segunda-feira, 28 de agosto de 2017

MEMÓRIAS MINHAS: "A SOPA FRIA"



Conheci senhor Américo Amorim em Banguecoque. Um excelente conversador, gostava de falar comigo e contou-me parte de sua vida e quando seguia de comboio para França, com uma saca de rolhas, como amostra, para as vender.

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Mas afinal quem fui eu para que um homem poderoso e o mais rico de Portugal conversar comigo se eu não passava, pouco mais, de um “faz-tudo”, pau para toda a obra na embaixada de Portugal na capital da Tailândia para onde entrei, como eventual, em 1984.
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Senhor América Amorim bem sabia que eu era amigo do Fernando Oliveira, um seu colaborador formado por ele desde a idade de 17 anos. Fernando Oliveira era o representante da Grupo Amorim e sediado, para os negócios na Ásia e Oriente, na Embaixada de Portugal em Banguecoque onde se quedou por cerca de uma dúzia de anos.
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Mas vamos a uma pictoresca história passada entre mim e senhor Américo Amorim. Em Agosto do ano de 1997, engenheiro Diogo Tavares Mendonça, vice-presidente do ICEP Portugal, informou-me o dia em que chegava ao aeroporto internacional de Banguecoque cujo destino seria passar férias na estância balneária do Pukhet (sul da Tailândia e na costa do Mar de Andaman). 
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Um sábado, pelo fim da tarde, estava eu com o livre trânsito da embaixada à espera num dos vários túneis de saída dos passageiros do moderno aeroporto.
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Junto ao Eng. Diogo Mendonça Tavares, a esposa a Dra. Leonor Beleza, seu filho Miguel, um seu irmão, com mulher e filho, Senhor Américo Amorim e esposa Fernanda.
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Porém levava um recado do Embaixador Mesquita de Brito para o Eng. Diogo Mendonça Tavares e este seria para almoçar ou jantar, na residência, com os embaixadores de Portugal, cujo o convite ficaria à escolha, antes da partida para o Pukhet ou no seu regresso a Banguecoque.
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Antes da partida não poderia ser, porque o grupo, pouco tempo depois da chegada ao aeroporto partiria para o local, escolhido de férias.
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Assim logo que tive a oportunidade, depois da bagagem levantada, transmiti o recado do meu embaixador ao vice-presidente do ICEP. Como resposta: “oh Martins, ´porra´ eu venho para a Tailândia para passar férias e não para almoçar ou jantar com o embaixador!
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Ora eu estava numa situação difícil.... fiquei por alí, não falando mais no assunto do convite, fui ajudando a transportar a bagagem gare internacional para a doméstica que separados por um túnel de cerca de mil metros.
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Mas à partida Eng. Diogo Tavares chamou-me de lado e diz-me: “diga ao senhor embaixador que vamos jantar no primeiro dia do regresso do Puket.”
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Fui um dos convidados para o jantar, embora tenha pedido ao embaixador Mesquita de Brito que me dispensá-se. Não senhor tem que vir, como representante do ICEP! Chegou a noite do jantar e à mesa do embaixador Mesquita de Brito sentaram-se 11 pessoas.
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Servida a sopa fria e todos sentados na mesa, tugiu ou mugiu ao comê-la, inclusivamente embaixador Mesquita de Brito ou embaixatriz Babet. Chegaram, depois mais dois pratos de peixe e carne, a sobremesa, o café e o conhaque.
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Por cerca das 10 da noite, depois dos agradecimentos e cumprimentos de despedida os convidados regressaram ao Hotel Royal Orchid (pegado à embaixada) e eu a minha casa.
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Ao outro dia, pela tarde, o senhor Américo Amorim, mais a esposa regressavam a Portugal num vôo da TAP, enquando eng. Diogo Tavares, esposa Dra. Leonor Beleza dariam uma saltada a Macau. Desejei fazer uma partida ao senhor Américo Amorim e parti, só para o aeroporto, para o ajudar no embarque e claro despedir-me dele e da esposa.
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Aguardei, sua chegada num carro do hotel à porta da sala de embarque. Não tardou a chegar e diz: “pensei que o senhor Martins não se despedia de nós”. Depois de arrumar a bagagem e o O.kay nos bilhetes, dentro do aeroporto, conversamos os dois durante mais de uma hora. Contou-me o princípio de sua vida e outras histórias.
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Senhor Américo Amorim era um excelente dialogador e conversava por prazer. Mas durante a conversa diz-me: “bem o jantar, ontem à noite oferecido pelo embaixador não estava mau, só que em minha vida nunca comi sopa fria...”
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Não retorqui e continuamos a conversa, sobre outros assuntos e a hora de embarque anunciada pelo autifalantes, levei o casal à porta do avião e depedi-me.
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Regressei à embaixada, fui ao gabinete do embaixador Mesquita de Brito a informá-lo que senhor Américo Amorim partiu. Diz-me então: o que ele disse sobre o jantar? Repondi-lhe: "o senhor Américo disse-me que o jantar não estava mau, só que em sua vida nunca comeu sopa fria!"  Resposta do embaixador Mesquita de Brito: FOI O ESTÚPIDO DO COZINHEIRO!!!.
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O cozinheiro era francês e até muito bom...só que alguém o traiu que  levou a terrina da sopa da cozinha no rés-do-chão para o primeiro andar onde estava a sala de jantar.
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Em 23 de Dezembro de 1999, senhor Américo Amorim foi um dos convidados do PR Jorge Sampaio para a entrega oficial de Macau à China. No regresso a Portugal Jorge Sampaio e toda a sua comitiva passou por Banguecoque e o embaixador Tadeu Soares, em sua honra, ofereceu uma recepção a Jorge Sampaio e fui então encontrar, outra vez, o senhor Américo e contei-lhe o caso da sopa fria e a resposta do embaixador Mesquita de Brito.
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Senhor Américo Amorim dá-me a novidade: “sabe eu comprei a quinta e os vinhos do Porto Burmester, no Douro e queria que o meu amigo os lança-se na Tailândia." Claro senhor Américo vou fazer por isso. Mês de Janeiro fiz uma encomenda de 1.000 garrafas para ser vendidos no bazar da Cruz Vermelha levado a efeito pelas esposas dos diplomatas acreditados na Tailândia Um Vinho do Porto de grande qualidade que viria a deliciar aqueles que o compraram no bazar de caridade.
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Para terminar: no mesmo ano o Ministro das Finanças Sousa Franco veio a Banguecoque para uma reunião ministerial a ter lugar no Hotel Oriental. Embaixador Mesquita de Brito estava de férias em Portugal, a número dois Encarregada de Negócios a.i., Maria Isabel Craveiro Lopes, recebeu a recomendação que se desse toda a assistência a Ministro Sousa Franco e sua comitiva e se lhe oferecesse um almoço no Hotel Sukhotai. Ministro Sousa Franco, uma pessoal especial do qual gostei muito durante 3 dias que esteve em Banguecoque.
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No almoço, onde estavamos 8 pessoas sentadas, contei a história da sopa fria. Ao fim de contar a história, Ministro Sousa Franco riu,riu até as lágrimas lhe correr pela face!
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Ministro Sousa Franco e o senhor Américo Amorim já não pertencem ao número de vivos deste mundo!
José Martins