segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

AS MINHAS GAVETAS: "HÁ 32 ANOS UMA ENTREVISTA AO EMBAIXADOR MELLO GOUVEIA"



Bangkok – Entrevistar o dr. Mello Gouveia tem a dificuldade das obras incompletas. Por mais questões que se ponham, por mais respostas que se recebam (e o embaixador de Portugal nunca se furta a manifestar o seu ponto de vista) fica-se sempre com a convicção de que muito mais ficou por perguntar e responder, tão vasto é o campo dos conhecimentos do entrevistado.
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Para o jornalista, a dificuldade maior foi, pois, sintetizar as muitas páginas de apontamentos que foi recolhendo no tempo de uma estadia em Bangkok de quatro dias, dois dos quais, em boa parte passou junto do atarefado embaixador Mello Gouveia.

A entrevista decorreu, por isso, em várias momentos: a caminho do aeroporto, na bela residência cheia de preciosas obras históricas, nas instalações da Feitoria quando se terminavam os preparativos para a recepção, e num dos bares de Bangkok Yait Hotel tendo por fundo um conjunto filipino, enfim, um pouco de todos os momentos em que estivemos juntos.
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Se o leitor mais atento, notar que um ou outro assunto é deixado incompleto e mais tarde retomado, tem aqui a sua explicação – a entrevista não teve carácter formal  e às vezes foi necessário voltar atrás para aclarar um ou outro ponto.
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Também se o leitor está à espera de qualquer declaração sensacional, desengana-se. O embaixador Mello Gouveia, homem de fino trato humano (como pude apreciar nas suas relações directas com os funcionários da Embaixada, mesmo os mais humildes) não incorre no incontido verbalismo dos «diplomatas de ocasião» que por aí populam. Diz claramente, menos do que sabe, mas tudo o que diz é «de saber feito», não meras palavras ao vento. Algumas vezes chegaria mesmo a repetir-se dando a ideia ao jornalista, do modo profundamente elaborado como desenvolve as suas opiniões, mesmo até, uma ou outra graça que introduz no diálogo.
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A CULTURA EM VEZ DO DESPORTO
Ãs relações entre Portugal e os países do Sueste Asiátcio foram naturalmente o primeiro tópico da nossa conversa. Dr. Mello Gouveia começaria por chamar a atenção para as relações históricas entre Portugal e a Tailândia, em que também Macau desempenhou um papel importante. «Macau/Bangkok e Goa foram os três polos mais significativos da presença portuguesa nesta área, nomeadamente desde o momento em que foi criada a Feitoria de Portugal» assinala.
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Estas relações estão amplamente documentadas em obras históricas – o nosso colaborador Padre Manuel Teixeira é sem dúvida, quem mais e melhor as estudou – e a própria «Tribuna» já se lhe referiu em anteriores trabalhos. Damo-las, pois, como conhecidas da opinião pública local.
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Curioso, e com o seu quê de ineditismoé modo como o embaixador Mello Gouveia as analisa como suporte de relações futuras. «Houve países que utilizaram o desporto como forma de ultrapassar dificuldades a nível político» - acentua, fazendo recordar imediatamente a utilização do «ping-pong» pela Administração Nixon para incrementar as relações com a República Popular da China. «Ora Portugal tem as relações históricas comuns, que pelo menos têm tanta força como o desporto, para utilizar no contacto com os países do Sueste Asiático, e não deve desperdiçar essa força» - explica.
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Para  o embaixador Mello Gouveia, Portugal, «actualmente não trem necessidade de diálogo político com estes países». Frisa que «em questões de geopolítica estamos voltados para outras zonas do Globo e a Asia/Pacífico está para além dos nossos interesses imediatos».
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No futuro, contudo, ninguém sabe. É nesta perspectiva que o embaixador de Portugal em Bangkok considera que «se conseguirmos manter aqui uma forte presença cultural manteremos aberto um diálogo que poderá ser benéfico»
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Ultrapassado este capítulo, era inevitável que voltássemos às questões culturais, tendo agora determinar qual o modo como os tailandeses (em geral) e os seus dirigentes (em especial) apreciam a história dos portugueses no Sião, depois na Tailândia.
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Durante os dias que esteve em Bangkok o jornalista pôde constatar, por si próprio, algumas realidades: declarar a nacionalidades portuguesa na Tailândia é ver abrir-se um sorriso, ser recebido com simpatia, algumas vezes, mesmo significa um grande abatimento nas lojas, em especial, as dirigidas por famílias.
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Quem se recordar do que é ser português na Europa, compreenderá melhor a diferença, depois, quer na elevada hierarquia governamental que esteve presente à recepção comemorativa do «Dia de Portugal», quer no apoio efectivo de vários departamentos à preservação do património artístico deixado pelos portugueses (em Ayuthaya são elementos das Belas Artes tailandesas que fazem as escavações) no «Campo Português», é fácil de concluir, o carinho com que os tailandeses acompanham a história comum com os portugueses.
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Talvez façam o mesmo com outros povos, com quem tem relações muito antigas, pois o jornalista ficou com a ideia de que têm reais preocupações pelo passado. Mas em termos de europeus, não se pode esquecer uma realidade concreta e muito significativa – muito antes de outros, e com uma perenidade que não conseguiram, foram os portugueses quem mais de perto os conheceu e com eles conviveu, ao longo de quatro séculos e meio.
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UM COMPLEMENTO EM TERMOS COMERCIAIS
No campo comercial, os reflexos podem ser também interessantes, desde que se tenha a consciência de que «o Sueste Asiático não é uma alternativa, mas pode ser um complemento», refere o nosso entrevistado.
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Também neste sector, as prioridades portuguesas são outras e podem definir-se em duas grandes direcções – a entrada no Mercado Comum Europeu, um projecto fundamental para Portugal que o jornalista teme ser muitas vezes encarado de forma demasiada sebastianista, é as relações com os países africanos de expressão portuguesa. 
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O embaixador Mello Gouveia, acentua, porém,, que  «o Sueste Asiático é a zona do Globo com crescimento económico mais rápido do mundo, uma zona onde o poder económico tende aumentar e a atingir maior número de pessoas, de modo que o nosso relacionamento pode ajudar na diversificação de mercados para as nossas exportações, e saber-se como hoje em dia é importante esta diversificação».
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Para melhor mostrar a amplitude das possibilidades refere-me um exemplo - «se os grandes projectos urbanos em curso nestes países da Ásia Pacífico decidissem utilizar a cortiça como material para a pavimentação dos edifícios, Portugal não produziria cortiça suficiente para abastecer esses mercados».
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Como, aliás, revelámos na última semana, através de uma entrevista com um produtor do sector que a partir de Bangkok «bate» os potenciais consumidores de cortiça, todas as expectativas foram superadas em apenas de um ano de promoção.
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O embaixador Mello Gouveia acha que «há que fazer estudos sobre estes mercados, pois neste momento não se pode garantir ou negar a sua viabilidade». Refere por outro lado lado, que «é necessário dar maior conteúdo ao Gabinete de Promoção Comercial que funciona no âmbito da Feitoria de Portugal em Bangkok, o que, por exemplo, poderia ser feito contratando um funcionário hábil em problemas de importação e exportação, que a curto prazo, pudesse compilar elementos para um estudo estimativo das potencialidades.
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Com estes considerandos, quase tudo o que agora se possa dizer sobre o interesse  comercial dos tailandeses pelos produtos portugueses, não passa de mera especulação. Há sinais, contudo, que não enganam, e os resultados conseguidos pela cortiça e a penetração a nível de vinhos, indicam vias a seguir.
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Embaixador Mello Gouveia fala-me dos «mármores que vão de Portugal para a Itália e depois são reexportados para a Tailândia» e assinala, por outro lado, a necessidade de maior agressividade promocional, o que, por exemplo, está também a ser feito, com bom resultado, pela «Sogrape», que vende o «Mateus Rosé».
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Até agora essa agressividade não tem existido. O nosso interlocutor pensa, no entanto que pode vir a existir, e afirma que a Feitoria de Portugal, através dp seu Gabinete de Promoção Comercial dará todo o seu apoio logístico a quantos empresários a procurarem. Mello Gouveia diria, aliás que «alguns exportadores portugueses a caminho de Macau já aproveitam a passagem por Bangkok para tomarem contacto com as estruturas existentes», mas não são pelos vistos, poucos, e nem sequer muito determinados.
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O embaixador faria aliás, questão em deixar  a seguinte mensagem aos exportadores portugueses: «não tenham receio de dificuldades de comunicação! Venham individualmente, ou em grupo, mas não percam as oportunidades de tentar entrar neste mercado», embora com o cuidado de esclarecer que obviamente, o Gabinete de Promoção Comercial da Feitoria não pode nem deve substituir-se às próprias empresas, elas é que têm de assumir essa agressividade promocional, e, por outro lado, que não sou favorável às presenças esporádicas, mas a um trabalho continuado que obriga a um certo período inicial de estabilização e conhecimento do mercado.
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UM GRANDE INTERESSE PELA HISTÓRIA DOS PORTUGUESES
O embaixador Mello Gouveia chamar-me-ia a atenção, muito especial, para um documento exposto na Feitoria de Portugal. Quando em 1833, o Sião e os Estados Unidos da América do Norte fizeram um tratado, os actuais tailandeses especificaram um parágrafo em que se pode ler que «para ser válido este tratado tem de ser traduzido em chinês e português». Isto é, nas palavras do embaixador de Portugal «em meados do século 19, os portugueses eram chamados a dar o aval a documento de tal importância».
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Outro aspecto interessante  que me  contou, foi a rápida aceitação de um convite feito ao Príncipe herdeiro da Coroa Tailandesa para ir a Portugal. «Fiz o convite quando apresentei credenciais em Novembro de 1981, e a imediata aceitação dos seus pais, deu-me a ideia que era qualquer coisa não protocolar, algo que vinha do mais fundo do coração» - diz Mello Gouveia.
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Recorde-se, aliás, que os actuais soberanos da Tailândia estiveram em Portugal em 1960. Na referida exposição patente, depois do «Dia de Portugal» há algumas interessantes fotografias desse tempo, em que contrasta sobremodo o ar macambúzio dos então líderes portugueses – Américo Tomas e sua esposa Gertudes Tomás, António de Oliveira Salazar, e outros – com ar jovem do Rei Bhumibol Adulyadej e a beleza espectacular da Rainha Sirikit, que ainda hoje, 24 anos depois, é uma mulher extraordinariamente bela.
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QUANDO TAILANDESES REIVINDICAM ORIGEM PORTUGUESA
Falámos depois de Ayuthaya, onde  que, inicialmente o projecto que conta com o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian apenas previa a escavação das ruínas das três igrejas portuguesas em modo como, excedendo as espectativas começarem a surgir esqueletos que indubitavelmente pertenciam a portugueses.
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Agora Mello Gouveia explica-nos melhor, que «o mais difícil foi criar o plano de escavações, ganhar a confiança das autoridades tailandesas e conseguir o aval e o apoio da Gulbenkian». Depois, tudo foi fácil, já foram descobertos mais algumas dezenas de esqueletos, e a divulgação das primeiras descobertas teve tanto impacto que, como nos relata «já fui contactado pela Embaixada do Japão revelando o interesse das autoridades daquele país em dinamizar escavações semelhantes no «Campo Japonês» de Ayuthaya. Embora o «Campo Português» seja o mais antigo e, que tem ruínas mais visiveis, também os holandeses, os ingleses e japoneses tiveram «Campos» na antiga capital do Reino do Sião, que o embaiaxdor Mello Gouveia considera importante estudar.
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Mas o mais interessante foi quando contou que, «na minha última visita a Ayuthaya, encontrei vários tailandeses ali residentes, morfologicamente muito diferentes do tipo habitual, que vieram junto a mim reivindicar  a sua orígem portuguesa, o que tem significado que não deve ser escamoteado».
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Falou-se ainda de muita outra coisa. De Macau, da sua actualidade e da necessidade de preservar o Território como simbiose de culturas dos muitos documentos que tem, por classificar nas gavetas da sala: da facilidade com que as iniciativas culturais portuguesas são apoiadas pelos tailandeses, e de variadíssimos temas nacionais e internacionais.
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Fica-nos claramente, o convencimento de que fizemos apenas uma pré-entrevista, ao embaixador de Portugal na Tailândia, dr. José Eduardo de Mello Gouveia. Esperemos por outras oportunidades.
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P.S. - Embaixador Mello-Gouveia já não pertence ao número dos vivos. Faleceu em 16 de Novembro de 2012