa, viria a casar com José Osório de Castro Cabral e Albuquerque, Governador de Macau (1817-1821), de qual matrimónio nasceram 7 filhos e 4 filhas.  . A família Osório Castro foi uma família (hoje quase extinta) com raízes e muito respeitada na minha aldeia, Arcozelo da Serra (Serra da Estrela) e por ironia, uma casa dos meus antepassados, com uma porção de terreno, de há mais de 300 anos, hoje é minha por herança, pega, com uma enorme quinta, propriedade dos Osórios Castro.  . Consultando o livro "Relações Entre Macau e Siã0" , que se pode considerar um cronológico dos ofícios saidos de Macau para Banguecoque e vice-versa, não vamos encontrar grande actividade burocrática e, apenas, em 16 anos foram trocados 30 oficios entre os dois lados.  . Não deixa de ser curioso em mencionar que o consulado continuava a viver sob a penúria de faltas de fundos para a sobrevivência do cônsul, dos funcionários e compra de material para o funcionamento da chancelaria.  . Uma acta do Leal Senado (secção finanças) datada em 19 de Março de 1856, um ano depois de António Frederico Moor ter assumido a gerência, descreve: "Acta da sessão da Junta de Fazenda de 19 de Março de 1856 em que, entre outros assuntos, se mandou pagar $40 (patacas?) a Manuel Pereira por ter abonado igual quantia ao cônsul de Portugal em Banquecoque, António Frederico Moor, destinados à compra de lustres para oferecer ao rei de Sião. Finanças actas".  . Ora o cônsul quando se via em dificuldades financeiras valia-se de membros da comunidade portuguesa/luso-descendente, em mendigar-lhes dinheiro o que tal coisa revertia em perda de personalidade do representante, de Portugal e não só, em surdina, críticas ao Governo Português. Não havia dinheiro para pagar aos funcionários e ordenados seguiam com três anos de atraso!
. Bem nos dá conta disso, o conteúdo, a acta do Leal Senado, datada em 13 de Novembro de 1857: "Acta da sessão da Junta de Fazenda de 13 de Novembro de 1857 em que, entre outros assuntos, se mandou pagar os ordenados do escrivão da feitoria de Portugal em Banguecoque, Joaquim Maximiano da Silva, relativos ao primeiro trimestre de 1854". Os ordenados do segundo trimestre seriam aprovados, em 3 de Fevereiro do ano seguinte (1858).
E para finalizar o pagamento do ordenado 4.º trimestre, do ano de 1854, aconteceu em Dezembro do mesmo ano".
 . Foi na gerência de Frederico Moor que foi realizado (já mencionado em parte anterior a esta) um tratado entre Portugal e o Sião e vamos transcrever a portaria: " 26 de Junho de 1858. Portaria do Ministério da Marinha e Ultramar a comunicar as instruções pelas quais o governador de Macau e plenipotenciário do Rei de Portugal para concluir e firmar até ao ponto de ratificação um tratado de amizade e comércio com o reino do Sião, Isidoro Francisco Guimarães, se deverá reger no cumprimento da referida missão. Administração Civil. Portarias. Uma outra Acta de 27 de Novembro de 1858, da Junta de Fazenda, deliberou e assinou uma ordem de pagamento de quinhentos mil reis a favor do governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães, para concluir o tratado com o Sião. Mais uma Portaria de 30 de Dezembros de 1858:"...se assinou uma ordem de pagamento a favor do comissário do brigue "Mondego" para despesas do dito navio na sua viagem ao reino do Sião para transportar o ministro plenipotenciário de Portugal, Isidoro Francisco Guimarães, que vai a Banguecoque concluir o tratado de amizade e comércio entre estes dois países.  . Continuamos a recomendar aos interessados no texto do Tratado e como foi recebido o Governador de Macau, em Banguecoque, um clique http://portugalnatailandia.blogspot.com/2007/07/texto-do-tratado-de-1859-entre-portugal.html . Na parte a seguir vamos falar no palacete que passa a ser a residência dos cônsules de embaixadores de Portugal até ao presente e iniciada a construção, por António Frederico Moor. Em quarenta anos desde que Portugal abriu a sua representação no Sião, foram nomeados, três cônsules e durante as quatro décadas, apenas, teve um expediente de 160 ofícios entre Macau e o Sião o que dá uma média de quatro por ano.
. A presença de Portugal na Ásia estava decadente e pouco interesse existia, por parte de Lisboa que essa presença fosse reactivada. A chaga que entrou na estigmatização pela perda da independência, que não foi pela força das armas, mas pelos interesses monárquicos, em favor da Espanha, foi uma ferida que nunca encontrou a cura.  . A fuga da Família Real portuguesas e instalar a corte no Brasil foi mais um desaire para Portugal. Os ingleses, os holandeses, franceses e outros países da Europa foram tomando o lugar a Portugal e a dissipar-se toda aquela grandeza que tinha havido.
. Os negócios de Macau da Índia e de Timor, pouco mais dariam (se dessem!), para manter a máquina administrativa das pessoas que de Lisboa tinham sido para ali destacadas. Os nossos três cônsul no Reino do Sião, viveram nas maiores e angustiantes necessidades para sobreviverem.
- Humilhados por se verem na necessidade, algumas vezes, de pedir empréstimo em dinheiro à Corte e a membros da comunidade portuguesa residente.
. Sujeitaram-se a viver de habilidades, muitas vezes poucas dignas, valendo-se do arrendamento de parcelas de terreno que tinha sido doado pelo Rei Rama II, que desses actos não davam conhecimento, exacto, ao Vice-Rei da Índia ou a Macau. Faziam-no por imperativa necessidade para que tivessem, algum dinheiro e mantendo o funcionamento do consulado.
. Não é agradável para nós contarmos "misérias" de um passado, mas teremos que o levar em frente para que a história não se perca e apenas se contem grandezas, falsas, quando na realidade não existiram.
José Martins
Fim da 10.ª Parte.
CONTINUA