domingo, 26 de fevereiro de 2017

PORTUGAL NA TAILÂNDIA - RESIDÊNCIA DOS EMBAIXADORES"

A Nobre Casa



Começou a ser construída pela década sessenta do século XIX  e finalizada por volta de meados da década setenta do século XIX.
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De estilo arquitectónico semelhante às construídas nos países que Portugal colonizou depois do século  XVI na Ásia. No entanto a "Nobre Casa" foi dotada de um traço diferente e fica a ser conhecida por Sino/Portuguesa. Actualmente poucas já existem na Tailândia, além desta que foi, também, denominada de palacete que durante 139 anos tem servido de residência de Cônsules, Encarregados de Negócios e Embaixadores de Portugal, em Bangkok.
A Nobre Casa

Podem, ainda encontrar-se uma meia dúzia delas, de tamanho inferior, na capital tailandesa, no Phuket, ao sul da Tailândia, na costa do Mar de Andaman. Mas essas poucas começam a desaparecer, debaixo do desenfreado progresso que a ele não escapa a identidade cultural e as características de um passado.
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A história da "Nobre Casa" começa em 1786, quando o Rei do Sião, Rama I, ofereceu uma parcela de terreno a Portugal, para construir Feitoria, cais e doca para reparar navios. Bangkok a grande cidade que hoje alberga mais de 10 milhões de pessoas, entrava na fase da sua fundação e depois de consolidada a reunificação dos siameses, depois da queda de Ayuthaya, em 1767.
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Doação a Portugal pela lealdade demonstrada desde 1511, quando as caravelas aportaram no Porto Internacional de Phom Phet em Ayuthaya e as relações encetadas. Em 1786 não há comunidade ocidental em Bangkok além da portuguesa e a lusa descendente. A estrangeira debandou após a desatrosa derrota, imposta pelo exército invasor do Reino do Pegu (Birmania). Mais tarde, em 1858, chegaram os franceses e os americanos.
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A doação do terreno foi oficializada com grande aparato protocolar. A descricao da escritura desta dávida real:
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"Eu, Chao Pya Surivon Montri Ministro de Sua Majestade e Rei de Siam, faço saber a V.Exa o Illmo. Sr. Diogo de Souza, Vice Rei da Índia e Capitão General de Mar e Terra dos Estados da Índia, que recebemos as cartas e offertas enviadas por V.Exa pelo Cônsul Geral e eu o fiz introduzir a audiência de Sua Majestade o Soberano, o mais amado dos seus povos, e juntamente o Comandante do Brigue com os seus officiais e havendo Sua Majestade tomado o conhecimento do conteúdo das cartas de V.Exa de ordem do seu 2º Rey para que tomada em consideração as proposições de V.Exa e as do Ministro de Macau para renovar a antiga amizade deste Reyno com o de Portugal e estabelecer huma Feitoria com a residência de hum Cônsul neste Reyno para que se darão as prontas providências para se por em execução e se entregou ao Cônsul Geral Carlos Manuel Silveira, hum chão que lhe pareceu próprio e conveniente com 72 braças de siam ao longo do rio, 50 de fundo com dois gudes para fazer navios com previlégio que todos os Portugueses poderão vir aqui negociar como antigamente por quanto S. Majestade é inclinado à Nacao Portuguesa que nenhuma outra. O Cônsul Geral, o comandante do brigue e seus oficiais receberão quatro meses de comodorias 1 160 ticais por mês as insígnias daquela graduação. As ofertas de V. Exa para Sua Majestade foram recebidas todas entregues aos seus officiais respectivos. S. Majestade ordenou ao Seu Ministro para enviar a S. Exa pelo Commandante do Brigue S. João Baptista cem picos de assúcar, 3 ditos de Marfim, 15 ditos de calem, 20 ditos de pimenta, 3 ditos de tinta amarela e espera que V. Exa aceite em considereação a sua particular estima. As ideias de V. Exa unidas às do Ministro de Macau Illmo Miguel de Arriaga Brun Silveira afim de instaurar a antiga amizade deste Reyno com o de Portugal e faz dignamente merecedor de ser 1º representante de S. Majestade o Rey de Portugal na Índia. E se esta amizade for com efeito estabelecida firmemente como deseja S. Majestade e os Portugueses aqui venham comerciar francamente será hum motivo de eternizar para sempre o nome de V. Exa para que sirva informar a todos os mercadores que aqui venhão que tragão espingardas bastantes e boas porque S. Majestade muito necessita delas. Deos Guarde a V. Exa por muitos anos.
Bangkok aos 5 da Lua do 12 mes do anno Marong de 1182 que corresponde a Era Christa 9 de Novembro de 1820".
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Documento histórico onde nele se poderá avaliar a consideração que o Rei do Sião nutria por Portugal. As espingardas estão designadas, as armas que os portugueses pela pela primeira vez introduziram em Aythaya. 
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O terreno é alagadiço, sofre as influências das marés do mar da Barra do Sião. Os meios são escassos, além da madeira, para obter os materiais de construção para iniciar a obra. Portugal deseja que no terreno doado por Rama I, represente e honre com a maior dignidade uma presença histórica de séculos, e assim, mais tarde se ergue um palacete. 
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Um desenhador português, possivelmente de Macau ou Goa, executa o desenho logo a partir de 1820 e fica aguardar, na gaveta, trinta anos, até que as fundações sejam feitas, espetando largos toros de árvores de teca para que em cima deles seja edificada uma peça rara da arquitectura colonial portuguesa.
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Portugal, após a doação da parcela de terreno, nomeia um cônsul e enquanto "A Nobre Casa" não é construída, uma moradia feita de tábuas, ripas e canas de bambu é elevada, em cima de estacas, e o lugar onde o Representante de Portugal reside, servindo ao mesmo tempo de Chancelaria de onde são regidos os negócios diplomáticos da Coroa Portuguesa com o o Reino do Sião.
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Banguecoque nasce nas margens do Rio Chao Prya (Rio dos Reis), envolvidas de mangal, campos de arroz e palmares. Para que as movimentações pudessem ser efectuadas, entre as populações no meio do pantanal, pelos braços do homem, foram construídos canais que viria, pouco depois, pelos ocidentais a ser cognominada a Veneza do Oriente.
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O cônsul português em 1848, era Marcelino Rosa e tinha sido nomeado em 1828, tinha assim nessa data 20 anos de permanencia no Reino do Sião. Sujeitou-se ao isolamento e até ao relacionamento total com a comunidade estrangeira que praticamente era inexistente.
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O Rei do Sião a partir de meados do XIX e pouco depois de os franceses e americanos começarem a aportar no Rio Chao Prya barcos em procura de mercadorias raras no ocidente, contracta meia dúzia de europeus para que organizem os serviços alfandegários que sirvam para cobrar impostos sobre as mercadorias que chegam e partem de Bangkok.
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Num desses barcos chega um viajante inglês, escritor, Frederiko Artur Neale, que narra a residência e a vida do "desterrado" consul Rosa:
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"A residência do Senhor Marcelino Rosa, o Cônsul Português, foi rudimentarmente construída, com bambus, toros de árvores e caiada de branco. Simplesmente mobilada e situada numa posição airosa no Siam. A intenção do Governo Português era construir em tijolos um explêndido palácio, que servisse de residência a embaixadores acreditados, junto, da Ilustre Corte do Siam, e assim, ainda está longe o progresso de levar a cabo a concretização, porque um barco carregado de tijolaria fina, operários e artífices saíram de Goa (uma ilha portuguesa na Costa do Malabar), em direcção a Bangkok. Mas, oh desventura! A embarcação não conseguiu vencer a tormenta a que esteve sujeita nos Mares do Sul da China, afundou-se, levando consigo, para o fundo do oceano, todos os materiais. Os ocupantes salvaram-se a muito custo e, por tal desgraça, o pobre do Cônsul já perdeu as esperanças que o seu Governo tome o risco de lhe enviar outro carregamento".
E mais adiante Neale prossegue: "O consulado português e as casas dos Missionários Baptistas americanos são vizinhas. À tarde, quando o sol se aproxima do horizonte, o Senhor Marcelino Rosa e os seus amigos estrangeiros, sentam-se em cadeiras debaixo da grande e secular árvore tamarindeira. Conversam, observam a movimentação dos barcos no rio que se queda a uma vintena de metros. Por vezes interporem a conversa e caiem em melancolia pela vida miserável de isolamento. Ficam mudos, porque não têm a certeza se ao outro dia acordam vivos".
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A uns 50 metros do local do "cavaco" quotidiano, situa-se o cemitério das Missões Americanas e era a paisagem macabra que lhes dava o aso à morbidez, numa terra onde as pessoas, só por felicidade, chegavam com vida a "casa" dos 50.
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O cônsul Rosa morreu em 1852, antes de poder habitar o palacete que ambicionou.
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O palacete tem a frontaria virada para Chao Prya e a cerca de 50 metros da margem. As linhas arquitectónicas são harmoniosas e majestosas, dão-lhe magnificência e beleza que não fica despercebida a quem o observa, quando navega nas águas do grande rio, também, chamado Menam "Mae das Aguas".
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O arquitecto português (anónimo) que fez o risco e que certamente vai dirigir a obra, não descurou nada, procurando adaptá-la com os requisitos indispensáveis para o conforto dos cônsules e famílias. A varanda, assente em pilastras, avança da frontaria e é coberta com um tecto falso onde o ar circula livremente para refrescar o ambiente durante a calmaria natural dos trópicos.
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A electricidade ainda não tinha chegado ao Sião, viria passado 40 anos e no início deste século. A iluminação durante a noite era feita através de gorduras extraídas de frutos de árvores oleaginosas, muito abundantes nesta terra farta de comida. O petróleo veio depois. 
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A "Nobre Casa" foi electrificada no ano de 1905 com trintaa lâmpadas e depois deste melhoramento, o Cônsul Leopoldo Flores, em ofício ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa dizia: "Esta casa é demasiado grande e não pode ser alumiada com candeeiros de petróleo".
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Durante os seus, já, quase 160 anos de vida, sofreu alguns reveses, o desleixo de cônsules e alguns embaixadores, que pouco ou mesmo nada se interessaram pela sua manutenção a "Nobre Casa" chegou a entrar em verdadeira decadência que em nada honrava o passado histórico de Portugal no Reino do Sião. Lisboa, por norma, não atendia o clamor dos nossos representantes diplomatas e consulares. Ignorava os apelos, sem nunca ter mostrado interesse de conservar deste Padrão Luso, vivo em terras siamesas. 
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Em 1980 estava, praticamente degradada. José Melo Gouveia é acreditado como Embaixador de Portugal na Tailândia, em 8 de Agosto de 1981, junto da Corte da Tailândia e, pouco depois da sua permanência, faz reviver das ruínas o palacete decadente. Em 1984, por ocasião da celebração dos 50 anos da "Associacão dos Arquitectos Siameses" foi-lhe conferido o prémio do edifício histórico mais bem conservado de Bangkok. 
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Numa parede lateral foi aposta uma placa comemorativa de bronze que ali fica para a posteridade. Honrando, assim, um passado histórico no antigo Reino do Sião entre Portugal e a Tailândia.
José Gomes Martins
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P. S. Este artigo foi escrito em 1998 e publicado no website Portugal em Linha. Entretanto Jorge Morbey, ex-conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Banguecoque, publicou uma monografia, em 2006, a que intitulou: "Uma Casa Histórica em Bangkok - A Residência de Embaixadores de Portugal", recomendamos o cliqueAQUI