domingo, fevereiro 03, 2008
Nona partes
Regressei
ao deserto da Arábia Saudita e as duas seguintes semanas, após seis de
trabalho, fui goza-las a Portugal. Voltei a Banguecoque passado três
meses da primeira visita.
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Desconhecia
que Portugal estava representado com um a Missão Diplomática; que os
portugueses tinham sido os primeiros europeus a conhecer o Reino do Sião
e neste Reino se mantiveram, como únicos do mundo ocidental por mais de
um século.
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Um dia ao ler a edição de uma pequena publicação "This Week",
distribuída gratuitamente, numa página estava desenhado um mapa de
Banguecoque, as ruas com a localização das embaixadas e consulados de
países acreditados na Tailândia. Localizei a Embaixada de Portugal,
junto à margem do rio Chao Prya.

O
meu passaporte, ainda o de modelo de capas verdes e de poucas folhas,
para quem viajava muito como eu, esgotava-se em pouco mais de dois anos
com as "carimbadelas" nos aeroportos. Necessitava de adquirir
um outro e aproveitaria a requerê-lo em Banguecoque já que existia uma
Missão Diplomática.. Tomei um táxi no "Honey Hotel" e passado
uns 20 minutos estava na Captain Bush Lane, 46 e onde já tinha passado e
a pouco mais de 30 metros o barco de quando fui navegar no rio e
canais.
A
entrada da missão quedava-se um guarda que depois de lhe mostrar o
passaporte e apresentar-me com português franqueou-me a entrada e
indicou-me o caminho a seguir. À minha direita estava um enorme barracão
de tábuas e folhas de zinco onduladas. Do lado esquerdo um taipal de
tábuas de madeira e arbustos que por ali cresciam. Estava a caminho da "Nobre Casa" (que mais tarde a baptizei),
ao lado direito um meio muro e em cima ripas de madeira.
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Nesse meio
muro e ripas numa distância de uns 20 metros estavam as entradas com
meias portas, muito bem trabalhadas por artista marceneiro e já velhas,
de madeira de teca. Numa das duas colunas que suportavam as portas uma
lanterna de metal, enferrujada e logo a seguir o escudo português,
gravado numa placa de esmaltada em oval absolutamente deteriorada.
Uma lanterna e o esmalte com o símbolo da Pátria Portuguesa em miserável apresentação...
Envergonhei-me
não por ser português mas pelo desmazelo e pouco dignificado, estava à
frente dos meus olhos, o símbolo da Pátria Portuguesa. Murmurei: "isto é que é a Embaixada de Portugal em Banguecoque"? Uma autêntica pobreza franciscana! Entrei na arcada da "Nobre Casa", decoradas com uns "plintos",
que me pareceram ser de orígem chinesa e ali colocados havia umas
dezenas de anos.
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Entro no palacete, a residência do chefe-de-missão e o
serviço de atendimento aos utentes, instalado no salão ao lado direito
da entrada que considero nos dias de hoje o "nobre". Atendeu-me o
chanceler, tailandês, Chalerm e passado uns minutos o vice-cônsul, de
orígem goesa, José de Souza.
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Identiquei-me ao Souza como português e
necessitava de um novo passaporte, mostrando-lhe o que possuia com duas
folhas. O vice-cônsul Souza, nasceu em Zanzibar (o pai tinha sido cônsul
na ilha), a representação encerrou e o Souza teria sido transferido
para Nairobi, no Quénia e mais tarde transita para Islamabad (Paquistão)
de quando o Quénia cortou relações diplomáticas com Portugal, devido
aos problemas havidos em Angola, colocando-se ao lado, como óbvio, dos
grupos nativos, apoiados pela China e a União Soviética de linha dura de
regime comunista.
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O
Souza sob a protecção do então governante Prof. Oliveira Salazar
(cheguei a ver, mais tarde em sua casa, uma fotografia onde está, mais a
sua esposa, junto ao ditador) que penso sob seu apadrinhamento foi
colocado no Consulado de Portugal na capital da Tailândia sob a gerência
do então Encarregado de Negócios o Dr. Sebastião de Castello-Branco.
Mais tarde eu viria a servir por sete anos consecutivos e de quando
acreditado como embaixador de 1988 a 1995. Naquele serviço de
chancelaria (viria a ter conhecimento de quando ao serviço da Embaixada de Portugal em Banguecoque), imperava o "ócio" e passar os dias até que ao fim do mês chegasse o "cheque de Lisboa" para satisfazer os ordenados e a verba para funcionamento da missão.
A entrada da Feitoria de Portugal nos anos 1910/1916. Consulado de Luis Leopoldo Flores.
Se
tal não acontecesse seria disponibilizado do "saco azul" da secção
consular, engordado com os emolumentos cobrados aos utentes. Saco "azulado" que viria a terminar de quando assumiu funções, em 1992, o ministro dos Estrangeiros Dr. Durão Barroso e inventado (diplomaticamente) o (FRI) "Fundo de Relações Internacionais".
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Voltando ao vice-cônsul José de Souza (Souza com Z) atendeu-me com enfado e friamente e diz-me: " O senhor terá que apresentar o registo de nascimento para que lhe passe um novo passaporte".... Respondi-lhe: "Mas saiu um decreto que para se obter um documento de viagem apenas é necessário o Bilhete de Identidade"! O Souza sugeriu-me: "Vá ao Bharein e peça um novo passaporte no Consulado de Portugal"... Retorqui-lhe: "Vou a nado é"?... Para me deslocar ao Bharein (apesar de ter de atravessar o Golfo Pérsico de avião em escassos 15 minutos), necessitava de um visto, de entrada no emirato, que não era nada fácil obtê-la. E continuei para o Souza: "Não é necessário nada o Registro de Nascimento para me emitir um novo passaporte, entendeu"?
Terreno da Feitoria de Portugal nos anos de 1910. Consulado de Leopoldo Luis Flores.
Entendi que não me valia a pena entrar em discussão com um funcionário incompetente, com um rei na "barriga" e a servir "mal e porcamente"
os portugueses que ao consulado se dirigiam a pedir um documento ou
apoio consular. Saí daquele espaço absolutamente desprezível e de
vergonha para um português que ali se dirigia para obter (dentro de seus direitos) e apoio consular ou diplomático.

Terreno
da Feitoria nos anos de 1910. (a) sombra da "Nobre Casa" (b) um
funcionário com um macaco; (c) muro que dividia o terreno; (d)
pau-de-bandeira; (e) muro do lado sul a dividir o terreno; (f)
ancoradoiro para o feitor e utentes, dado que em Banguecoque o usual
para deslocações era o rio Chao Prya.
Continuei
a não ter conhecimento o passado histórico de Portugal na Tailândia. Na
próxima viagem a Banguecoque voltei novamente ao consulado e agora
munido do registo de nascimento. Foi esta a minha vingança! E obti um
novo passaporte.
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Na altura geria a Missão Diplomática o embaixador
Renato Pinto Soares, que me pareceu ser ele quando saiu de dentro, das
instalações e passou junto a mim. Não me perguntou quem era de onde
vinha e para onde seguia. Também não foi necessário.
José Martins