quinta-feira, 12 de outubro de 2017

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR-16ª PARTE


Consulado de Eduardo Pereira LeiteConsuladoPereira Leite
Ofício de 19.11.1872 - António Sérgio de Souza, envia para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, um requerimento de Eduardo Pereira Leite, onde este pede para ser nomeado cônsul de Portugal no reino de Sião, e a informar sobre este assunto.
Eduardo Pereira Leite era filho do General de Brigada, Jerónimo Pereira Leite e de Firmino Seva Leite. Jerónimo Pereira Leite, quando tenente, era Ajudante de Ordem do Governador João Maria Ferreira do Amaral e estava com ele no trágico dia 22 de Agosto de 1849, quando este foi assassinado.
Às 6 horas da tarde, desse dia, a meio do caminho do Istmo da Porta do Cerco, Ferreira do Amaral foi acometido por 7 chineses disfarçados de mendigos, os quais derrubando-o do cavalo, lhe deceparam a cabeça e a sua única mão, que levaram, deixando o seu corpo coberto de um sem número de feridas e o seu Ajudante de Ordens ferido.
Jerónimo Pereira Leite faleceu em Lisboa em 27 de Janeiro de 1882 e teve de sua mulher Firmina 3 filhos:
1. Júlia Pereira Leite; faleceu a 2 de Agosto de 1870 a bordo do vapor Saída, do comando do 2.º tenente, da Armada, João Maria Freitas Branco.
2. Eduardo Pereira Leite; casou com Sara Luisa Rangel e foi cônsul de Portugal no Siã0.
3. Luís Pereira Leite; casou com Teresa Maria Piter, filha do Dr. Vicente Paulo Piter e de Hermelinda Joaquina Leiria Salatwchi.
Eduardo Pereira Leite pouco se quedou no consulado de Banguecoque.
Nomeado cônsul de 2.ª classe de Portugal no Sião a 21 de Outubro de 1872, exerceu o cargo desde 11 de Maio de 1872 até 2 de Outubro do mesmo ano, em que foi demitido.
Foi um dos mais absurdo cônsul que ocupou esse lugar entre tantos outros que não primaram pela boa conduta.
O Rei do Sião estava absolutamente enojado dele, ao ponto de o recusar receber.
Durante o seu consulado, foram matriculados 400 chineses, uns com passaporte, outros sem ele.´Ora a matrícula rendia; e, portanto, quanto mais chineses fossem registados como protegidos, mais dinheiro enchia os bolsos do cônsul.
O Governo Siamês queixou-se ao Governador de Macau, Januário Correia da Silva, Visconde de S.Januário (1872-1874), que era o Ministro Plenipotenciário às Cortes da China, Japão e Sião; este ordenou-lhe que cancelasse as matrículas dos chineses sem passaporte. Tendo largado as suas funções, foi Joaquim Vicente de Almeida, secretário e encarregado do consulado, que executou essa ordem.
Não deixa de ser curiosa a exclação e a pergunta de Monsenhor Manuel Teixeira, na sua obra "Portugal na Tailândia": Imagine-se que, de 400, ficaram apenas 7 chineses entre os protegidos!
E o dinheiro que os outros haviam pago, quem o levou?
Em 13 de Maio de 1873, um ofício da Secretaria da Junta de Fazenda de Macau para o cônsul de Portugal em Singapura, acerca do pagamento das despesas de passagem e hotel do cõnsul de Portugal no reino do Sião, Eduardo Pereira Leite.
Em 15 de Julho de 1873, um outro ofício da Secretaria da Junta de Fazenda de Macau, dirigido ao cônsul do Sião, Eduardo Pereira Leite, a solicitar o envio dos documentos comprovativos de despesas feitas com passagem e hotel do dito cônsul.
Um mês depois um outro ofício, da Secretaria da Junta de Fazenda de Macau, a comunicar ao Pereira Leite uma determinação da referida Junta para que este envie documentos relativos a despesas feitas e para as quais recebeu da tesouraria da mesma Junta quinhentas patacas e cinquenta avos.
Em 13.08.1873 - Acta da sessão da Junta de Fazenda de 12 de Agosto de 1873 em que, entre outros assuntos, se inteirou de um ofício do secretário-geral do Governo de Macau pelo qual este envia uma cópia de um ofício do cônsul de Portugal no reino do Sião, Eduardo Pereira Leite, e uma conta de despesas deste no valor de quinhentas patacas e cinquenta avos efectuadas.
Em 12 de Julho de de 1873. A Junta decidiu enviar um ofício ao cõnsul a pedir os documentos relativos à dita conta. Segue-se outros ofícios do Sião e de Macau em cima do assunto dos recibos do cônsul Pereira, demitido em Outubro de 1872 e em Junho de 1874, o assunto ainda não está resolvido, em cima das 500 patacas e cinquenta anos que o Pereira Leite deve enviar os comprovativos.
Porém antes em 18 de Dezembro de 1873 o Governador de Macau, Visconde de S.Januário, envia um ofício para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, a comunicar as ilegalidades cometidas pelo cônsul de Portugal no reino do Sião, Eduardo Pereira Leite, ao passar títulos de nacionalidade a Chineses residentes neste reino não oriundos de Macau.
Em 31 de Dezembro de 1873, uma Acta da Junta de Fazenda em que, entre outros assuntos, se apreciou um requerimento de Eduardo Pereira Leite, que se encontra suspenso do cargo de cônsul de Portugal no reino do Sião, em que este pede o pagamento dos seus vencimentos. A referida Junta decidiu não atender ao pedido até que seja concluída a sindicância a ser efectuada aos actos do requerente no exercício das suas funções.
Em 11.03.1874 - Um ofício da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar para o Governador de Macau, a partcipar que, por decreto de 25 de Fevereiro de 1874, foi Eduardo Pereira Leite demitido do cargo de c^nsul de 2.ª classe de Portugal no reino do Sião.
Em 10 Novembro de 1874, na sessão da Junta de Fazenda, entre os vários assuntos tratados, há um requerimento do Pereira Leite, ex-cônsul, em que solicita o pagamento dos seus vencimentos em divida.
A Junta indeferiu o pedido, até estar concluída a sindicância em curso aos actos do requerente aquando do exercício do seu cargo.
O assunto do cônsul Pereira Leite é espécie de uma "sopa da pedra"...
Em 31 de Março de 1875 a Junta de Fazenda de Macau apreciou um requerimento do Pereira Leite onde pede o saldo da sua liquidação na importândia de $421.40. Ficou deliberado fazer nova liquidação devida às contas recentemente remetidas pelo pelo cônsul de Portugal no reino do Sião (Nota nossa: O cônsul é António Feliciano Marques Pereira) .
Ainda há mais uma acta (4.05.1875) da Junta de Fazenda de Macau, agora com um novo cônsul A.F. Marques Pereira:.... "e a apreciar também um requerimento de Eduardo Pereira Leite, ex-cônsul de Portugal no reino de Sião,a pedir uma cópia do que constar na Repartição de Fazenda acerca da sua liquidação".
O Pereira Leite desaparece da cena depois de quase 3 anos de ter sido suspenso do cargo, por ilegalidades.
Até agora não se sabe se teria sido chamado à responsabilidade, depois de regressar a Macau.
Durante o espaço de tempo do "problema" de corrupção do Pereira Leite, não se encontrou qualquer actividade relativa a comércio entre o Sião e Portugal.
Tudo seguia como antes e nos 55 anos já havidos decorridos tudo estava na estaca zero.
De facto a actividade do cônsul Eduardo Pereira Leite foi muita curta a sua gerência do consulado e pouco honrorosa!
Mas não foi ele o primeiro que praticou desonestidades, estas já vinham de trás e, evidentemente, famosas, em que certos cônsules quando eram nomeados para o Sião um dos seus ojectivos era a prática de crimes de "peculato", conseguir obter o mais possível, quer, fosse em dinheiro e bens materiais.
Missão diplomática de Visconde de S. Januário ao Sião
Em 17.2.1873 o Governador de Macau, Visconde de S. Januário, envia um ofício ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, de Portugal, a comunicar que tenciona partir, em missão diplomática, para o Reino do Sião no dia 27 de Fevereiro a bordo da corveta "Duque de Palmela". O pedido de Visconde de S. Januário de ajudas de custo foi aprovado e registado na acta da na sessão da Junta de Fazenda de 17 de Novembro de 1874, assim como o mesmo seria aplicado a Pedro Mesnier e Alberto Morais de Carvalho. Monsenhor Manuel Teixeira escreve sobre a missão:
«O Governador de Macau Januário Correia de Almeida (1872-1874), Visconde e depois Conde de S.Januário, visitou Bangkok em 1874 na sua qualidade de Ministro Plenipotenciário às Cortes da China, Japão e Sião.
Já em Novembro do ano anterior fizera uma visita ao Japão.
A sua ida a Bangkok foi providencial, pois conseguiu acalmar a tempestada que rebentara na corte entre o primeiro e segundo rei, suscitada após a implantação da constituição política desse mesmo ano.
O rei Mongkut faleceu em 1 de Outubro de 1868, sucedendo-lhe Phra Chulalongkorn Klan Chayuha ou rei Chulalongkorn I (Rama V, 1868-1910). Como era de menor idade, foi nomeado Regente Chao Phya Suriyawonse. Quando, 5 anos depois, ele tomou as rédeas do poder (1873), propôs-se modernizar o país.
A administração estabelecida pelo rei Boromtrailokanat (1448-1488), tornara-se confusa com o andar do tempo.
O Samuhakalahom governava o sul do país, o Samubanayok, o norte; o Praklang administrava o tesouro, as finanças, os negócios e o comércio estrangeiros, e governava as cidades nas costas do mar. Para reformar a administração, o rei nomeou, em 8 de Março de 1874, o Conselho de Estado, composto de 12 membros, que eram os conselheiros do rei; em 15 de Agosto do mesmo ano, nomeou o Conselho Privado (Privy Coucil), composto de 49 membros, incluindo 13 príncipes e 36 oficiais superiores.
Mas nem o Conselho de Estado nem o Conselho Privado deram boa conta de si . Isto levou fricções entre o rei e o ex-regenre que o Visconde de S.Januário tentou solucionar com a sua londa experiência política no governo da Índia e de Macau»
O Hino do Visconde de S.Januário
O Dr. José Gomes da Silva , que foi a Bangkok em 1888 como secretário da missão diplomática de Firmino José da Costa, conta:
«À entrada do ministro portuguez com a comitiva no jardim que precede o palácio real, e a cujo portão nos havíamos apeado apezar da chuva que nos alagava as malfadadas fardas, a guarda de honra apresentou armas, enquanto a banda executava o hynno.... do visconde de S.Januário.
Precisa explicação este facto, apparentemente extraordinário. Os governadores de Macau, como todos os governadores das nossas províncias são recebidos, na occasião do seu desembarque e posse, com uma guarda de honra, cuja banda executa uma marcha ou coisa que o valha, composição mais ou menos original do mestre da música e dedicada ao recém-chegado, sob o título de hynno de s. ex-ª o governador; e força é confessar que, se os governadores quasi sempre differem, os hynnos muitas vezes se parecem.
O visconde de S. Januário, como os seus predecessores e sucessores no governo de Macau, teve também um hynno seu.
Quando s. ex.ª foi na sua qualidade de ministro, visitar a capital de Siam e a apresentar as suas credenciais a S. M. Magnifica, teve a agradável surpreza de ouvir a banda da guarda real tocar o hynno do governador de Macau. Os governadores e ministros mudaram depois; o hynno ficou sempre o mesmo. Devo confessar que, pouco forte em hynnologia, suppuz a principio que este fosse o hynno siamês, que eu não ouvira ainda.
Tirou-me, porém, as dúvidas o nobre inspector das alfândegas do arroz, que entrara connosco e que me segredou ao ouvido, como explicação, realmente indispensável. - Este é o hynno portuguez.
É difícil imaginar a minha surpreza, o meu espanto. A tanto não chega a minha ignorância; os hynnos portugueses, ao menos, conheço-os bem. Livrou-me do protesto o intérprete que nos acompanhava e que a seu turno explicou: - Desde que aqui esteve o visconde de S.Januário, este hynno ficou considerado como o hynno nacional portuguez. Compreendi então.
O que me parecera um mysterio, era um simples qui-pro-quo.
É inutil acrescentar que hoje o mestre da banda de marinheiros tem já em poder uma cópia do hynno da Carta.
Veremos se para o futuro continua continua a confusão, injustificável agora» (Gomes da Silva, Viagem a Siam, Macau, 1889), pg.32-33.
José Martins
Fim da Parte 16.
CONTINUA