terça-feira, 29 de março de 2016

O MALOGRADO CÔNSUL GUILHERME FERREIRA VIANA

Já por diversas vezes escrevemos em relação ao cônsul Guilherme Ferreira Viana. 
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Sua morte continua envolvida em mistério e nunca a verdadeira teria sido trazida à luz da realidade. Foi o primeiro cônsul-geral nomeado em Lisboa, portador das Cartas Credenciais que viria a entregar a Sua Majestade o Rei do Sião. A cidade de Banguecoque principiava a desenvolver-se graças ao rio Chao Prya. 
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Ao grande rio que divide a capital do Sião, em duas partes, aportam os barcos a vapor e principia a ascensão do comércio internacional do Sião com a Europa e os Estados Unidos. O reino dos elefantes é abastado, praticamente virgem, farto de produtos da terra, madeiras e cobiçado pelos países da Europa. 
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Os primeiros missionários americanos chegam ao Sião na década de trinta do século XIX; estabelecem-se num terreno doado pelo Rei Rama II à Rainha D.Maria II de Portugal (emprestado ou arrendado), junto à casa, construída de madeira, do cônsul português Marcelino Rosa, acreditado no Reino do Sião em 1832.Seguem-se aos americanos os ingleses que já colonizavam a Índia, as terras Malaias e a ilha de Singapura. 
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O cônsul Marcelino Rosa passa misérias em Banguecoque por 20 anos, esperando que lhe chegasse, num junco chinês, de Macao com o montante para fazer face às despesas do funcionamento do consulado e face à sua sobrevivência. 
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Passados são 16 anos (Monsenhor Manuel Teixeira na sua obra: "Portugal na Tailândia", pg. 217) escreve: " a 5 de Fevereiro, de 1836, o Senado escreveu ao Governo de Goa sobre a inutilidade da Feitoria de Bangkok, as despesas que tinha de fazer com ela e ainda subsídios anuais a Timor e Solor, declarando que ia prevenir esses dois estabelecimentos que de futuro não os ajudaria mais. A 9 de Maio de 1836, o Governo da Índia respondeu que não poderia fazer alteração alguma sem consentimento régio".
O jornal de Macau, " Macaista Imparcial", publica: " Por cartas particulares do Cônsul Português em Siam, datadas de 28 de Fevereiro e 16 de Março deste ano (1836) sabemos que a Feitoria Portuguesa continuava frequentada de Estrangeiros; rende alguma couza, e a caza de rezidencia nunca esteve em melhor estado. Hum junco por nome Emprehendedor partio de Bangkok para Sinagapura com uma nova especulação, levando a bandeira Portuguesa; o Cônsul accrescenta que esta embarcação he a primeira que sahio de lá com a bandeira Constitucional da Raínha".
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O cônsul Rosa, está abandonado, Macau não tem interesse em financiar a feitoria e outro remédio não terá que arrendar pedaços de terreno, já muito cobiçados junto à margem do rio Chao Prya. Porém, mesmo com tais misérias que o cônsul Rosa procurava esconder, teve relacionamentos salutares com a diminuta, de então, comunidade estrangeira residente. 
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A modesta casa construída de madeira e varas de bambu, para disfarçar a miséria de vivência, informou o jornalista Fred Arthur Neale, em 1848, que estava em vista a construção de uma residência para o cônsul, mas que infortunadamente os materiais, carregados em Goa, num barco e este fustigado por uma tempestade, no mar do Sul da China, afundou-se. 
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Acrescenta: "que se tinha salvado a tripulação a muito custo". Historicamente não é conhecido tal naufrágio e se entende que o cônsul pretendeu encobrir a modéstia, ao jornalista, com a prevísivel nova construção de uma residência. 
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Não se lhe conhece mulher e filhos, mas um amor platónico com uma bonita siamesa a quem lhe viria a oferecer uma parcela de terreno ao sul do actual jardim da residência dos embaixadores para ali construísse casa. 
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A rapariga viciada no jogo, endividou-se e acabou por a vender e a área adjacente (sem nunca se ter conhecido a veracidade da história) aos missionários americanos, mais tarde a transaccionam o terreno ao reino Unido para construir a sua representação consular. 
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Viria depois a trocar a parcela por outra ao Governo siamês para a construção do edifício dos Correios Centrais, onde ainda hoje funcionam. Pouco se sabe em relação a sua vida e acabaria por morrer afogado, no rio Chao Prya a uns 300 metros a jusante da feitoria, quando o barco, em seguia, se voltou. 
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O certo foi que depois de 50 anos na larga parcela de terreno doada pelo rei do Sião, Rama II, nada, mesmo nada tinha sido feito em favor do desenvolvimento das relações comerciais entre o Sião e Portugal. 
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Apenas, construída a residência dos cônsules e depois dos embaixadores por volta da década de sessenta do século XIX, que ainda hoje se encontra, exteriormente, no mesmo estilo, embora o telhado e certas partes do interior tenham sido "barbaramente" modificado por chefes de missão. 
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Os Reis do Sião e porque os portugueses tinham sido de grande valia na velha capital Ayuthaya (Aiutaá), apostaram que seria Portugal o país certo e o intermediário perante os países do Ocidente para desenvolver o reino que acaba de se estabelecer, com a sua capital, em Banguecoque. 
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Aquele largo terreno que para além de servir para construir a residência dos representantes de Portugal, a chancelaria e uma doca para construir navios, nunca ali foram feitas fundações para doca ou navios, tivessem saído, dos estaleiros. 
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A Feitoria de Portugal nunca atingiu a dignidade que deveria ter tido para os fins que foi criada. Os cônsules e porque não tinham apoio de Goa ou de Macau, viviam sob a constante precariedade de meios de subsistência e humilhação aos observarem os ingleses a incrementarem suas relações com o Reino do Sião. 
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As invasões napoleónicas, a fugida da Corte Portuguesa para o Brasil tinha produzido chagas profundas e incuráveis entre Portugal e o Reino do Sião. O Sião principa-se a desenvolver-se; os barcos a vapor ingleses transportam milhares de chineses de Hong Kong. No consulado de Inglaterra estão, registados, 50.000 chineses protegidos. 
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Para o reino da Raínha Vitória é-lhes igual fazer dinheiro com o tráfego humano sofisticado, ou transportar bolas de ópio, manufacturado no Paquistão na Índia para a China que mais tarde voltaria numa praga e com milhares e chineses opiómanos adictivos à infame droga. Os ingleses com uma considerável frota de navios mercantes, nos mares da Ásia, necessitam que o transporte carga humana e droga para os portos da Ásia. 
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Macau bem perto de Hong Kong enviou umas quatro centenas de chineses para Feitoria de Portugal. Chineses que ficariam registados na feitoria com o estatuto de protegidos e o montante de emolumentos deixados na chancelaria iam ajudando o cônsul a viver com alguma, pouca, dignidade. 
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Na sociedade portuguesa movimentavam-se, ainda, os "pacotilhas", já de punhos de renda e golas das casacas safadas. Uma aristocracia falida, indolente que foram vivendo sob os títulos honoríficos comprados ou herdados desde que Portugal foi fundado. Mais se viria acentuar com a expansão portuguesa no Oriente. 
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No Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal só eram ministros, duques, viscondes, barões, marqueses e outros protegidos nos meandros da aristocracia, portuguesa, da época.
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A sociedade portuguesa, absolutamente parasitada, já com Portugal na falência, deambulavam pelas ruas de Lisboa e da província a gastarem o pouco que já possuiam ou a queimarem a mobília para alimentarem o fogão de sala para se aquecerem nas noites frias de inverno. 
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O Ministro dos Estrangeiros João de Andrade Corvo, envia de Lisboa para Banguecoque, o Cônsul Guilherme Ferreira Viana, um jovem com 25 anos, portador das Cartas Credenciais que o acreditava como Cônsul-Geral de Portugal no Reino do Sião. O cônsul Viana seria o primeiro diplomata de Portugal enviado especial para o Reino do Sião de Lisboa. 
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Viajem que deveria ter demorado cerca de dois meses, dado que o paquete a vapor teria que navegar pelas costas do Atlântico, Índico, Índia, Baía de Bengala, passar o Estreito de Malaca, Singapura e deste porto para Banguecoque. 
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O Canal do Suez ainda não tinha sido aberto à navegação e aconteceria em 1869 e de quando o cônsul Viana já se encontrava acreditado em Banguecoque. Um cônsul que substituiu António Frederico Moor, nascido em Macau a 18 de Agosto de 1807. Nomeado cônsul efectivo de Portugal, em Banguecoque em 22 de Março de 1855, exercendo o seu cargo até 28 de Abril de 1868. 
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Guilherme Ferreira Viana é um jovem e naturalmente pretender obter um conhecimento global daquilo que se tinha passado na Feitoria de Portugal. De Lisboa com ele vieram as indispensáveis recomendações de como deveria actuar dentro das suas novas funções diplomáticas. 
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O cônsul de Portugal chega ao Reino do Sião no auge da assinaturas de novos tratados entre este reino e países estrangeiros. O reino despertava, de um longo adormecimento, para a concretização de novos relacionamentos com o exterior. 
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O cônsul António Frederico Moor informou Lisboa dos desejos do Rei Mongkut para que fosse enviado um ministro com poderes para efectuar um tratado de aliança com o Sião. 
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Isidoro Francisco Guimarães, Visconde da Praia Grande, Governador de Macau e Ministro Plenipotenciário às cortes da China, Japão e do Sião (1851-1853) viria a concluir o tratado com o Sião em 1859, com grande pompa, cortesia e hospitalidade oferecida pelo rei Mokgkut (Convidamos a um clique http://portugalnatailandia.blogspot.com 
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 "Texto do Tratado de 1859 entre Portugal e a Tailândia", de autoria a transcrição e artigo do autor desta peça). Foram os tratados, assinados, entre o Sião e países estrangeiros seguintes: 18 de Abril de 1855, foi assinado o tratado anglo-siamês por Sir Jhon Bowiring, Governador de Hong Kong e enviado da raínha Vitória; a 28 de Maio de 1856, um Tratado de Amizade, Comércio e Navegação com os Estados Unidos, assinado por Townsend Harris, Cônsul-Geral da América no Japão, enviado ao Sião, pelo Presidente Franklin Pierce; no mesmo ano de 1856, Tratado franco-siamês, assinado por Mr. De Montigny, enviado por Napoleão III, em 1856, Tratado com a Dinamarca; em 1860, com a Holanda; em 1862, com a Prússia e em 1868 com a Suécia-Noruega; a Bélgica e a Itália. 
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O cônsul Viana tem conhecimento que as Missões Estrangeiras de Paris se tinham apoderado dos terrenos doados pelo Rei do Sião ao rei de Portugal e à comunidade portuguesa e lusa-descendentes em Banguecoque. Preparou uma petição para a entregar ao Rei do Sião cuja finalidade seria chamar a Portugal a posse dos Bairros de Santa Cruz, da Imaculada Conceição e da Senhora do Rosário. Porém o cônsul, um dia depois de ter entregue a petição na corte, foi convidado para viajar a Ayuthaya e ali assistir à caça do elefante que anualmente tinha efeito na velha capital. 
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O cônsul estranhamente, junto às 8/9 da noite (já alta em Abril) foi tomar banho no rio Chao Prya e morreu em condições estranhas que nunca foram aclaradas. 
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Existe o mistério, em cima de sua morte que jamais será conhecido. Restam, apenas, os documentos que vamos transcrever
Assento de Óbito
Registo 17 .
Saibam quantos este termo d´Aberto que aos vinte e seis do mez d´Abril do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e septenta eu Joaquim Vicente d´Almeida, Secretário, encarregado do Consulado geral de Portugal em Siam sido informado por uma carta de Luiz Maria Xavier, de (31) trinta e um annos d´edade, viuvo, negociante, natural de Bangkok, residindo neste paiz, e amigo de Guilherme Ferreira Viana, Consul geral de Portugal em Siam, de vinte e septe annos d´edade, e natural de Lisboa, que elle quando estava banhando-se em Wat Ban-Pong em vinte e cinco do referido mez morreu afogado, e tendo sido examinado e declarado pelo doctor Campbell que foi d´um ataque de congestão de miolos ou do coração segundo o com certificado cujo thema he o seguinte; Bangkok April 27 the April (ilegível). I hereby notify that of examine today the body of the late G. F. Viana Consul General of Portugal (who was drowed while bathing in the menam evening of the 25-the that a careful external examination revelead not the slighter of mark of wound of injury and that no "sectis cadaveris "having been permited, I can only conclued from the very congested and swollen state of the head, corroborated by the testemony of those presente that the cause of death was Congestion of the vessel of the Brain or heart. Assinatura William Campbell.
E sendo sepultado pelo vigario da N.S. do Rosário como da certidão de óbito abaixo transcripta . De 25 de Abril 1870, dia presente (ilegível) Guilherme Ferreira Viana Consul General du Portugal à Bangkok; né à Lisboa et age de 27 anos. Deux yousr apris sa disposition, le cadarro ayand et retrové a été colennamrent enterr´e por Monsieur Cherillard Louis, Missionaire apostolique à Bangkok dans le cemiteryde l´eglesie de notre dame du Rosarie à Bangkok. Assinatura S. Daniel missionaire apostolic - Bangkok le 4 Avril 18/3.
E de tudo lavrei o presente termo assignado pelo declarante como testemunha assim como do Johannes Jacob Richermann, natural de Alemanha, como outra testemunha e por mim e sellado com o cello deste Consulado. Bangkok, aos 4 d´Abril de 18/3. Assinaturas: Richermann, Luiz Maria Xavier e o secretário, encarregado do Consulado geral.

BOLETIM DA PROVÍNCIA DE MACAU E TIMOR
Segunda-feira 30 de Maio de 1870
Bangkok, 4 de maio de 1870. - IIImo. sr. João Climaco de Carvalho, secretário do governo de Macau. - Sendo do meu sagrado dever, communicar a S.Exª. o Sr. Governador o triste acontecimento, que houve no dia 25 do p.p.; apresso-me a dirigir esta, só a fim de communicar, que no domingo passado às 8 ou 9 horas da noite partio o sr. consul geral, o iII.mº sr. Guilherme Ferreira Vianna em companhia do seu amigo, o sr. Richmann n´um bote mui seguro, o seguindo outro com criados, e comestíveis para uma cidade visinha por nome "Ayuthia" a fim de assistir á festa, que só costuma fazer n´este tempo, dedicada á caça de elephantes; porém antes de chegar ao sitio destinado, tinham ido a um sitio chamado "Wat Banpeng" para tomar banho em companhia também d´outro amigo o Sr. Luiz Maria Xavier, que foi n´outro bote, e chegou lá no dia seguinte (segunda-feira ás 5 a.m.); porém infelizmente quando elle chegou estava banhando-se, pouco tempo depois desapareceu, se bem, que os dois amigos acima referidos não se afastaram muito delle, apesar de não acompanharem o banho com receio desse sitio, ou por não saberem nadar; pois segundo as particularidades desta catastrophe, v. sª verá pelo jornal local Siam Daily Advertiser dirigido a v.sª para o conhecimento de S.Exª. o Sr. Governador; pois segundo essa triste occurrencia, que lamento, e que causou a morte de tão illustre cavalheiro, tão chorado por toda á communidade, e particularmente pelos seus amigos, e por aquelles que tiveram o gosto de o conhecer.
Logo que tive esta infausta notícia, fui procurar o ministro dos negócios estrangeiros, communicando-lhe este triste e penoso acontecimento, e pedindo-lhe désse as necessárias ordens a fim de obter o corpo do chorado finado, ao que immediatamente annuio, e despachou logo um bote com o sr. Costa, e sr. Sá a fim de trazer para o consulado, o corpo que veio no dia 27 do p.p., pela manhã ás 7 horas pouco mais ou menos; porém segundo o estado do finado, que exhalava mui mau cheiro, e sendo recommendado por um doutor inglez que fosse enterrado quanto antes, tratei logo disso, fazendo-o enterrar no mesmo dia ás 4 horas da tarde sem grande pompa por falta de tempo, contudo foi um enterro mui decente, sendo acompanhado por todos os consules, menos inglez, e dinnamarquez, que estavam ausentes, e o consul americano que estava doente, mais amigos, e conhecidos do finado, bem como todos os subditos portuguezes aqui residentes (com pequena excepção) para o cemitério catholico chamdo Rosario; inclusivamente o ministro dos negocios estrangeiros, e sua comitiva, que concorreram igualmente para honrar esse acto funebre; pois eu desejaria que enterrado no consulado, porém, o sr. Lessler, consul prussiano me asseverou, que tal não podia fazer, que mesmo a sepultura do chorado Marcelino d´Araujo Rosa, disse-me ele, que o sr. Vianna lhe dissera, pretendia remove-la, visto não ser o local proprio para esse fim. Faço igualmente sciente a v.sª. que todos os consulados aqui estavam com as bandeiras em meio páu logo que tiveram notícia da morte do sr. Vianna, igualmente o capitão do porto.
Levo tambem ao conhecimento do S.Eª. o Sr. Governador, que recebi de Sua Majestade El-Rei 3 peças de panno branco, e 100 moedasinhas de prata no valor de $15, offerecidas ao finado segundo o costume siamez, e no dia do enterro de noute mandou Sua Majestade El-rei alguns foguetes para accender no consulado, que assim o fez por sua própria gente segundo estilo aqui.
Todas as auctoridades aqui tiveram participação da morte, e do enterro, e agora só me resta mandar uma circular, que estou encarregado deste consulado até decisão de S.Eª o Sr. Governador; pois desde o dia do enterro até esta data estou morando no consulado, isto é, durmo por emquanto, visto a casa em que estou morando está contigua ao consulado, do contrário será mui despendioso, visto ter que empregar alguns criados, contudo não o perderei de vista.
Emquanto aos bens pertencentes ao finado estão toddos selados, cuja lista mandarei por outro ensejo sem falta, visto que por emquanto não tenho tempo inteiramente.
Como aqui ha alguns moveis pertencentes ao finado, e ao governo sem encontrar em livros alguns, espero, que me mande uma lista para o meu governo os que vieram ultimamente d´essa.
Segundo o costume, mandarei dizer uma missa cantada para o finado, e farei sciente aos subditos portuguezes para estarem presentes.
Communico igualmente a V.sª o Sr. Governador, que encontrei na caisa do consulado uma memoria do finado de 147 ticaes e meio, peretencentes ao governo, o que achei conforme menos fracção, e uma outra nota mencionado ser devedor ao governo de 1.500 ticaes, que o seu pai pagará.
Pelo vapor chegado recentemente de Singapura vieram algumas cartas dirigidas ao finado, mas como não sei de quem são para serem devolvidas se acham aqui, e as de Visconde de Cercal como conheço as letras foram remmetidas.
Tendo o sr. Vianna recomendado, que se no caso de elle fallecer, que mandasse uma caixinha de lata, que se acha no seu armário, ao seu pai; comtudo faço sciente a S.Exª o Sr. Governador para fim indicado.
Segundo a morte do do finado fui obrigado mandar o doutor examinar para haver um certificado que, juntamente com a declaração do se. Richmann, o sr. Luiz Maria Xavier, que estavam presentes, se for preciso, mandarei a S.Exª o Sr. Governador por outro ensejo.
As depezas mensaes deste consulado são por emquanto em seguintes parcelas:
Salário do secretário.......$22.07
Do. de interprete............."29.42
Do. de e homens de
vigia............................... " 9.60
Do. de 2 homens para
o aceio diário do ter-
reno da feitoria, e en-
carregados de içar o
arreiar as bandeiras......... " 9.60
Total................................." 70.69
Rendimento do gudão o
terreno pertencentes
ao governo....................." 100.00
Balanço a favor da caixa " 19.31
Faço sciente tambem a S.Exª o Sr. Governador, que os objectos de valor encontrados no armario do finado, tinham sido entregues ao sr. Lessler para os guardar segundo o pedido d´elle, pois como era amigo do finado, não fiz objecção á isso, e tambem porque não ha segurança no consulado, porém elle passou um recibo por esses objectos em que um pacote sellado com o sêllo do consulado, que se am meu poder.
Como não tenho tempo actualmente do poder examinar todos os papeis, e livros particulares do finado, e do governo deixo isso por outro ensejo só a fim de estar sciente de tudo para communicar a S. Exª o Sr. Governador.
Como achei no armario do mesmo um officio dirigido a S.Exª o Sr. Governador com sêllo do ministro dos negócios estrangeiros approveito agora para o mandar a S.Ex.ª o Sr. Governador.
É o que tenho por emquanto a communicar a v.sª. para ao conhecimento de S.Exª o Sr. Governador, visto que a mala se fecha amanhã ás 6 horas da manhã.
Deus guarde a v.sª - Consulado geral de Portugal em Siam, Bangkok, 4 de Maio de 1870. - J.C. d´Almeida, secretario, encarregado do consulado geral.
(Transcrita fielmente a ortografia da época)
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Nota do autor: Como se pode verificar, nesta peça, o terreno doado a Portugal, praticamente desde que a Feitoria se instalou, parcelas foram arrendadas, prova-se aqui que já o cônsul Marcelino Rosa alugava e na comunicação do encarregado J.C. d´Almeida que enviou a Macau dá conta de um redimento proveniente de um "gudão" (que não encontramos o significado da palavra no dicionário, de 100 ticaes).
José Martins

8 comments :

  1. Prezado José,
    muito obrigado por este post !
    Fiz uma tradução para alemão.
    Ainda tenho algumas incertezas....
    O Ministro Andrade Corvo iniciou seu cargo em 1871 ?
    Quando chegou Viana a Bangkok ?
    Procurei no Google Wat Ban Phong e Peng....
    Não encontrei este Wat em Ayutya.

    Uma coisa é certa (acho eu)
    Este tal amigo "Richermann" e este tal testamunha de Alemanha (Alemanha em 1870 ??) é o nosso amigo Rieckermann, que ainda existe no mundo...

    grande abraço
    Ralf (Ralip)
  2. Caro amigo Ralf,
    O Wat Ban Phong existe. Eu já lá estive e tirei fotografias. Situa-se junto à margem direira do Chao Prya cerca de uns 10 quilómetros antes de chegar a Ayuthaya. A um quilómetro mais ou menos da povoção de Sena, que fica na estrada que liga Ayuthaya com Supanburi. 
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    Como o afirmo a história deste jovem tem me intrigado bastante e há algo que foi escondido. Estranho que às 8/9 da noite do dia 25 de Abril o Viana fosse tomar banho no rio, quando a noite já é cerrada. 
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    Em Abril já é mês, na Tailândia, da época das chuvas e o rio Chao Prya além do aumento do caudal as águas correm turvas. Ora em 1870 creio que no Chao Prya, naquela zona, deveria haver crocodilos ou outros animais marinhos que não creio que o jovem Cônsul se tenha aventurado a lançar-se ao rio para nadar. 
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    O Cônsul Viana estava a "bulir" num assunto muito melindroso que seria de obter as antigas propriedades portuguesas que a igreja se tinha apoderado delas. Bem é que na igreja não há só santos... mas também demónios. 
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    De facto segundo o afirma o médico inglês William Campbell, apenas observou o cadáver exteriormento (não tinha ferimentos) não lho deixaram autopsiar e lhe pareceu que teria morrido de uma congestão ou de um ataque do coração. 
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    No meu parecer esconderam qualquer coisa... Fosse como tivesse sido. Paz à sua alma! Obrigado por ler a minha prosa. Grande abraço
    José Martins
  3. Caro Amigo Ralf,
    Volto.
    Envio-lhe a lista com o nome dos Ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal na altura que o cônsul Viana partiu para Banguecoque: José Maria Casal Ribeiro, 1866/1867 - João Andrade Corvo 1867 - Conde de Ávila 1868, Carlos Bento da Silva, 1868, Marquês de Sá da Bandeira 1868. Aventurei-me a designar nome de João Andrade Corvo... Poderei estar errado dado que não tenho documentos que me deiam a certeza.
    Abraço
    José Martins
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  4. Caro amigo Ralf,
    O Cônsul Guilherme Ferreira Viana tomou posse da gerência do consulado em 16 de de Setembro de 1868. Já neste ano, segundo documentos que tenho cópias, inscreveu 23 portugueses cristãos no ano de 1868 e 11 em 1869.
    Abraço
    José Martins
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  5. Muito obrigado, José,
    tenho no meu post uma fotografia do Wat Ban Peng (a autora japonesa chama o Wat Ban Pong).
    No mês des abril com tanto calor, um jovem gosta e tomar banho.....mas Viana soube nadar ?
    Também eu sinto, que esta historia esta mal contada !
    A igreja ?
    No meu post (ainda) estou a culpar os ingleses, e outros farangs.
    Um mês depois da posse como consul morreu Rama IV.
    Era a altura de misturar a cartas do jogo !
    abraço
    Ralf
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  6. Caro Amigo Ralf,
    Sim,sim acho que o nome certo é Wat Ban Pong. Quando vier a Banguecoque procure-me que vamos a Sena ver o lugar e o local onde o Viana morreu afogado. Tenho em vista de elaborar um trabalho em cima da comunidade estrangeira residente a partir de meados do século XIX, que está sepultana no cemitério protestante junto ao Menam Hotel na Chalerm Krung Road. Vou lincar o seu blogue ao Aquitailandia.
    Abraço
    Jmartins
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  7. Com certeza !!

    Tenho, alias, a certeza que a roupa tradicional thailandes vem do Alentejo, e barco royal de Portugal também.
    Como pode ver as provas:
    http://briefeankonrad.blogspot.com/2008/04/kleidung-schiffsbau-was-portugiesen-in.html

    Que acha ?
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  8. Caro amigo Ralf,
    mande-me por favor o URL do site da roupa tradicional para o meu e-mail josegomes.martins@gmail.com

    Abraço
    José Martins