José Rocha Diniz
José Rocha Diniz
O jornalista britânico Max Stahl, que filmou e divulgou ao mundo o massacre no cemitério de Santa Cruz, em Díli, vai ser condecorado hoje com o Colar da Ordem de Timor-Leste, o grau mais alto das condecorações timorenses.
É um galardão inteiramente merecido pelo impacto internacional que teve o seu trabalho no qual desafiou a morte. Nesse impacto, e por “um bambúrrio” de sorte, a Tribuna de Macau também teve o seu papel (ainda que pequeno).
Após recuperar o material de filmagem de uma campa do cemitério, Max Stahl conseguiu fugir para Banguecoque, foi à Embaixada Portuguesa onde esteve com José Martins, nosso correspondente na capital tailandesa e o homem que durante décadas foi figura de referência na Embaixada.
Sem os meios tecnológicos de hoje, mas com enorme faro jornalístico, José Martins enviou-nos as fotos que saíram na Tribuna, semanário então muito empenhado na questão de Timor, ainda antes de chegarem aos “media” internacionais.
Evidentemente que o clamor anti-indonésio ganhou expressão internacional com os media anglo-saxónicos, não com a Tribuna. Ainda demorou alguns anos, mas o ditador Suharto que tinha anexado Timor perdeu apoios, debateu-se com as críticas da ONU e manifestações mundiais, até que a crise financeira asiática o levou a demitir-se, sendo substituído pelo primeiro presidente democrático, B. J. Habibie que deu “luz verde” ao referendo que conduziria à independência.
Timor-Leste é hoje um país irmão de Portugal. Max Stahl tem papel importante na história recente de Timor. José Martins, já reformado, continua a ser figura de referência em Banguecoque. A Tribuna passou de semanário a diário e ainda cá está cumprindo a missão para que nasceu.
* Administrador do JTM
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À MARGEM: De facto assim foi como José Rocha Dinis o descreve, jornalista e administrador do Jornal Tribuna de Macau. Com toda a modestia me é característica esforcei-me o mais que pude para que a independência voltasse uma realidade, sem procurar recompensa ou uma simples medalha de "cortiça queimada". 
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Fui praticamente a primeira pessoa, em Banguecoque, que iniciou o processo da independência de Timor-leste, quando numa manhã, ao chegar à embaixada o guarda me informa: "está aqui um homem que diz que é português". Ao lado da casota do guarda, estava um homem, de tez morena, que dormia, (ou fazia que dormia) num banco de jardim. 
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Contou-me a sua história. O homem falava o português correctamente e fugido de Timor-leste, sob o governo indonésio, num cargueiro que o deixou em Singapura e dali chegar a Banguecoque, sem um "real" no bolso. Foi-lhe dada acomodação, um passaporte português e partiu para Portugal. 
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Depois ajudei José Ramos Horta, Mari Alkatiri, com riscos, dado que estas duas personalidades eram "personas non gratas" na Tailândia. Max Stahl, um heroico jornalista, que conseguiu sair de Timor-leste, com a melhor peça que terá feito em sua vida o "massacre do cemitério de Santa Cruz em Dili" e pediu  auxilio à embaixada de Portugal em Banguecoque. 
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A primeira pessoa com quem contactou Max Stahl fui eu. Transmiti ao embaixador Castello-Branco e diz-me para prestar assistência ao jornalista, que já estava a ser perseguido pelo polícia secreta da Indonésia.  
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Max Stahl aterrorizado encontrou o porto de abrigo na missão diplomática portuguesa. Trazia algo para ser enviado a Miguel de Sousa Tavares para ser publicado na revista a "Grande Reportagem". 
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Ao anoitecer saí da embaixada com Max Stahl no meu velho Volvo 244, telefonei, antes, a minha mulher para abrir o portão de minha casa e o fechasse, imediatamente, logo que o carro entrasse. 
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Nos 18 quilómetros da embaixada a minha casa, correu normalmente (embora não tirasse os olhos do espelho retrovisor, não fosse por aí o diabo tecê-las), jantamos uma sopa de camarão, coloquei-lhe o gravador em cima da mesa e contou a história, que ao outro dia, com fotografias, enviei a cassete para a Tribuna de Macau, que viria a dar furor e o primeiro jornal em língua portuguesa a publicar a "grande cacha", sobre o "massacre"que viria ajudar e muito a liberdade dos timorenses.
José Martins