terça-feira, 4 de abril de 2017

Pathorn Srikaranonda: "Falar de coisas nossas"



O lusodescendente que tocava saxofone com Bhumibol

Embarcou aos 13 anos numa aventura que acabou por lhe moldar incontornavelmente a vida. Pathorn Srikaranonda de Sequeira tocou para o antigo rei tailandês quando era apenas uma criança e a estima que despertou no monarca tornou o jovem músico num protegido do rei. Pathorn, que tem raízes macaenses, descobriu pela mão de Bhumibol Adulyadej as suas raízes lusas.
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Pathorn Sequeira tinha 13 anos quando iniciou uma das mais importantes relações da sua vida: entrou para a banda do rei da Tailândia, com quem tocou saxofone, e foi Bhumibol Adulyadej quem insistiu que procurasse as raízes portuguesas.
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Quando o assunto é o monarca, que morreu em Outubro do ano passado, Pathorn Srikaranonda de Sequeira, de 44 anos, – músico, compositor, professor, fundador do conservatório de música da Rangsit University – não poupa palavras: “Sabia sempre o que dizer, o que fazer, como fazer. Não era apenas um rei para mim, mas como um segundo pai, o meu mentor, o meu professor, tudo”, diz em entrevista à Lusa.
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Se a relação que desenvolveram se distingue pela proximidade, o grau de devoção assemelha-se ao de muitos tailandeses, não fosse Bhumibol Adulyadej um dos homens mais adorados do país. Meses após a sua morte as ruas de Banguecoque continuam adornadas de decorações fúnebres e praticamente todas as instituições, públicas e privadas, exibem mensagens de pesar.
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Entre as características mais distintivas do monarca – que Sequeira descreve como “um homem da renascença, que tinha interesse em tudo” – está a música, em particular o jazz, estilo que veio a conhecer quando, em jovem, estudou na Suíça.
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O jazz “entrou na identidade tailandesa”, em grande parte devido à influência de Bhumibol Adulyadej, que levava a sua banda, a Au Saw Friday, com pouco mais de dez pessoas, a tocar em eventos públicos e num programa semanal de rádio.
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Avô paterno de Pathorn Srikaranonda de Sequeira - Arquivos Históricos de José Martins
Na família Sequeira, o jazz é de longa tradição: o avô já o tocava e o pai também, ao piano, na Au Saw Friday, durante quase 70 anos. “Quando tinha cerca de dez anos comecei a ir às sessões de música e vi que o rei tocava saxofone, gostava muito disso e disse ao meu pai que queria ser saxofonista”, recorda.
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O pai, Raymondo, ensinou e incentivou, até que, aos 13 anos, achou que o filho estava ‘no ponto’ e podia actuar perante o rei: “Toquei uma música de jazz chamada ‘Theme’, é uma espécie de música de ‘big band’. Começámos a tocar a parte do saxofone, havia cinco partes – dois altos, dois tenores e um barítono – e eu toquei o segundo alto, o rei o primeiro. Gravámos, e da segunda vez que tocámos, trocámos os papéis”.
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Pathorn, a única criança da banda, começou assim uma aventura pessoal e profissional que veio a definir a sua vida. Um ano depois de integrar a banda, o rei enviou-o para estudar música nos Estados Unidos e quando regressou deu-lhe a missão de aperfeiçoar as 49 composições reais. Hoje, o músico corre o mundo com a banda (de que fazem parte os seus alunos) com o objectivo de divulgar as peças do monarca.
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Apesar da grandeza com que é frequentemente descrito, o monarca era também dotado de sentido de humor, garante o músico, lembrando o programa de rádio nos anos 1950 em que a banda real aceitava ‘discos pedidos’: “As pessoas ligavam. 
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O meu pai dizia que quando não conseguiam tocar [a música pedida], faziam outra coisa”, descreve, contando que era o rei quem frequentemente atendia o telefone, sem se identificar. “Provavelmente dizia ‘Olá, fala o operador’. Era um homem muito engraçado”, aponta.
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A música continuou a ter um papel fundamental na vida do monarca, até durante os muitos anos em que esteve hospitalizado: “Quando entrou para o hospital há sete anos, esteve em coma durante cerca de um mês e não sabíamos o que fazer. Pensámos ‘Quando retomar consciência, talvez possamos usar a música como terapia’. Tentámos tocar para ele e começámos a envolve-lo, pedimos-lhe para tocar connosco. Foi milagroso, funcionou. Há quatro anos ele tinha recuperado”, lembra.
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Além de mentor da carreira musical, Bhumibol Adulyadej mostrava-se também interessado nas raízes portuguesas de Sequeira, que apesar de ciente da sua ‘portugalidade’ não tinha consigo documentos suficientes que traçassem o percurso da família e permitissem um pedido de passaporte.
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“Quando eu era jovem, na minha casa, o meu pai falava sempre disso, da nossa herança portuguesa. Entre os seus cinco irmãos todos têm nomes portugueses. Um traço importante é a religião (católica), já que mais ninguém aqui a professa. Essa é uma herança forte na família. 
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Em casa usamos as palavras ‘parabéns’, ‘obrigado’, essas coisas. Mas não falamos (português). Mantemos uma árvore genealógica, temos um brasão que pertencia ao meu trisavô, temos essa portugalidade”, descreve o músico, que visitou Portugal diversas vezes.
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Segundo Sequeira, o rei “falava várias vezes” sobre a herança portuguesa do ‘protegido’ e foi ele que o incentivou a procurar mais:“Disse-me que pediu à embaixada os documentos que conseguissem encontrar sobre a minha família. Foi o rei que os pediu. Depois recebemos uma espécie de árvore genealógica, que vai até ao trisavô”, conta.
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A procura de linhagem anterior levou Sequeira a Macau, de onde a sua família portuguesa partiu para a Tailândia. Apesar de o pai já ter nascido em Banguecoque, não foi registado como tailandês, por ser tido como estrangeiro. 
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Os documentos encontrados na embaixada indicavam que o avô veio a Macau registar os filhos como portugueses. Em Macau, Sequeira procurou, e encontrou, um registo de baptismo que provasse que também o bisavô era português.
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A busca foi motivada pelo interesse em genealogia, mas também pela possibilidade de poder pedir, juntamente com o pai, um passaporte português.
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Ter o documento seria “especialmente importante” para o pai, com 89 anos: “Vai demorar algum tempo, mas é algo importante para ele, são as raízes dele, a sua identidade”, explica.
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Depois de 16 anos musicalmente dedicado ao rei, Sequeira coloca pela primeira vez a possibilidade de deixar a Tailândia: “Não queria ir para outro lado. Só depois de Outubro do ano passado, quando ele morreu, senti que tinha de seguir em frente”.
Arquivos Históricos de José Martins

Fonte: Ponto Final - Macau