sábado, 31 de agosto de 2019

MEANDROS DA DIPLOMACIA - Na Embaixada de Portugal em Banguecoque


Sexta parte

Não me recordo o mês e dia que parti do antigo aeroporto de Dharhan com destino a Banguecoque. Antes e mais uma prevenção (como quem vai para o mar avia-se em terra) pedi ao Jhon as últimas recomendações: dinheiro que deveria levar comigo, local onde deveria tomar o táxi de deixar a gare do aeroporto e como proceder com o motorista.
Dinheiro, 700 dólares americanos me chegariam moeda portuguesa), (uns 35 contos) para duas semanas bem passadas. O hotel, indicado, deveria ser o "Honey" na travessa 21 (soi em thai), da Sukhumvit road, onde se hospedava o pessoal da "GSI" que operava em diversos países da Ásia e Índias Orientais (ilhas da Indonésia).
Identificavam-se com um "cap" de cor verde, tipo americano, na cabeça e um t-shirt branco, com um globo mapa-mundo atravessado com uma barra ao centro a designar: "Geophisical Service Inc.".  

Todos estávamos integrados no grupo, americano, "Texas Instrumentos", o meu cartão de identidade registrava o número 73.250. Pertencia a um grupo de uma classe unida e quando se encontravam membros em viagem ou na mesma localidade éramos todos irmãos. 
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O avião de Dharhan a Banguecoque esteve durante o percurso, de seis hora e meia, sujeito a turbulência. A enorme aeronave "DC8 Super", de quatro turbinas, vibrou constantemente as asas de grande envergadura. Os passageiros compunha-se de "oil men", sauditas homens de negócios e jovens, da mesma nacionalidade, para passar uns dias de férias na Tailândia.

Panorâmica da baixa de Banguecoque na década 70 (Séc.XX)

Na década de 70 a "Thai International", uma linha aérea de excelência e associada à "Singapore Airlines" e "Cathai Pacific" de Hongkong. Um passageiro poderia viajar nas três companhias, para qualquer destino da Ásia, com o mesmo bilhete, com idênticas regalias. As hospedeiras de bordo, seleccionadas e de uma simpatia tal que cativavam os passageiros. Durante a viagem, fosse em primeira, "business" ou económica classes o tratamento seria igual. 
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As três companhias aéreas da Ásia voltaram famosas pela forma que servia seus clientes. Apreciei durante a minha primeira viagem à capital da Tailândia, jovens árabes, a mimosear as hospedeiras de bordo, de quando, estas, caminhavam no corredor atender as solicitações dos passageiros com "barrufos" de perfume francês de alto preço. 
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As jovens, com dois palminhos de cara, de sorrisos enigmáticos que só na Tailândia se encontra diziam aos perfumadores: "please,please stop it"! Meia hora antes do avião de aterrar no aeroporto internacional de Don Muang os passageiros foram avisados que se aproximavam do final da destinação. Não foi necessário recomendar apertar os cintos, porque todos, desde Dharhan vieram amarrados à cadeira. 
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O DC8 começou a perder altura, atravessa a cordilheira de nuvens, negras absorvidas de água e depois, entre os pequenos flocos começa a vislumbrar-se o manto verde dos arrozais, submersos em água. Não se dava conta de construções ou núcleos populacionais, mas umas pequenas casas de agricultores e os templos, budistas que espelhavam conforme a descida do avião. 
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O meu olhar está maravilhado perante o que os meus olhos gravam na minha memória. Creio que todo aquele visionário, de rara beleza, foi o meu primeiro amor antes de colocar os pés em solo tailandês.

O DC8 Super fez-se à pista suavemente a arrasar os campos de arroz. Uns poucos aviões, de linhas internacionais, aparcados à espera de horas para embarcar passageiros. O aeroporto poder-se-ia considerar a um doméstico de país da Europa. 
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O serviço de emigração e alfândega funcionou perfeitamente e sem demasiadas delongas. Um panfleto turístico era distribuído aos visitantes, estrangeiros, como se deveriam orientar e comportar no Reino. Restrições à entrada dos "hippies" cabeludos. 
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Recomendações para que os visitantes não entrassem na tentação de se envolverem em drogas e informava as penas aplicadas pela Justiça que poderiam ir até prisão perpétua. A droga corrente na Tailândia era a heroína que chegava a Banguecoque do norte do território. As drogas leves a suruma (hoje conhecida por "grass" ou erva), em comprimidos não eram traficadas ou mesmo conhecidas. 
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A saída da gare de desembarque para o exterior, bastante modesta e exígua onde se amontoavam pessoas à espera de familiares, amigos e motoristas de táxi legais e outros "piratas" a oferecerem transporte para a cidade ao preço de 80/100 e 150 baht para os mais endinheirados e preferirem as limusines da "Thai International". 
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Optei, conforme a recomendação do Jhon, por uma destas para me levar ao "Honey Hotel". A distância entre o aeroporto e a baixa banguecoquiana 33 quilómetros, que actualmente um carro demora uns 20 minutos na altura despendia hora e meia. 
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A estrada de piso modesto e de dois sentidos em alguns pontos. As margens de um lado e do outro são campos de arroz onde os agricultores se ocupavam no cultivo e monda. Corpulentos búfalos submersos na água com a cabeça à tona. Uma zona absolutamente rural até à entrada de Banguecoque. 
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O motorista, aparentemente, simpático, curioso enquanto conduzia fazia-me perguntas de onde vinha e quantos dias me quedaria na Tailândia. Entendi que a filosofia dos motoristas de táxis era semelhante em todas as capitais do mundo e este, que me transportava, não fugia à regra em procura de negócio.

Do bolso do peito da camisa retira uma fotografia de uma rapariga jovem que me diz ser sua prima e disponível para me fazer companhia durante minha estadia em Banguecoque. Não, não por agora não estou interessado, respondi-lhe. 
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Não desarmou e usou outro sistema de aliciamento, os pontos interessantes que deveria visitar em Banguecoque: o Grande Palácio, os templos, o "Rose Garden" o espectáculo dos elefantes, a "Crocodile Farm", o "Floating Market" e navegar pelos canais adjacentes ao rio Chao Praiá e acrescentou: "ter um tio proprietário de um automóvel que me faria um preço, convidativo, como guia e transporte". 
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Acabei por aceitar e no dia seguinte me fosse buscar pela manhã ao "Honey Hotel". A cidade de Banguecoque de grande em área, urbana, mas com uns pouco prédios se erguiam a seis ou dez andares. Todos os hotéis se conheciam pelo nome e localização.
 
Destacavam-se o "Dusit Thani" e "Narai" , à entrada e ao meio da Silom Road, o "Indrá" na área de Patuname, o "Narai", o "Naná" e o "Grace" ao fundo da "Sukhumvit Road" e o "Princess" e o "Royal" localilizados na zona dos nobre (ministérios, tailandeses e a sucursal das Nações Unidas para o Sudeste Asiático) de Banguecoque. Nas travessas da Sukhumvit Road muitas "guest houses" para os menos endinheirados.
. A Sukhumvit road, a artéria que ganhou fama durante a Guerra do Vietname. Os soldados americanos estacionados quer nos postos de abastecimento em território tailandês ou a combater na mata de bambus, vietnamitas, quando de férias e para se libertarem do "stress" que a guerra provoca aos envolvidos, Banguecoque, Hong Kong e as Filipinas eram os locais preferidos, por soldados e oficiais. 
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Quando cheguei a Banguecoque pela primeira vez, a guerra do Vietname de 12 anos (1965-1973) tinha chegado ao fim havia 5 anos, com a humilhação americana. Porém ainda se mantinha na memória dos tailandeses a permanência dos soldados naquela área. 
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Quando já perto do "Honey Hotel", na Soi Asok, o motorista do táxi informa-me, indicando com o dedo para uma travessa do lado direito: "there was the place for american soldiers to drinking beer and play with girls". Essa travessa era mais nem menos que a "Soi Cowbois" que voltou famosa e conhecida nos Estados Unidos e de todos os jovens que visitavam Banguecoque. A travessa cowboys ficou baptizada pelo facto de um "negro" americano (que conheci) que serviu, como soldado, na guerra do Vietname.
Depois de disponibilizado, do exército, ficou em Banguecoque e abriu um bar numa travessa. A parte da frente é decorada com motivos do Texas, onde há cordas e chifres de búfalos. Um largo poster com a imagem de um vaqueiro a cavalo a lançar o laço na pradaria texana. O negro "cowboy" voltou numa figura típica e conhecida, com o negócio do bar a correr-lhe pelo melhor e abriu, mais um bar de dá-lhe o nome: "cowboys II". 
 
Os americanos partiram para o seu país mas ficaram alguns veteranos a residir na Tailândia ou porque tinham casado com mulheres tailandesas ou a gozar a reforma. O americano, negro, "cowboy" bebia litros de cerveja acabou por morrer, alcoólico, passado poucos anos.
Os americanos partiram e a Sukhumvit road, por escasso período de tempo deixou de ter aquele movimento dos soldados americanos. Surge o desenvolvimento da exploração de ramas de petróleo na Arábia Saudita e outros países árabes do Médio Oriente. Para fazer face ao incremento de pesquisa e produção dezenas de milhares de expatriados foram contratados nos cinco continentes. 
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O ouro negro atraía muita gente de várias nacionalidades, com salários atraentes e o privilégio de por cada seis semanas de trabalho duas de descanso. A Sukhumvit Road voltou ao cenário que antes viveu. Agora bem diferente e com os "oil men" endinheirados, vestidos e calçados à moda texana.
A "Soi Cowboys" mudou de face com a abertura de mais duas dúzias de outros bares, semelhantes ao do cowboy, onde a cerveja e outras bebidas se vendiam aos almudes depois das seis da tarde até à meia-noite ou pela madrugada adiante. Apreciavam-se alí espectáculos caricatos provocados pela bebida. Os clientes "enfrascados", as namoradas tailandesas, levavam-nos como crianças, pela mão até ao "Honey Hotel" a dois passos do "Soi Cowboys". 
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Depois da ressaca, na abertura do bar, voltavam ao espaço do "crime" da noite anterior. Raramente se notavam distúrbios, ou cenas de pugilato. A polícia usava extrema tolerância com os que se tinham descuidado na bebida e se algum era levado para a esquadra, dormia lá e ao outro dia, já desintoxicado, mandado em paz. O turismo em massa viria depois... 
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Na ocasião que visitei, pela primeira vez Banguecoque e ainda por anos os potenciais turistas que visitavam a Tailândia foram os homens que trabalhavam no petróleo e a ele se deve, parte do desenvolvimento de turismo e a craveira atingida no presente com mais de 16 milhões, anuais, de visitantes.
José Martins