terça-feira, 10 de outubro de 2017

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR - 6ª PARTE


Silveira novamente nomeado cônsul
Vamos continuar a ter como guião, na narração do texto dos factos, os escritos de Capitão de Artilharia Jacinto do Nascimento Moura. Foi de estranhar que Carlos Manuel da Silveira pretendesse voltar novamente ao Sião. Pensamos e não deveremos estar equivocados que o teria feito para dignificar a sua imagem que tão arruinada ficou em Banguecoque, onde passou muito mal e vergonhas de estar por ali abandonado, juntamente com o pessoal que tinha chegado de Goa. Deveria, depois de saído de Banguecoque, ter colocado as coisas em "pratos limpos" perante o vice-rei da Ìndia. 
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O diploma da sua nomeação reza: " Faço saber a vossa majestade que Carlos Manuel da Silveira, que, no ano de 1820, foi mandado a essa corte, regressou proximamente a esta capital Goa, e, tanto por êle, como pelo Leal Senado da cidade de Nome de Deus de Macau, fui sabedor de que vossa majestade acolhera benigna mente ao comissário Miguel de Araújo Rosa que fõra mandado a essa côrte pelo Leal Senado, para congratular a vossa majestade pela sua feliz exaltação ao trono so Sião, para acabar quaisquer contas do conselheiro Miguel de Arriaga Brum Silveira, do dito cônsul e do seu escrivão Cipriano José Baptista, e para continuar a mesma amizade entre as duas nações, portuguesa e siâmica. E como estou informado dos seus reais desejos de que se renovem as antigas relações de amizade e comércio entre ambas as nações e sabendo por outra parte que a pessoa do dito Carlos Manuel da Silveira é grata a vossa majestade, tomo a deliberação de o enviar outra vez aos reais pés de vossa majestade com o mesmo carácter de cônsul e feitor que já teve nessa corte. Permita-me vossa majestade lembrar-lhe que o magnífico rei do Sião seu predecessor foi servido declarar que todos os vassalos portugueses, que fôssem negociar nesse reino seriam melhor tratados, que os das outras nações. 
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Conviria muito quando fosse da soberana vontade de vossa majestade se concluísse o tratado preliminar que aí foi apresentado a vossa majestade em 1820. O mesmo Silveira porá aos pés de vossa majestade um pequeno presente de alguns artigos que tomo a liberdade de lhe oferecer". A Silveira foram-lhe entregues instruções reservadas que se passam a transcrever resumidas:
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"Para se levarem a seu devido efeito e cumprimento as reais ordens de el-rei nosso senhor de 30 de Abril de 1829, foi determinado ao Leal Senado de Macau, e a êste governo que se conservasse, e se não abandonasse a Feitoria do reino do Sião, pelo que nomeei a V.Exa., por portaria de 14 do corrente, geral e feitor da nação portuguesa. 
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Recomenda-se por isso que se não deverá envolver em assuntos políticos naquele reino, devendo considerar a sua comissão restrita unicamente a promover as relações de comércio e navegação que nos forem possíveis na Ásia, pois a que por ora mais nos importa e não perder os pontos que possuímos e que hoje conservados podem segurar para futuro, talvez não muito distante, um amplo à nossa actividade e indústria, e sobretudo aos nossos sucessos livres oscilações que nos têm perturbado, sendo certo que uma das causas da nossa decadência na Ásia vem da incúria e culpável abandono em que temos deixado os nossos gloriosos frutos do esfôrço, e espírito empreendedor dos nossos Maiores.  
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Solicitava toda as vantagens e aproveitará da inclinação que o presente rei mostra aos portugueses, favorável impressão que há-de ter deixado no seu ânimo e pagamento que êste governo lhe mandou fazer das cinco mil e tantas patacas que há anos lhe ficara devendo o defunto conselheiro Miguel Arriaga pagamento com que parece ele já não contava.  
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Tornará seguros e estáveis os direitos das pessoas, propriedades e neutralidade dos vassalos portugueses que fossem comerciar e navegar ao Sião. Aproveitará a indicação que o príncipe Cromachel manda a participar de que os portugueses pagariam somente 6% de direitos de importação ao contrário do que pagavam as mais nações. Que os soldados e inferior que deve ser pagos pela Real Caixa daquela cidade recebendo ali um ano de adiantamento". 
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Ao Leal Senado escreveu o vice-rei da Índia para que adiantasse ao cônsul e ao seu escrivão mil taeis, pagamento dos seus respectivos ordenados e das despesas da Feitoria e soldo do inferior e soldados que o cônsul devia levar de Macau para o que também na mesma ocasião dava ordem ao governador de Macau e Leal Senado para que cada um pela sua parte lhe proporcionasse, ao cônsul, escrivão e guarda, os meios de se transportarem para Bangkok permitindo ainda que o mesmo Leal Senado lhes pudesse aumentar os ordenados se assim o julgasse conveniente. Carlos Manuel da Silveira foi a Macau. Ali talvez de propósito demoraram-no e contrariaram-no por várias formas especialmente não lhe aumentando os vencimentos, como havido sido indicado anteriormente nas citadas instruções do govêrno de Goa. 
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Por fim o Leal Senado adiantou o pagamento de um ano, tanto para o cônsul como a sua comitiva na importância de 1.400 taeis, e deu-lhe em adiantamento umas instruções referentes aos interesses de Macau. Carlos Manuel da Silveira seguiu, por fim, no brigue Feliz com a sua comitiva e guarda, sendo-lhe entregue a gerência da Feitoria, pelo cônsul interino, Marcelino de Araújo Rosa, em 19 de Abril de 1831.
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Carlos Manuel da Silveira é mal recebido no Sião e substituído por Marcelino Rosa. Não existe barco português que lance a âncora no porto de Banguecoque e isto não agrada ao governo Siamês. O Praklang (primeiro-ministro) a pessoa ligada ao Rei considera que é inútel levar-se a efeito o tratado preliminar e "que o rei poderia considerá-lo como brincadeira". 
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Silveira, de certo modo ofendido apresentou, ao Praklang, as razões da falta de navegação e que a ele, de forma alguma, se lhe poderia atribuir a culpabilização. O Praklang respondeu a Silveira e informa-o que o rei já havia escrito uma carta ao vice-rei da Índia, dizendo que não consentia tal cônsul no seu país mais que um ano (1). 
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Houve uma natural indignação do cônsul português Silveira e levou-o a pedir ao Praklang uma justificação pública de tal procedimento indicando-se " o distúrbio ou mal que havia causado aquele reino ou a seguir uma pessoa". 
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Comunicado o facto ao Leal Senado de Macau, pediu a Silveira que quando escrevesse ao rei do Sião se lhe "não solicitasse desculpas para o cônsul ou relevasse alguma falta, mas que o Senado exigisse uma miúda declaração das suas faltas, para que êle respondesse por elas". Isto parece provar que o cônsul não receava que lhe imputassem faltas.  
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Vejamos, porém, quais os motivos que provavelmente originaram tal má-vontade para com Carlos Manuel da Silveira. No modo de ver deste, pretendia-se que êle fosse substituído por um outro cônsul, "facto de todos os conhecimentos e que não soubesse fazer a sua obrigação, para o Sião judiar dele", e ainda atribuia tal atitude aos presentes que havia levado, "que não eram próprios do decoro do rei daquele país". 
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Nas costas do cônsul Silveira a intriga e as manobras do inglês Robert Hunter estava a produzir efeito, isto porque tornara-se um comerciante famoso no Sudeste Asiático, onde todos os barcos de países ou ainda colónias de expressão de língua inglesa tinha por obrigatoridade de contactar o Hunter. 
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Homem de poucos escrúpulos e ambicioso em tudo que fossem negócios e daí lhe viesse dinheiro, assim tinha acontecido quando na província de Samut Songkran encontrou, dois irmãos siameses, a nadar num rio e desde logo ali lhe veio à mente uma forma de fazer lucros, negociando-os, para que fossem mostrados ao público da Europa e América. O Hunter estava, demasiadaente introduzido na corte com uma influência mais vantajosa que de qualquer outro representante português no Sião. 
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Ali imperavam os negócios e o Hunter realizava-os e o Sião pretendia exportar o muito que produzia. Com isto o inglês/escocês, com outros seus compatriotas promoveram a desconfiança para com o cônsul Silveira e o amesquinhamento dos portugueses, indo oferecer ao rei e ao ministro, no mesmo dia que Silveira, lindos presentes que valiam 4.000 taeis, "de modo a deixarem quási imperceptíveis os nossos". 
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Segundo o Capitão Jacinto Moura: "Esboçava-se então o predomínio inglês no Extermo-Oriente. As tentativas do marquês de Wellesley e a do almirante Drury de tomar Macau, sob o habilidoso pretexto de defenderem aquela nossa colónia de um ataque dos franceses, haviam falhado. 
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Cantão oferecia um constante perigo, além de ameaçar a saúde dos europeus que ali habitava, forçando-os a deixar as suas famílias em Macau. Originaram-se então, ali, neste primeiro quartel do século passado, atritos e más vontades entre os ingleses e portugueses, os quais nem pelo facto da secular aliança política entre Portugal e a Inglaterra, se conseguiu dissipar. Macau ainda representava um valor económico importante no comércio asiático (2) que só se perdeu alguns anos após a fundação de Hong Kong. 
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A Inglaterra disputava-nos a influência comercial nos portos onde o nosso nome ainda tinha algum prestígio e valia. Numa pertinácia própria dos anglo.saxónicos, numa força de vontade que lhes é própria, aliadas estas qualidades a uma previsão que nós não possuímos, os ingleses foram nos arrebatando, muito ociosamente, por toda a parte, o prestígio e o lucro do negócio. 
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O Sião era um país que, ao passo que possuía riquezas grandes, não oferecia grande segurança ao comércio estrangeiro e defendia-se dos que pudessem absorvê-lo politicamente, conseguindo assim viver até nossos dias sem ser tutelado ou parcelado por potência alguma europeia, bem se podendo disso orgulhar e constituir, com Japão os únicos exemplo de países completamente independentes no Extremo-Oriente. 
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Só Portugal tinha um território seu consulado o que era objecto de invejas e servia de incitamento a pressões sôbre o govêrno siamês, às quais êle ia resistindo, as que mais fácilmente seriam contidas com a supressão da feitoria concedida a Portugal.
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Dêste modo se advinha, claramente, a vontade do Praklang em promover uma ofensa a Portugal, na pessoa do cônsul, que por infelicidade nossa não tinha uma renumeração condigna nem tão pouco o prestígio para poder influir junto dos portugueses, que nesse tempo dirigiam a actividade política e comercial do abandonado Oriente, mal se podendo manter ali com a dignidade para o seu cargo e lucro para o seu país. 
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Fossem, porém, quais fossem os motivos o certo é que Silveira, que havia retomado o seu cargo em 19 de Abril de 1831, foi forçado a abandoná-lo em 1 de Abril de 1833, sendo substituido por Marcelino de Araújo Rosa, que se achava como escrivão e que a seu pedido tomou posse do cargo de cônsul em 18 de aio de 1833. 
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Não tinha, porém, decorrido um ano para que êste último sentisse a falta de continuidade de pensamento político dos que investiram em tal cargo, vendo-se forçado a informar o Leal Senado de que se encontrava "exausto do necessário e até de alguns trastes e moedas de ouro que tinha para sua sustentação e a dos soldados, por falta de vencimentos que lhes não haviam sido enviados", e a recordar "que estava servindo em lugar remoto e num país onde não há remessas e a pobreza é odiosa, o que não podia deixar de ser de tristes consequências para o cônsul e ais empregados do estabelecimento"
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(1) ÊSte facto tem sido comentado por alguns escritores estrangeiros com desfavor para Portugal, razão essa porque entendeu-se dever apreciá-lo com certo desenvolviento. Em carta para o Leal Senado, descrevia o vergonhoso estado dos objectos enviados, de presente, os quais estiveram para ser devolvidos. (2) Anos depois, e 1866, ainda o pôrto de Macau foi frequentado por 238 navios com uma tonelagem de 58.543, não incluindo os da carreira entre Macau e hong Kong.
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Inquéritos em Macau a Arriaga e a Silveira.Como vimos, o Leal Senado de Macau não cumpria com o encargo de sustentar a Feitoria. Goa, que por vezes a amparava atribuia a Macau essa principal função. 
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A Metrópole esquecida ou entretida com os problemas internos e com os caprichos da sua aristocrática côrte, deixava perder-se na memória dos tempos, já longínquos, o renome e poderio que outrora no Sião disfrutaram os portugueses. Albuquerque e Miguel de Arriaga já se haviam sumido no estreito coval onde com êle se afundaram os seus sonhos de patriotas e visionários. De resto a ideia da Feitoria fizera aparecer muitos "Restelos" em Macau os quais não só não lhes compreendiam a existência como atacava o seu criador. Daí resultou o negar-se ao cônsul o pagamento dos seus honorários, e por modos se procurar destrui-la. Por carta de Arriaga para Silveira se pode ser como tinha sido compreendida tal iniciativa. em tal carta censurava Arriaga os "míseres rivais", que todo criticam, dizendo: "Abrir o comércio, estabelecer Feitoria, alcançar terreno próprio para casas, permissão de construir navios e algum favor aos direitos, que mais pode querer-se?" "A seu tempo verão os incrédulos..."  
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E a seguir: " As perturbações pela expedição a Timor e Sião era dirigidas mesmo de Malaca por Fr. Paulo que as iniciara em Macau". E lamentando-se por não poder dar a Silveira a "devida recompensa e apresentar-lhe o seu apreço", terminava exortando a "cuidar sobretudo em anter o decóro nacional, dê por onde der..." e dizendo: "continui com o mesmo zêlo que é a Sua Majestade que servimos". 
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Tendo silveira requerido em Macau o pagamento dos seus vencimentos, não efectuados durante a sua estada da última vez no Sião, foram mandados realizar inquéritos, que terminavam por reconhecer que o "desvio do retorno" enegrecia a memória do conselheiro Arriaga e de algum modo também a do cônsul como instrumento. É longa e emaranhada a questão da responsabilidade de Silveira pela quantia de 3.000 taeis em que o Leal Senado ficou prejudicado. 
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A verdade é que Arriaga morreu pobre, concedendo o govêrno uma pensão à família, e que Silveira chegou à mais desesperada situação e ao último apuro por falta de meios de subsistência, achando-se em Macau a morrer de fome, como declarava, depois de ter envelhecido prestando honrada e zelosamente serviço ao governo durante 15 anos, e não só não tendo sido remunerado como abandonado indignamente aos desvarios da sorte.
José Martins
Fim da 6ª parte
CONTINUA