quinta-feira, 12 de outubro de 2017

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR - PARTE 17ª

CHEGAMOS AQUI. VAMOS, EM TEMPO CONTINUAR A HISTÓRIA.
Consulado de António Feliciano Marques Pereira


A 16 de Setembro de 1875, o consulado geral de Portugal em Singapura e Malaca e suas dependências foi anexado ao consulado de Portugal no Sião, sendo elevado a cônsul-geral daquele distrito o cônsul de Portugal no Sião, António Feliciano Marques Pereira, que estava à frente desse consulado desse Janeiro desse ano:
Este nasceu em Lisboa, a 1 de Junho de 1839, sendo filho de António Marques Pereira e de Maria Catarina Damário Ferreira. António Feliciano Marques Pereira casou em Macau com Belermina Inocência de Miranda, baptizada na Sé, a 5 de Junho de 1839, filha de António José de Miranda e de Ana Joaquina de Miranda; neta de paterna de Agostinho José Miranda e de Mariana Marques de MIranda e materna de Januário Agostinho da Silva e de Maria Ana Francisca Pereira da Silva. Agostinho de Miranda era filho de José Miranda e Sousa e de Maria Rosa Correia de Liger; sua mulher, Mariana Marques, era filha de Gabriel Marques e de Clara Maria Rosa Vieira, neta paterna de Domingos Marques e de Maria Francisca dos Anjos Ribeiro Guimarães e materna de Raimundo Vieira e de Maria Francisca de Miranda.
António Feliciano Marques Pereira e seu filho João Feliciano foram dos maiores historiadores de Macau, publicando várias obras e inúmeros artigos sobre esta terra. O pai pai foi cônsul de Portugal em Banguecoque durante 6 anos, desde Janeiro de 1875 a 1 de Abril de 1881.Falando de seu pai, escreve João Feliciano Marques Pereira:
«No meio dele (povo siamês), passou meu chorado Pai alguns dos melhores anos da sua vida (de 1875 a 1881), conseguindo a muito custo restabelecer o antigo prestígio tão abalado por muitos desleixos e vergonhas que constituem o costumado fim de muitas glórias portuguesas...
Mas nesse patriótico empenho arruinou a sua saúde num clima inhóspito para europeus.
Tendo saído de Bangkok, em Abril de 1881, veio morrer em Setembro desse ano em Bombaim, como cônsul-geral na Índia inglesa, cargo para que tinha sido promovido como prémio dos seus longos serviços na Ásia, conforme diz o respectivo decreto.
Foi durante a sua permanência em Bangkok que se levantou o novo edifício consular à custa dos rendimentos do próprio consulado e se acabou com a residência do representante de Portugal na imunda pocilga ou barraca feita em 1820 pelo cônsul Carlos Manuel da Silveira. Já em 1858 Carlos José Caldeira no 1-º volume do Archivo Pittoresco clamava contra a vergonha de tal habitação que já então «estava sustida com cordas e pontaletes para não cair, e que só por irrisão se denominava casa do consulado e feitoria portuguesa».
Meu Pai contribuiu muito para que se resolvesse a questão entre o 2.º e o actual 1.º rei, suscitada depois da implantação da nova constituição política de 1874.
Para isso também trabalhou bastante o falecido Conde de S.Januário, quando Governador de Macau e ministro plenipotenciário em Siam.
Por esses e outros valiosos serviços... a comunidade portuguesa de Bangkok ofereceu a meu Pai uma taça de prata, com dedicatória grande, acompanhada da seguinta mensagem, da qual, já agora, não resisto à tentação de transcrever os seguintes trechos:
«Aprouve ao Governo de Sua Majestade Fidelíssima elevar a V. Ex.ª a um cargo superior ao que por sete anos V.Ex.ª há exercido no reino do Siam táo distinta quão briosamente.
Receba assim V.Ex.ª um prémio condigno do seu subido mérito, geralmente reconhecido talento e acrisolado patriotismo.
Nós, porém, os abaixos assinados, súbditos portugueses aqui residentes, vamos ficar privados dum Representante sem igual na história das relações entre as nações portuguesas e siamesa; daquele a quem coube o destino de restabelecer o prestígio do nome português que muito declinara neste país; que completou e embeleceu o nobre edifício da residência consular, reformou o serviço e coordenou os arquivos do consulado e melhorou os seus redimentos; administrou justiça recta; dispensou-nos conselhos prudentes; pugnou pelos nossos interesses e pelos da nação: que soube enfim, pela perspicácia e firmeza nos negócios diplomáticos, afabilidade, bizarria e hospitalidade nas relações sociais captar respeito, a estima e consideração da nobreza de Siam, dos seus colegas do corpo consular e outros residentes estrangeiros, e de nós os portugueses.
Penhorados. pois, por tanta benevolência, pátrio zelo e amabilidade, vimos aqui desempenhar-nos dum dever de gratidão rogando a V.Ex.ª se sirva aceitar esta taça com a inscrição nela gravada, expressiva dos nossos sinceros agradecimentos pelo bem que V.Ex.ª nos há feito. Digne-se mais aceitar a manifestação do nosso sentimento pela sua próxima partida para longe de nós.
A ausência e o tempo não poderão extinguir-se em nós a grata recordação dos feitos dum benemérito da Pátria, como é V.Ex.ª nem do seu nome justamente respeitado».
São já passados 20 anos (1881-1901). Muitos se não a maior parte, dos signatários dessa mensagem estão mortos.
Mas um núcleo de briosos rapazes, com a fundação da «União Portuguesa», tentou patrioticamente respabelecer as antigas relações comerciais entre os portugueses e siameses e honrar pelo trabalho o nome de Portugal. Que o Governo olhe, como deve, pela comunidade e pelo consulado português em Siam (1).
Compreendem-se estas palavras na boca do filho, que pinta o pai como um sol sem mancha, mas veremos as sombras no relatório do cônsul Loureito.
Por ofício de 3-8-1876, Marques Pereira envia ao Governo de Macau cópia do inventário do Consulado de Singapura, pedindo que pela Junta de Fazenda de Macau lhe fosse abonada a quantia necessária para aquisição da bandeira e material para o Consulado (2). A 18 de Julho de 1877,
Marques Pereira oficia a Chow Phia Kham Wongse, Ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre o assassinato cometido pelo monopolista de espíritos, Kimian (monopolista de Supan) na pessoa de Chin Jesun, criado de Chin Ip Chion Si.
Diz ele que outrora não havia crimes; mas, desde que os monopolistas viram que a repartição das finanças desculpava todos os abusos, estes repetem-se todos os dias. Ele cônsul, reteve 320 ticais (quatro cates de prata) que o assassínio lhe dera; a este, mandou aplicar 4 chibatadas.
(1) Ta-Ssi-Yang-Kua, Vol. 11, p.761 - (2) Processo n.º 98, de 3-8--1876.
O Ministro mandou o Sr. Jesus (1) ao consulado pedir os 4 cates, mas não lhe foram entregues. Perante a queixa do Ministro o Cônsul replicou: «Os quatro cates cá estão». Não tenha V.Ex.ª cuidado, que eles daqui não desaparecem.
São meus, foram-me dados pelo monopolista de Supan, mas como eu não costumo receber dinheiro por este modo, ofereci-os a V.Ex.ª e torno hoje a oferecê-los, pedindo-lhe que os aplique aos pobres ou que lhes dê o destino que V.Ex.ª entender mais justo.
Mas preferia esperar pela decisão do tribunal sobre o caso do assassinato.
O Ministro disse que era impossível corresponder-se com o cônsul, enquanto este não lhe desse os quatro cates. O Cônsul respondeu estranhando esta deselegândia e dizendo que o monopolista Kimian tinha a responder por dois crimes: 1.º) o de assassinato; 2.º) de ter tentado subornar o intérprete do consulado e depois o próprio cônsul, entregando-lhe quatro cates de prata e prometendo-lhe muito mais dinheiro.
Mas se o Ministro julga que esse dinheiro estará mais seguro no Ministério do que no Consulado, ele lho enviará. Ele enviou-o ao Ministro. Este queixou-se disto a Eugénio Correia da Silva, Governador de Macau.
A 30-3-1878, Pereira escreveu a Correia da Silva, em resposta a um ofício de 28 do mês anterior, disendo:«nas fraquissímas condições em que está o consulado, melhor é não o sobrecarregar com a protecção dos chinas...
Os chinas podem apostar, viver e comerciar em Bangkok sem necessidade de passaportes ou de protecção de consulado algum.
Termina dando explicações sobre a questão dos quatros cates de prata (2). A 23 de Outubro de 1880, Marques Pereira remeteu ao Governador de Macau o projecto do tratado entre o Sião e a Inglaterra, combinado em Londres pelo embaixador siamês Chow Phia Khan Wongse; regressado recentemente a Bangkok
«O Conde Granville aceita esse projecto, mas unicamente no caso das outras nações o aceitarem» (3). A 28 de Janeiro de 1881, Pereira informou Joaquim José da Graça, o Governador de Macau e ministro plenipotenciário (1879-1883) que o rei do Sião ia nesse ano mandar uma embaixada à Europa, de que seria encarregado o próprio Kalahone, ou primeiro-ministro (4).
(1) Trata-se de Adeodato Francisco de Jesus, que nasceu em Macau, a 19 de Maio de 1841, sendo filho de Adeodato de Jesus e de Rita Josefa dos Remédios, neto paterno de Miguel de Jesus e de Isabel Lopes e materno de José Félix dos Remédios e de Ana Maria Correia. Ainda hoje há na Tailândia muitos descendentes desta família, alguns dos quais ocupando altos cargos do Governo e da Igreja. Nas nossas visitas no Sião conhecemos muitos deles: um é religioso redentista, sendo hoje bispo duma diocese na Tailândia, outra é Provincial das Irmás de Holy Infant Jesus nesse país; outro é alto funcionário do Governo, etc. (2) Processo n.º 164, série P. de 30-3-1878, Arquico Histórico de Macau, (3) Processo n.º 276, série T, de 23-10-1880. (4) Processo n-º 165, série N, de 20-1-1881 (De Monsenhor Manuel Teixeira, cremos do ano 1984). Com a data de 1 de Março de 1881, António Feliciano Marques Pereira redigiu um Relatório do Consulado em que nos dá interessantes informações em cima das inscrições no consulado:
1815................................................................................................................15
1860................................................................................................................. 6
1861..................................................................................................................3
1862..................................................................................................................2
1863..................................................................................................................1
1864..................................................................................................................5
1865................................................................................................................. 4
1866..................................................................................................................2
1867..................................................................................................................2
1868................................................................................................................24
1869................................................................................................................11
1870..................................................................................................................1
1872..................................................................................................................2
1873..................................................................................................................2
____
80 (total da soma acima)
O Consulado protegeu vários súbditos não cristãos, sobretudo chinas, idos de Macau.
Em 1871 - aparecem registados 1 muçulmano e 4 chineses; em 1872, um chinês; em 1873, até 19 de Maio, um chinês. Nesse ano de 1872 foram inscritos 368 protegidos chineses mas essas inscrições foram anuladas. Nos anos seguintes, M.Pereira registou 106 indivíduos:
1875.................................................................................................................42
1876.................................................................................................................13
1877.................................................................................................................12
1878...................................................................................................................7
1879.................................................................................................................12
1880.................................................................................................................20
___
106 (total da soma acima)
Os protegidos que não católicos:
1875..................................................................................................................12
1876..................................................................................................................11
1877..................................................................................................................11
1878...................................................................................................................7
1879...................................................................................................................8
1880..................................................................................................................16
____
65 (total da soma acima)
As naturalidades dos súbditos portugueses são as seguintes:
Lisboa.................................................................................................................5
Goa..................................................................................................................... 3
Macau...............................................................................................................20
Bombaim.............................................................................................................1
Singapura............................................................................................................1
Banguecoque.....................................................................................................11
___
41 (total da soma acima)
Profissões:
Vivendo em parte incerta...................................................................................9
Comerciantes.....................................................................................................10
Marítimos............................................................................................................ 7
Empregados do Governo siamês........................................................................6
Empregados do consulado................................................................................. 4
____
36 (total da soma acima)

Desses 41 faleceram 4 e 2 ausentaram-se, ficando 35, devendo acrescentar-se 62 protegidos; os serventes destas duas classes são 274.
Marques Pereira descreve as orígens dos portugueses no Sião: «Por duas veses demos socorro a Siam em guerra contra os birmaneses, sendo a última em tempo da senhora D. Maria I. Ainda há poucas semanas o Kalahone (primeiro-ministro e ministro de guerra) em visita, sem que eu a este assunto houvesse aludido, fazia menção altamente honrosa do valor de tais auxílios, e me referia que duas das principais fortalezas que defenderam o Menam foram construídas por militares portugueses. Em 1852, sendo cônsul o macaista Marcelino de Araújo Rosa, ainda o corpo de artilheiros do palácio real de Bangkok se denominava artilharia portugesa.
Estas expedições auxiliares fixaram em Siam muitos portugueses, que se casaram com siamesas e tiveram descendência»
Falando da decadência do nosso comércio, escreve Marques Pereira: «Desde há anos que não existe comércio algum entre Siam e Portugal nem entre Siam e as possessões portuguesas. Veio apenas de Lisboa, em 1871 1 872, a galera portuguesa Viajante. Trouxe vinhos, aguardente, azeite, conservas e calçado e levou para Lisboa arroz, açúcar, teca, pimenta, peles, etc.
Um súbdito português residente em Siam, o sr. José Maria Fidélis da Costa, comprou em 1876 a barca Cap-sing-mun, que mais tarde chamou Ana Rosa. Empregou-a em fretes, com vantagem, para Singapura e Hong Kong, mas teve de a vender, em fins de 1877, por ser velha. Já antes utilizara de modo igual a escuna Lusitânia, que ele mesmo fizera construir nesta cidade e vendera em 1870».
Sobre os macaenses no Sião, Marques Pereira descreve-os:«Sóbrios e pacíficos, mas incompletamente educados e assim pouco enérgicos


e perseverantes, não sobem geralmente das tentativas de um comércio modestíssimo, ou da posição de empregados secundários das casas comerciais estrangeiras, e ainda aí, não só as alemãs em começo de carreira, mas a raça activa e esperta dos chamados babás ou chinas dos Estreitos, lhe fazem de dia para dia competência mais grave. A navegação mercante de vela com bandeira siamesa, que facilitava aos portugueses a profissão de capitães e pilotos, decresceu com o aumento de vapores à quinta parte do que era em número de vaos não há muitos anos, baixado também os salários e o ensejo de obtê-los, por crescer a oferta de marítimos suecos, dinamarqueses, alemães e outros.
É certo, porém, que a vida em Siam é fácil, ou pelo menos barata. Os portugueses que para aqui emigram, não só de Macau, mas de outras procedências, fixam-se em geral no país, e não raro criam plantações e outras propriedades. Ligam-se frequentemente com a população indígena por casamentos, etc., mas conservam, sem modificações importantes, os usos, a língua e a religião pátria. Vivem, quási todos em Bangkok, e são unidos no amor da sua nacionalidade.
A opinião geral acerca desta pequena colónia é não ser rica, nem muito instruída e empreendora, mas ser honesta» (1)
Jacinto de Moura desfaz-se em elogios a Marques Pereira:«Desde essa data (2-10-1873) retomou o cargo, como encarregado, o secretário Joaquim Vicente de Almeida, até que, em 15 de Janeiro de 1875, tomou posse, como cônsul, António Feliciano Marques Pereira, pessoa de alto valor moral e mental e trabalhador infatigável, cujo nome está ligado estreitamente a Macau, pelo seus relevantes serviços ali prestados, entre os quais avultam, os seus importantes trabalhos de investigação histórica.
A ele se ficou devendo a conclusão do consulado por meio de um empréstimo que realizou»
Adiante se irá analisar o que o Cônsul Loureiro diz sobre Marques Pereira que o teria conhecido bem.
(1) Boletim Oficial de Macau, Vol.XXVII, n.º31,30-VII-1881 (2) Jacinto de Moura, I.c.,93.
José Martins
Fim da parte 17.ª
CONTINUA
P.S. Aparte das opiniões do autor, este, vai consultando, cópias, dos seus arquivos pessoais e como guião ( sem este não seria possível levar em frente este trabalho) a obra do Monsenhor Manuel Teixeira: "Portugal na Tailândia - Imprensa Nacional de Macau - Maio 1983.