terça-feira, 20 de dezembro de 2016

CONTO DE NATAL



Histórias tenho muitas para contar. São livros, arrumados, nas gavetas de minhas memórias. Desfolho de quando em quando uma página e dou-lhe vida. O episódio que vou narrar foi passado há 34 anos. Muito tempo já passado mas ainda hoje, dentro de mim, existe o choque que então recebi.
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Pensei, na altura, quando fui interpelado por um militar empunhando uma metralhadora ligeira e um árabe de cinturão, com balas, em diagonal que lhe abraçava, desde o pescoço, ao peito. Isto aconteceu, numa noite sem luar, em pleno deserto infinito ao nordeste da Arábia Saudita e a confinar as fronteitas do sultanato de Qatar e Emirates Árabes Unidos.
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Distante estaria o meu pensamento que dois dias antes da minha partida para Banguecoque, onde iria passar o fim do ano de 1982 para 1983, que no dia 29 de Dezembro, iria ser destacado, mais o meu dedicado assistente, Balamba, de nacionalidade filipina; um "mundo e arredores" a entoar canções espanholas onde nestas se incluia a do tango "La Comparcita", para acudir ao um camião que fazia a logística de apoio a dois topógrafos, ingleses, no deserto e a cerca de 100 quilómetros da fronteira do Sultanato de Oman.
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Depois de ter experimentado as agruras e securas do mar de dunas de areia; ter observado as miragens, distantes do meu olhar a fantasia do azul da água, vegetação e pedras polidas, entre aquela muito parecida a uma presa, fui transferido para as oficinas-gerais de Dharhan da "Geophisical Service Inc. (subsidiária da "Texas Instrumentos", com sede em Dallas, Texas, Estados Unidos).
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Bill Smith meu "manager" das oficinas de reconstrução de motores e outra maquinaria que iria substituir as que iam avariando nas sete brigadas de prospecção do ouro negro no deserto árabe, logo pouco depois de começar o meu dia trabalho; ter recebido uma mensagem, pela rádio (a comunicação na altura) que o camião logístico estava tascado até ao chassi na areia.
Entregou-me um rascunho/mapa com as coordenadas onde deveria estar o corpulento e bruto "Mol", um veículo híbrido, montado na Bélgica com peças e acessórios de diversas proveniências que circulava sobre caminhos de areias moles, solidas e de pedras bicudas.
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Que chatice! Murmurei: "logo me aparece uma viagem destas dois dias antes de partir para duas semanas férias em Banguecoque"... A distância era longa, nos meus cálculos seriam uns 800 quilómetros e umas 24 horas gastas nas duas viagens e desempenar  o pesado todo terreno.
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Quatro anos a trabalhar no deserto, a conduzir diversos tipos de veículos para rodar nas areias, estava absolutamente preparado para competir num rali Paris-Dakar e certamente não ficaria classificado nos últimos lugares.  
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Conhecia e não esqueci todos os segredos como se deve pilotar viaturas de tracção às quatro rodas e como se deve actuar quando se ficava tascado. Essencial o conhecimento como sair daquelas areias escaldantes que a aragem da noite as não faz arrefecer.
O condutor negligente, inexperiente e se esqueceu de verificar o tanque de reserva de água (por norma com 100 litros) do seu veículo e munir-se de comida, se vier a ficar enterrado na areia (o deserto não tem vias todo ele é uma) poder-lhe-á custar a vida, pela desidratação, durante o sol a pino, numas escassas três horas.
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A minha companhia, durante o tempo que a servi na Arábia Saudita; nos Emiratos Árabes Unidos, tinha perdido dois homens, nativos, pelo facto de terem abandonado os carros e aventurarem-se caminhar no deserto em procura de socorro.
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Eu e o Balamba carregámos na caixa da Chevrolet de 5000 centímetros cúbicos de cilindrada e os seus, avantajados, 400 cavalos de força possante; as garrafas de acetileno e oxigénio; peças sobressalentes que certamente deveriam ser substituidas.   
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Todos os componentes mecânicos daquelas pesadas viaturas eram-me familiares. Comida e água para os 600 quilómetros que teríamos de percorrer depois de deixarmos os 200 quilómetros da estrada alcatroada em Salwá, a fronteira com o Sultanato de Qatar e dos Emiratos Árabes Unidos.
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Partimos junto às 10 da manhã de Dhahran, passamos sem parar em Al Hufuf e passado duas horas estou em Salwá. A civilização terminava ali. Agora tenho pela frente 600 quilómetros de areia e uma bússola que me guiasse em direcção ao lugar onde estavam os topógrafos e pessoal abandonados. 
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Teria que seguir a orientação do ponteiro da bússola para 20 graus a sudeste e a seguir as "bandeirinhas" que o pessoal que assistia os topógrafos iam espetando a haste de aço pelas areias que seguiam. Uma orientação indispensável de orientação para os que movimentam no deserto. Outro sistema utilizado era o de bidões com a capacidade de 200 litros, cheios de areia e colocados em espaços de dois ou três quilómetros de distância entre eles.
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A "Chevrolet" com um tanque de combustível de 300 litros de combustível, tracção às quatro rodas e de uma velocidade, segura, de 100 quilómetros por hora pelas seis horas da tarde, já o sol avermelhado pintava o horizonte de cor de fogo, e preste a esconder-se de trás das dunas, estava junto ao "Mol" enterrado até ao motor em areias moles.
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Eu era o salvador daquela equipa de pessoal e dos dois topógrafos, que sinalizavam linhas no terreno arenoso, onde depois os vibradores de sísmica iram bater e informar, depois, os técnicos se nas profundezas jaziam ramas de petróleo. O motorista saudita, pouco experiente teimou, quando o camião principiou a enterrar-se no solo acelerar o motor até ficar imóvel.
Ei pessoal, falei em voz alta, vamos lá sacar isto daqui para fora! Foi fácil. Uma chapa de ferro a fazer de base a um macaco de 50 toneladas para levantar a carroçaria e as rodas e encher,depois o vazio que estas deixaram no solo.
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Segredo de polichinelo! Bastou esvaziar o ar das câmaras dos pneus, para com mais lastro na superfície do solo fazer sair o "bruto" da condição de imobilidade para solo firme. Voltar a meter ar, do compressor, nas câmaras, que o camião estava equipado e deixar os pneus a baixa pressão.
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A noite tinha já chegado e o Jhon britânico de T-Shirt do seu club o "Manchester United" diz-me: "Martins sleeping here at us tent. Sorry Jhon I´ll be back on my way to Dharhan
Minha carta de condução saudita, renovada de cinco en cinco anos.
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Eu e o Balamba vitoriosos! Com pouco trabalho desenrascámos o bruto Mol e o colocamos a circular. Nos meus projectos estava para as duas da manhã tomarmos uma refeição de arroz de carne de galinha ou de chibo em Salwá acompanhado com umas latas de coca-colas frescas.
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Chevrolet rodava a 100 130 à hora. A luz dos farois rasgava o breu da noite a mais de duzentos metros. Seguia o caminho pelas marcas do piso que os pneus tinham deixado, na ida, na areia. Ao longe vislumbrei os farois de um carro a piscar. Pensei e disse ao Balamba: "um beduino está a necessitar de auxílo"...
Abrandei a velocidade e preparado para prestar auxílio a quem estivesse com dificuldades. É a lei do deserto que eramos obrigados a cumprir à risca o auxílio aos náufragos das areias. Ninguém a pode ignorar. 
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É crime para aqueles que desprezam um náufrago do deserto e sujeito a penas pesadas impostas pela Justiça.
Porém a luz dos farois deixaram de piscar. Bem o condutor apenas me havia sinalizado a sua presença para me acautelar, assim o tinha futurado. Vi de facto uma carrinha, de fabrico americano e não liguei importância porque não observei ninguém junto a ela. 
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Acelerei novamente e para a frente é que é a caminho! Mas o estranho viria para depois... Uma meia dúzia de quilómetros percorridos, olho o espelho retrovisor e verifico que um veículo, a grande velocidade, me perseguia.
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O que será? Abrandei a marcha e a carrinha que tinha visto e cruzado, antes, parou à frente da minha. Da cabine sairam dois homens, agressivos, armados como "ramblos".
Um dirige-se para o lado da minha janela e o outro para a do Balamba. Nenhum deles falava uma palavra que fosse em inglês... Barafustavam, coléricos de armas apontadas para mim e para o pobre do Balamba que tremia como varas verdes. É o fim, é o fim das nossas vidas... 
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Pediram-nos, por gestos, o cartão que nos permitia residir na Arábia Saudita. Em pânico não entreguei ao guarda o cartão mas a carteira com dinheiro e os documentos. Não a chegou abrir. Revistaram a cabine e a caixa do veículo. Não encontravam aquilo que pretendia: bebidas alcoólicas. 
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Eu circulava numa área ao longo da fronteira dos Emiratos Árabe Unidos e era por ali que se fazia o contrabando de whiskies e outras bebidas espirituosas para a Arábia Saudita. A religião muçulmana de Maomé não permite que os seus seguidores as bebam. Porém em todas as religiões há os pecadores.
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O polícia, que me parecia ser o chefe, colérico e num inglês macarronado e em voz gutural para mim: IÚ,IÚ NESS TIME DON STOP IÚ,IÚ GO TO CALABOUÇO (Na próxima vez se não parares vais parar ao calaboiço) Eu não ganhei para o susto e o Balamba perdeu o pio... Até Dharhan não mais cantou o tango "La Comparcita".
José Martins