terça-feira, março 18, 2008
MEMÓRIAS - CALOU-SE A GUITARRA DE ANTÓNIO PORTUGAL, EM BANGUECOQUE
INTRODUÇÃO
O
embaixador José Eduardo de Mello-Gouveia, quando partiu da capital
tailandesa e foi assumir a gerência do Missão Diplomática de Portugal em
Tóquio (Junho 1988), deixou a Missão de Banguecoque alicerçada para a
continuação das actividades comerciais e culturais. Como já referi o
dinâmico diplomata veio encontrar a embaixada em míseras condições. Tudo
estava adormecido e naquela representação de Portugal, no Reino da
Tailândia, ( país de largas tradições séculos atrás, em Ayuthaya)
existia o completo marasmo e o chefe de missão, de então, além de viver
na "Nobre Casa" com carências de acomodação, por falta de verba
resumia-se, apenas, a passar os dias. Um palac
ete
em verdadeira decadência, a cair aos pedaços e envolvido entre
barracões absolutamente apodrecidos. Não houveram actividades comerciais
ou culturais e nem espaço para as poder realizar. Os sete anos da
permanência de Mello-Gouveia além de terem sido produtivos deixou obra
para ser continuada. Um Gabinete Comercial, cujo edifício foi mandado
construir por ele. Dentro, sentado a uma secretária, um jovem activo de
nome Chanu, formado nos Estados Unidos, "public relations" que viria a
fazer um trabalho excelente por dois anos; uma secção cultural, sem
adido, que viria depois. Várias monografias publicadas e muito interesse
dos portugueses, de passagem por Banguecoque, de visitar a Embaixada. A
comunicação social de Portugal e de Macau, desempenhou um papel muito
importante para divulgar Portugal na Tailândia e as relações históricas
entre os dois países vindas há vários séculos. Durante mais de 20 anos
eu próprio continuei a noticiar tudo o que de bom era levado acabo na
Embaixada. Hoje ainda o continuo a fazer com muito gosto. E o farei até
que exista.
JUNHO DE 1994 IMPORTANTES ACTIVIDADES CULTURAIS DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE
Foi
um mês em cheio e grande azáfama dos serviços culturais da embaixada.
No dia 26 de Maio, enviei a peça para a Agência Lusa com o texto e parte
do comunicado de imprensa que me foi fornecido por Ermelinda Galamba de
Oliveira, a gerente do funcionamento da Secção Cultural da Missão
Diplomática Portuguesa na capital da Tailândia.
O texto: " PORTUGAL EM BANGKOK - Festival - Sob o título genérico " de Fados e Filmes",
os Serviços Culturais da Embaixada de Portugal estão a organizar uma
semana de cultura portuguesa, nesta cidade, que terá lugar de 9 a 18 de
Junho.
O "Quarteto de Guitarras de Coimbra"
com os cantores Paulo Saraiva e António Bernardino, iniciarão este
ciclo com dois concertos, um a 9 e outro no dia 10 de Junho. O primeiro
evento será um jantar de gala/concerto, num dos melhores hoteis da
cidade, destinando-se os lucros de jantar/concerto a uma obra social
votada ao apoio de mulheres e crianças, sob tutela de uma influente
activista social patrocinada por uma das princesas da Família Real. O
segundo realizar-se-á no auditório da Alliance Française
e destina-se a uma audiência mais alargada. O Quarteto de Guitarras,
composto por António Brojo, António Portugal, Aurélio Reis e Luis Filipe
Ferreira, desloca-se a Singapura no início de Junho, onde participará
no Festival de Artes daquela cidade, e tem ainda programados dois
concertos em Kuala Lumpur e Malaca. O festival prosseguirá na semana
seguinte com a apresentação de três filmes portugueses, também no
auditório da Alliance Française, cedidos pelo Instituto Português de
Arte Cinematográfica e Audio-Visual. Trata-se dos filmes "Amor e Dedinhos de Pé", "Adeus Princesa" e "Retrato de Família".
A GUITARRA DE ANTÓNIO PORTUGAL CALOU-SE, PARA SEMPRE, EM BANGUECOQUE
Morreu a "trova do vento que passa" . Silenciaram-se para sempre as cordas da guitarra de António Portugal
Nove de Junho de 1994 uma quinta-feira quente e húmida em
Banguecoque por cerca da cinco horas da tarde dirigi-me para o hotel "Dusit Thani", ao Norte da "Silom Road", com a finalidade de me encontrar com os membros do " Quarteto de Guitarras de Coimbra". Pessoal do hotel decorava o "Sala Tiara", no
topo do grande edifício, onde dali a panorâmica, observada sobre a
cidade de Banguecoque, era o de altas gruas em cima ou nos alicerces dos
prédios. Bem se poderia advinhar, na altura, que a capital tailandesa
em próximo futuro seria uma cidade de arranha-céus e torres de cimento. O acordar de um grande burgo onde se encontrava adormecido o desenvolvimento urbano. No hotel Dusit Thani, às sexta-feira e sábados pela noite, num salão, ainda a sociedade, residente, antiga dançava o "tango" argentino. Sala "nostálgica" dos tempos românticos da "Cidade dos Anjos".
Um hotel construído em 1970 com um serviço e de excelência e passados
38 anos mantém-se com as mesma característica e um dos melhores de
Banguecoque. "Sala Tiara" configura um "capacete" e um componente da farda de um guarda da "Casa Real Tailandesa".
Banguecoque por cerca da cinco horas da tarde dirigi-me para o hotel "Dusit Thani", ao Norte da "Silom Road", com a finalidade de me encontrar com os membros do " Quarteto de Guitarras de Coimbra". Pessoal do hotel decorava o "Sala Tiara", no
topo do grande edifício, onde dali a panorâmica, observada sobre a
cidade de Banguecoque, era o de altas gruas em cima ou nos alicerces dos
prédios. Bem se poderia advinhar, na altura, que a capital tailandesa
em próximo futuro seria uma cidade de arranha-céus e torres de cimento. O acordar de um grande burgo onde se encontrava adormecido o desenvolvimento urbano. No hotel Dusit Thani, às sexta-feira e sábados pela noite, num salão, ainda a sociedade, residente, antiga dançava o "tango" argentino. Sala "nostálgica" dos tempos românticos da "Cidade dos Anjos".
Um hotel construído em 1970 com um serviço e de excelência e passados
38 anos mantém-se com as mesma característica e um dos melhores de
Banguecoque. "Sala Tiara" configura um "capacete" e um componente da farda de um guarda da "Casa Real Tailandesa".
António Portugal acompanhando os cantores Paulo Saraiva e António Saraiva na "Sala Tiara".
Um
espaço para ali ao fim da tarde se saborear uma bebida, um chá, um
café, trocar dois dedos de conversa com um amigo. Lá do alto admirar
Banguecoque no seu todo até ao Rio Chao Praya. Utilizado para grande
recepções, sociais e diplomáticas e eventos culturais. Naquela noite de 9
de Junho um grande acontecimento e evento cultural genuinamente de
expressão portuguesa. Os sons das guitarras iriam acompanhar os fados de
Coimbra cantados pelos mestres Paulo Saraiva e António Bernardino.
Gente de todas classes sociais da cidade de Banguecoque encheram as mesas da "Sala Tiara".

Foto
da esquerda: Embaixador Castello-Branco com António Portugal. Lado
esquerdo subiu ao palco para cumprimentar todos os membros
Depois
do jantar o sarau de música e fados de Coimbra. As luzes mudaram de
intensidade luminosa; os sons, mágicos e indolentes das cordas das
guitarras envolveram todo o espaço e acompanharam os fados da cidade do
Mondego onde se ouviu a "Samaritana". Pouca
assistência entendia a letra dos poemas, cantados, mas não foi
necessário porque o fado coimbrão entrava no ouvido dos presentes e
desde logo os sentimentos lhe invadiam a alma.
O espectáculo de 10 de Junho o "Dia de Portugal" as cadeiras do Auditório da Alliance Française ficaram completamente ocupadas
Dusit
Thani, não lhe encontrando, aparantemente, qualque sinal de doença que
infelizmente, de regresso a Portugal, foi acometido de um ataque
cardíaco que lhe roubou a vida quando ainda tinha muitos anos, neste
mundo, para dedilhar a sua guAntónio Portugal, um exímio guitarrista,
com quem conversei na Sala Tiara do hotel itarra a que lhe dava o nome: "o meu "Stradivarius". Sua morte chocou todos aqueles que apreciaram a sua arte, em Banguecoque e a quem tratava por "tu"
o seu instrumento a guitarra. António Portugal deixou de pertence ao
número dos vivos e óbviamente já esquecido na fraca memória dos homens.
Mas porque temos, arquivado um texto, que na altura da tragédia, foi
publicado no semanário a "Tribuna de Macau" que por vários anos fui correspondentes na Tailândia, a título de homenagem o transcrevo:
António Portugal: "UMA GUITARRA NO LUGAR DO CORAÇÃO" - Morreu a "trova do vento que passa"
" O meu Stradivarius",
comentava António Portugal quando referia a sua guitarra predilecta
construída em 1961, por Joaquim Grácio, o fabricante de instrumentos de
Artur Paredes. O músico e compositor de Coimbra, faleceu nos Hospitais
da Universidade de Coimbra, na sequência de um acidente vascular cerebal
que o afectou no regresso de uma digressão à Tailândia, para participar
no 10 de Junho - enquanto o Presidente Mário Soares o distiguia com a
Ordem da Liberdade.António Jorge
Moreira Portugal, de 63 anos, começou a aprender guitarra em 1947, com o
célebre barbeiro Flávio Rodrigues, de quem foi o último acompanhante.
Autêntico arqueólogo da canção coimbrão - designação que preferia a
fado, porque menos restritiva e capaz de a distinguir da castiça
expressão musical lisboeta - Portugal ensaiou permanentemente novas
vias. Ainda no liceu, constituiria, em 1949, o seu primeiro grupo, a que
se juntavam as vozes de José Afonso e Luis Goes.
Duas fotos em espectáculos de lugares diferentes: "Sala Tiara" no hotel "Dusit Thani" e no Auditório da "Alliance Française"
Pinho Brojo a mais célebre dupla de guitarras-um conjunto que assinalou, no ano. Acompanhou,
actuou, compôs e gravou com todas as referências marcantes da música
conimbrense, de Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira e de Fernando
Machado Soares a António Bernardino - não excluindo na sua carreira terá
sido, com passado, quatro décadas. Juntaram-se, pela primeira vez em
Junho de 52, no Emissor Regional do Centro, numa transmissão da Serenata de Coimbra. A
experiência permaneceu, em diálogos cúnplices, no acompanhamento de
cantores e nas guitarradas soltas. Mais tarde, o duo acabaria por
garantir ao cordofone o estatuto de instrumento de concerto. Nos anos
90, entraram em estúdio eregistaram em vinil, com o seu último quarteto -
que integrava Aurélio Reis e Luis Filipe (acompanhados, designadamente, pelos "rouxinois" António Bernardino, Luis Goes, Alfredo Correia e António Rolim) - a colectânea histórica de oito décadas da música de feição estudantil, intitulada Tempo (s) de Coimbra
Minha
filha Maria Martins, acompanhada, vai colocar colares de flores de
jasmim ao membros do conjunto de artista, académicos, da Cidade de
Coimbra
Preparavam-se
já para registar o que definiam como seu testamento musical, que
englobava o espólio das guitarradas que tinham composto, as que
permaneciam inéditas. A conversa com aquele "virtuoso músico de eleição",
aprendia-se quase toda a história do canto de Coimbra. Portugal
sustentava que o fado era, afinal, de orígem trovadoresca, dos tempos em
que a Corte estava sediada na cidade. Detestava o "nacional-cançonetismo" dos anos 40 e garantia que Menano foi, sem dúvida, "um dos grandes cantores da Europa".
Membro da CDE e ex-deputado do PS, António Portugal seria. aliás, um
dos grandes inovadores da música citadina. As modernas baladas
militantes, em que desempenhava papel relevante a poesia do seu cunhado,
Manuel Alegre, já não falavam dos amores românticos dos estudantes, mas
antes da cidade sitiada pela polícia de choque, durante a Crise
Académica de 69. Nessa época compõe, para a voz de Adriano, um dos mais
belos temas de sempre da inspiração coimbrã. A Trova do Vento Que Passa.
Foto
da esquerda: quarteto de guitarras e cantores de Coimbra durante a
actuação no palco do Auditório da Aliança Française. Foto da direita:
Ermelinda Galamba de Oliveira, adida cultural, Joana de Vasconcelos,
leitora de português e um amigo. Não escondem a satisfação que lhes vai
na alma
No
momento em que desaparece uma autêntica lenda da guitarra de Coimbra -
na senda de Artur Paredes e Flávio Rodrigues - , merecem apenas registo
os versos que Manuel Alegre escreveu no seu livro de curso.
Traz no sangue uma canção /Retratos por revelar/Na inquieta imaginação/Se lhe falam em estudar/Tem a moral da cigarra: Para ele é sempre Verão;/Porque traz uma guitarra.No lugar do Coração
Diário de Notícias/Tribuna de Macau