terça-feira, 22 de agosto de 2017

MEMÓRIAS MINHAS: "MISS PORTUGAL EM BANGUECOQUE

Durante vários anos (ainda hoje) estive activo na informação e, principalmente como é óbvio no que se refere à presença e visita na capital tailandesa de pessoas do mundo lusófono. Falei e entrevistei várias personalidades para a “Tribuna de Macau” e “correspondente”, por 12 anos, da Agência Lusa Ásia Pacífico, sediada em Macau.
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Fui elo de ligação de vários jornalistas portugueses , da RTP, de revistas e jornais. Faço jornalismo de reportagem por amor e nunca por dinheiro. O montante dos meus honorários sempre os tenho deixado ao critério daqueles que tenho servido.
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No fim do mês de Abril de 1992 chegaram as mais belas do mundo, a Banguecoque, para a realização do concurso da “Miss Universo 1992” que iria ter lugar no espectacular “Queen Sirikit’s Convention Center”. Portugal esteve representado com a Fernanda Silva, de 18 anos, que havia sido eleita “Miss Portugal 91”, no Casino Estoril.
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Tive conhecimento da concorrente portuguesa, no evento, através dos jornais diários “The Nation” e “Bangkok Post”. Oficialmente nada tinha sido comunicado à Missão Diplomática Portuguesa. Tão-pouco a Fernanda tinha alguém com ela, por exemplo, um “public relations”.
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Não sosseguei (até porque era notícia, rara, uma miss lusa no “País dos Sorrisos” enquanto não tivesse a oportunidade de falar com a mais bela de Portugal em 1991. As concorrentes ficaram hospedadas no “Dusit Thani Hotel” no centro de Banguecoque. 
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Mas conseguir chegar à concorrente portuguesa?A recepção do hotel não me fornecia o número do seu quarto e as informações que ia recolhendo era muito parcas. Apenas as transmitidas pelos canais de televisão e jornais.
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As “misses” foram bem “agasalhadinhas” para que não fosse por aí, alguma, perder-se de amores por algum “Leonardo di Cáprio” de ocasião  e pôr-se na “alheta” com ele. Com isto o evento desfalcado de concorrentes e o programa, em parte, estragado.
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Na altura que as misses dirigiam-se para o autocarro e o passeio quotidiano para “spots” publicitários, furei a segurança e a uma miss, qualquer, perguntei quem era a miss Portugal. Esta expressou-se em língua espanhola e indicando-me a beleza lusitânia.
A miss, a quem perguntei, sem  o saber era a Natasha Gabriel-Arana, e a mais “hermosita” da Bolívia em 1991. Mais tarde, venho ter conhecimento ser a companheira da Fernanda Silva ocupando, as duas, o mesmo quarto do hotel.
Esquerda para a direita: Ermelinda Galamba de Oliveira, Adida Cultural da Embaixada de Portugal, Fernanda Silva, Miss Portugal,Ana Maria Tavares, número dois do Hotel Hyatt  e miss Bolívia
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O número do quarto, o almejado por mim, não o consegui naquela manhã, e muito menos o ter tido a oportunidade de ter falado, na ocasião (quando  a miss Bolívia me indicou) com a  “linda” de Portugal. Alas! A lâmpada do Aladino acendeu-se!
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Lembrei-me que tinha uma amiga, tailandesa, a Arporn que era a “sales manager” para o “Dusit Thani” na praia de Cha-am”, a 200 quilómetros da capital tailandesa e graças a ela consegui saber que a Fernanda Silva ocupava o quarto número 653.
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No dia 30 de Abril mandei à Fernanda um fax para o hotel com o número do quarto 653, transmitindo-lhe as minhas felicitações; coordenadas dos meus contactos e a intenção de publicitar a sua passagem e integração no concurso para a eleição da “Miss Universo92” em Banguecoque.
Junto ao hotel  Hyatt Erawan. Minha filha Maria Martins junto, na altura com 6 anos.
À noite telefonou para minha casa e ficou combinado que todos os dias me daria as informações das actividades das misses e, estas, seriam em conformidade com as que pretendia  enviar para a “Tribuna de Macau”.

TÉCNICOS PORTUGUESES EM BANGUECOQUE E A MISS  PORTUGAL

Havia já dois anos que um grupo de portugueses, ao serviço da empresa francesa “Bouygues” dirigiam a construção de um complexo industria e habitacional para cerca de 700 mil pessoas. 

Torres construídas pela direcção de técnicos portugueses - Muangthon Thani, nos arredores de Banguecoque. 
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Em 29 de Fevereiro, do mesmo ano, era publicado na “Tribuna de Macau” uma  correspondência de minha autoria:
“Técnicos portugueses dirigem construção de um complexo industrial e habitacional, não muito distante do Aeroporto Internacional de Don Muang, em Banguecoque, que no futuro, será o local de trabalho e residência de 700 mil pessoas.
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Estes emigrantes, já não são aqueles, que o Almada Negreiros, com a sua sensibilidade, retratou no fresco da Gare Marítima de Alcântara, ou os de que fala Ferreira de Castro na sua obra “Emigrantes”, mas gente bem instalada na vida, conseguindo a especialização através da persistência, e da prática, que lhes permite serem os “braços direito” de engenheiros-directores de grandes projectos.
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São profissionais altamente qualificados, ao serviço da multinacional francesa “Bouygues”, com empreendimentos nos cinco continentes. Pessoas simples – a sua instrução não foi mais que uma modesta quarta classe de instrução primária – mas especializados em termos técnicos por anos e anos de “saber de experiência feito”.
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São naturais do Minho, Trás-os-Montes, Litoral e Beiras, com tradições e raízes bem vincadas, apesar de terem saído de Portugal, há mais de uma vintena de anos, numa altura em que, como todos sabem, Portugal atravessava fase de grandes dificuldades .
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Alguns passaram legalmente, outros “a salto”, mas as dezenas de anos em França não os afrancesaram – continuam a ser “prata da casa” genuinamente portuguesa.Hoje estão na Tailândia.
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Não vieram para construir casas “sino-portuguesas” no antigo reino do Sião, como as construiram os portugueses do século XVIII, que as poucas que vão resistindo a destruição, para dar lugar a outras, continuam a ser uma obra prima da arquitectura lusa, mas um complexo industrial gigante.
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O correspondente da “Tribuna de Macau” almoçou no domingo, com estes emigrantes de Portugal na Tailândia, em franca e animada camaradagem. No almoço não faltou o cozido com todos, que se mostrava bastante genuíno, apesar da cozinheira e esposa de um dos emigrantes se queixar de não ter conseguido a couve galega. 
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Na ementa constava ainda: perna de cabrito assado, caldo verde, e queijo da serra, como sobremesa. Tudo bem regado com vinho verde a maduro de boa qualidade. Desconheciam a história da presença portuguesa na Tailândia, e o facto de terem sido os portugueses os primeiros europeus a fixarem-se em Ayuthaya a partir de 1511. E logo ali se combinou uma visita às ruínas das igrejas do ainda hoje denominado “campo português”, uma viagem que nunca deixou de me orgulhar.”
José Martins
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Uns dias antes tinha comunicado ao Embaixador Castello-Branco (trabalhei directamente com o diplomata 7 anos consecutivos na Embaixada de Portugal em Banguecoque) que na cidade havia 14 portugueses a dirigir as obras do futuro parque industrial do área de Don Muang empreitada adjudicada a uma empresa francesa. 
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Traga-me cá esta gente para que os cumprimentar e lhes ofereça uma merenda na Residência (Nobre Casa), foi a sua resposta.
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Visitei o grupo e comuniquei-lhe se estariam livres para vir cumprimentar o Senhor Embaixador no próximo domingo, à Embaixada e, ao mesmo tempo a informação que estava em Banguecoque a Miss Portugal e, que dado a eleição ser no próximo sábado, a jovem portuguesa já me tinha prometido que esse dia estaria à disposição de se encontrar com os portugueses, na sua prometida, visita à Missão Diplomática Portuguesa..
As misses Portugal e Bolívia, embaixador Castello-Branco, técnicos portugueses e suas famílias.
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Todo o grupo fica eurófico ( os portugueses fora do país são assim mesmo) e desejam ver de perto a nossa miss e conversarem com ela. Comuniquei à Fernanda o recado dos nossos emigrantes desejarem confratenizar com ela durante a sua permanência na Embaixada para cumprimentar o Senhor Embaixador.
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A alegria da Fernanda foi espontânea, brilharam-lhe os olhos e fica decidido que depois de almoçarmos no Hyatt Hotel, um convite da Ana Maria Tavares, portuguesa e a número dois na gerência do luxuouso hotel, seguiríamos para a Embaixada.Tudo absolutamente programado... 
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Porém mal eu sabia o “raspanete” que dois dias depois iria ouvir do meu embaixador Castello-Branco. Bem, é que eu queria-lhe fazer uma surpresa e, apenas lhe transmitir na sexta feira, que a miss Portugal se ía juntar aos portugueses na Embaixada e, isto seria, quando deixasse as minha funções na Embaixada para o descanso semanal.
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Acontece que o embaixador do México ofereceu uma recepção no “Dusit Thani Hotel” à mais bela do seu país e convidou os embaixadores acreditados no Reino da Tailândia. De facto o Representante de Portugal não sabia que em Banguecoque estava a miss Portugal. Penitencio-me pela minha falta de  não lho  ter transmitido....
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Durante a recepção, pelo embaixador do México o meu embaixador teve conhecimento que ali estava a miss Portugal. Surpreso pediu, ao seu colega, para lhe ser apresentada a Fernanda Silva. Depois de a ter cumprimentado ela inocentemente diz-lhe: “ Senhor Embaixador eu estou convidada para no próximo domingo visitar a Embaixada!
Ai está? Quem a convidou? Foi o José Martins.
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Na manhã do dia seguinte, como habitualmente, recolhi o expediente, do dia anterior e coloquei-o, impecávelmente, em cima da sua mesa de trabalho. Junto às 9 horas da manhã recebi um telefonema, do embaixador Castello-Branco, do seu gabinete, a chamar-me. Pela voz grave e sem a habitual, saudação matinal, a que estava habituado com um bom dia, agradável, apenas o: “venha aqui!”
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Durante os escassos metros que me separava o meu local de funções e o seu gabinete perguntava a mim próprio: “ o que será, o que será...alguma engano meu dentro das minhas funções....”
A porta do seu gabinete de trabalho estava aberta e mal tive tempo de lhe dar os bons dias....
Com um olhar grave para mim: “ oxalá você não pode convidar ninguém para a Embaixada ouviu?” “ Você convidou a miss Portugal para visitar a Embaixada!
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Lá consegui, depois daquela turbulência de palavras dirigidas a mim, explicar-lhe que apenas lhe desejaria fazer-lhe uma surpresa e que lho transmitiria na sexta feira.
Miss Universo, uma linda e esbelta rapariga da África do Sul

O embaixador Castello-Branco tornou-se afável e compreendeu a minha boa intenção e, diz-me: ontem passei a noite com a miss Portugal (claro durante a recepção no Dusi Thani Hotel).
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A minha resposta, maliciosa, na ponta da língua: “que sorte teve senhor embaixador!......”
Olhou para mim e, com um “brilhozinho nos olhos”, sem dizer uma palavra sorriu-se.... Foi esta a única  vez que se sorriu para mim durante os quatro anos que já o servia!
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Não deixo porém de ainda hoje ter uma grande admiração por ele, na parte profissional, dado que muito aprendi, pelos ensinamentos que me transmitiu.
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Naquela manhã a Fernanda Silva telefonou-me a transmitir-me que a pobre e desamparada miss Bolívia não tinha ninguém em Banguecoque e que não a queria deixar só e se a poderia levar, também, com ela à Embaixada de Portugal.
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Do meu gabinete falo pelo telefone, interno,  ao embaixador Castello-Branco: “senhor embaixador a nossa miss pergunta se pode trazer com ela a miss Bolívia....." Claro que sim e transmita à miss Portugal que traga as misses que ela quizer à Embaixada!
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A  miss “Bolívia92”, assim como a miss “Portugal92” estavam muito carentes de apoio e carinho na “Cidade dos Anjos”. Como caído do céu aos “trambolhões” apareci-lhes eu que tudo fiz, dentro das minhas possibilidades, dar apoio às lindas meninas.
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Não se pense, porém, por aí que tudo que as “misses” pisam é um tapete de flores de jasmins perfumados!
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Para a miss Bolívia chegaram-lhe às mãos, através de mim, vários faxes de suas e seus admiradores que anexo dois.
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De Portugal ou de outro lado nenhum me chegou para entregar à Fernanda Silva.
Ingratidão Lusa!
José Martins