quinta-feira, 12 de outubro de 2017

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR- 15ª PARTE

Consulado do Encarregado Joaquim Vicente de Almeida

Nasceu em Macau, filho do Dr. José de Almeida Carvalho e Silva, natural de S.Pedro do Sul, Portugal, a 17 de Novembro de de 1784 e de Rosália Vieira de Sousa, neto materno de Joaquim Vieira e de Ana Cândida de Sousa.
Joaquim de Almeida casou, a 5 de Fevereiro de 1836, em Calcutá, com Rosa Barrington, de quem teve Maria Eugénea, naceu a 16.1.1839 que morreria passado um ano e 7 dias.
Viuvou e viria a casar, depois, com Isidora Cotter, natural de lIsboa, filha de Guilherme Cotter, do Rio de Janeiro, e de Isidora de Arniz e Cotter, de Espanha, que lhe viria a dar 5 filhos, Joaquim Isidoro, Francisco José, Isidora Francisca, Guilhermina Romana Josefa e Jorge; este último viria a ser um arquitecto de sucesso.Joaquim Vicente de Almeida viria a ser encarregado do consulado de Portugal em Banguecoque de 25 de Setembro de 1869 a 11 de Maio de 1873 e novamente de 2 de Outubro de 1873 a 15 de Janeiro de 1875. Dedicou-se ao comércio, vindo a falecer em Banguecoque a 8 de Novembro de 1886. Emprestou 1.000 patacas ao cônsul Prostes. Como nunca mais lhe devolvia o montante, em 4 de Abril de 1883, queixou-se por escrito ao Secretário-Geral do Governo de Macau, solicitando-lhe que retivesse o ordenado ao Prostes e lhe passasse a ele as 1.000 patacas que lhe devia.
O certo viria a acontecer e o Joaquim de Almeida nunca mais receberia o seu dinheiro. Mais tarde os herdeiros «requereram a entrega do espólio do falecido, que constava de uma casa comprada havia pouco tempo para se anexar ao consulado de Portugal, e da quantia de 1.000 patacas, de Licínio Xavier que teria ficado fiador do cônsul Prostes». O "Correio Macaense" de 7.12.1886 publicava uma carta de 8.11.86 de Banguecoque que, ao noticiar a morte de Joaquim Vicente de Almeidam censurava o cônsul Frederico Pereira: «Joaquim Vicente d´Almeida fora convidado pelo senhor Prostes de saudosa memória, a viver num gudão do consulado, a fim de se lhe conseguir o empréstimo de mil patacas; o pobre velho, embora lastimasse a perda dessa quantia e os juros de cinco anos, vivia lá satisfeito, porque tinha a comida a horas certas. O Senhor Frederico Pereira, logo à sua chegada, entendeu que um pobre velho, que serviu a nação por mais de dez anos, honrado e honesto, num tempo em que o consulado daqui era uma verdadeira mina (1) não tinha jus, quiçá por essa honradez - a um cantinho dum gudão e ao sobejo de mesa; convidou, pois, o senhor Almeida a ir viver no hospital; e o pobre velho, como estava de saúde, não aceitou a oferta, e foi por isso, dias depois removido para uma casita húmida, sem ventilação suficiente, e aí entregue ao cuidado duma criança china.
E a consequência foi encontrarmos o homem, na manhã de 3 de Novembro, moribundo e, assim mesmo, devido a esforços, de vários cavalheiros presentes, ficou removido para o hospital no dia 4, e na manhã de 5 estava cadáver.É a sina do sr. Pereira, pois, dias antes, escolhendo a véspera de finados para dar um baile - devia ter visto espectros em sonho, mas a realidade é que ele não esperava tão cedo.Querino Eduardo de Sousa, à beira da sepultura, pronunciou o elogio fúnebre atacando o cônsul: «Ainda há poucos dias dava-se um sumptuoso baile no consulado português, enquanto jazia na agonia da morte um súbdito português, que já tinha feito as vezes de cônsul português em Bangkok... Estava a morrer... e não tinha um caldo quente que lhe conchegasse o estômago enfraquecido pela velhice, doença e miséria. Quando deixará o governo português de nomear seus representantes homens inaptos e sem préstimo, que só têm em mira enriquecer à força de vergonhas transações que deslustram o nosso honrado nome?» O mesmo "Correio Macaense de 11.2.1882, publicou nova diatribe contra o cônsul por proteger um china que, na província de Chalabury teve uma rixa com outros indivíduos, matando um deles. Frederico Pereira respondeu a estas diatribes no mesmo jornal de 8.2.1887, em carta de 17.1.1887: «Almeida deixou um espólio de 1.852 patacas. O Cônsul nada tem com os vivos agonizantes, a sua missão começa no momento da morte. Até ali, era aos amigos que competia levar-lhe um caldo quente. Tantos amigos.... e nenhum lho levou! É que só foram amigos depois de morrer... Ele declarou que deixava tudo a quem o tivesse em casa à hora da morte. Honorato de Sá acode, mas já não chega a tempo. Que faz então? «Descarregar a sua cólera sobre o cônsul que, se o não ~tivesse deixado morrer morrer de fome, teria dado tempo a fazer o testamento. Depois responde à acusação de proteger os chinas: «Ele trata de fazer cumprir bo tratado e é censurado». Os que dizem que pesa sobre o nome português um odioso, pesa sobre eles apenas, «porque só eles defraudam ilegalmente o fisco siamês por meio de contrabando. São estes que não querem aqui um cônsul que cumpra com o seu dever, porque só lhes pode servir um cônsul que os coadjuvasse nos seus destinos e que tivesse com eles uma profunda amizade e segredo. Porém, são demasiadamente ordinários para que alguém possa aceitar a sua convivência» «Além desta carta, Pereira fez uma queixa, a 22 de de Dezembro de 1886, ao Governo de Macau, Firmino José da Costa (1886-1889), contra a publicação do discurso de Quirino Eduardo de Sousa no jornal».
Nota do autor: " Nos nossos arquivos vamos encontrar o assento de óbito n-º 5 que reza: «Falecimento de Joaquim Vicente d´Almeida, no dia 6 de Novembro de 1886. O cônsul F.A Pereira foi informado pela Direcção dos Hospitais que o Vicente d´Almeida tinha falecido no hospital. No dia 3 o cônsul Pereira visitou em sua casa o falecido encontrando-so muito enfermo, fez selar um armário e uma caixa, que depois ao outro dia mandou vir para o consulado, porque o falecido foi internado. Assinou o cônsul Pereira». (1) O consulado era de facto uma mina e estava-se na avalanche de chineses que chegavam a Banguecoque e agora já não era necessário o título emitido em Macau, mas o consulado inscrevia os chineses a troco dinheiro. Não havia moral alguma e a vergonha morava distante... Era assim o consulado de Portugal na capital do Reino do Sião.
José Martins
Fim da parte 15.ª
CONTINUA