quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

PAULA CRUZ: "ILUSTRE LUSA-DESCENDENTE NO REINO DO SIÃO"



Os avós de Paula Cruz, nasceram, no “Ban Portuguete” (Aldeia dos Portugueses), em Aiutaá. Seus pais e ela viram a luz do dia no portuguesíssimo, Bairro de Santa Cruz, em Thomburi; do lado oposto de Banguecoque e junto à margem direita do grande rio Chao Praiá.


A antiga capital do Reino do Sião, dos templos, budistas, forrados a folha de ouro,  numa noite, no princípio do mês de Abril, do ano de 1767, foi incendiada e pilhada pelas tropas invasoras do Reino do Pegú. 
.
Junto à margem do rio Chao Prya ( Chao Praiá), havia cerca de 250 anos uma comunidade luso-tailandesa tinha sido formada, num terreno de 2 quilómetros de comprimento e de trezentos metros de largura.  
.
Em absoluta paz, serena,  mais de duas mil almas, de mistura de sangue português e siamês foram assistidas, espiritualmente, pelos missionários do Padroado Português do Oriente, em três paróquias: S. Franscisco (dos Franciscanos) S. Domingos (dos Dominicanos) e a de S. Paulo (dos Jesuitas). 


Naquela terrível noite de Abril, entre gritos de dor os residentes siameses fogem apavorados, entre os arrozais e florestas, em várias direcções, para assim, se livrarem da soldadesca peguana. 
.
São vagas as informações em cima do número de pessoas que integravam a comunidade lusa-tailandesas no “Ban Portuguete” mas pela existência, e dimensão da área, de três igreja, seriam mais de duas mil almas. 
.
Segundo relatos, ainda hoje, de residentes, católicos, tailandeses (que vivem e morrem no Ban Portuguete) de geração-em-geração ficou, na memória, o facto de que a comunidade luso-tailandesa e a chinesa foram as últimas a renderem-se ao exército do Pegú. 
.
E para que tal tivesse acontecido uma meia dúzia de soldados, birmaneses, entraram no “Ban Portuguete” hasteando uma bandeira branca, para negociarem a rendiçao e, com eles a mensagem do comandante de que nada de mal seria feito aos residentes. 


Comunidades do ocidente, além da portuguesa, chinesa, japonesa e malaia eram diminutas. Havia uma, pouco numerosa, de origem holandesa cuja dimensão da área (actualmente em escavações) a descoberto,  seriam de pouco mais de umas cinquentas pessoas que se empregavam nos armazéns da Companhia das Indías Orientais, na administração e na carga e descarga da mercancia chegada da Batávia (Indonésia) ou a comprada no Reino do Sião, principalmente a prata  do Japão e vendida pela comunidade japonesa para despachar e mercanciar nos portos da Europa.
.
Outro reduzido número de europeus, residentes, eram mercadores  e com as suas residências e armazéns na orla dos rios: Chao Praiá, Pasak e Lopburi é de prever que tenham fugido, em embarcações, para Banguecoque, na altura do pandemónio e do clamor das gentes que viam membros de suas famílias a serem assassinadas e os haveres extinguidos pelo fogo ou roubados,  no meio daquela orgia incendiária.


As comunidades portuguesa, chinesa, japonesa e a Malaia são núcleos populacionais, étnicos, já por séculos, estabelecidas em Aiutaá, nutrem a simpatia dos Reis do Sião. 
.
Os monarcas de Aiutaá são tolerantes à propagação de religiões, mesmo que estas não se encaixassem nos designíos da budista  e podem os membros das comunidades, praticá-las livremente ou  mesmo os siameses optaram por outra em vez do budismo. 
.
A comunidade japonesa, os seus descendentes foram os cristãos perseguidos pelos samurais do Imperador, japonês e os seguidores de Francisco Xavier de quando o Apóstulo da Índia, introduziu, a partir de 1549 o catolicismo no Japão. Instalaram-se do lado oposto, do Ban Portuguete, na outra margem do Chao Praiá cerca de uns 400 cristãos.


Anos mais tarde o lugar toma o nome de Yamada, um General, que fugido, também do japão, por motivos políticos, exilado em Aiutaá, que grangeia as simpatias do monarca siamês e torna-se um mercador importante. Não muito distante da comunidade lusa-tailandesa e em direcção ao norte, quedava-se a comunidade malaia que professava a religião muçulmana. 
.
As tropas, invasoras, peguanas depois dos templos budistas ficaram só com as paredes os telhados no chão, profanadas as imagens;  pilhadas outras, fundidas em ouro puro e acrescentado toneladas, deste metal precioso, que os templos, sagrados, possuia e ainda  outro, na posse dos siameses, abandonaram Aiutaá para o seu país com o produto do saque. 


No meio daquela saga destruidora, nada escapa aos incendiários, inclusivamente, o fogo consome  toda a literatura; os arquivos históricos siameses que apenas ficaram uns poucos documentos, expostos, presentemente, no  Museu Nacional de Banguecoque e nos Arquivos Nacionais algumas estantes, lacadas, foram, pequenas bibliotecas particulares de livros.
.
No Ban Portuguete a comunidade lusa-descendente, que sempre ali tenha vivido em plena harmonia, os homens ocupavam-se nas diversas artes, no comércio,  servindo o Rei no palácio como guardas reais ou noutros serviços. 


As mulheres, a maior parte, de sangue e de raízes de lusas ocupavam-se na criação dos seus filhos; no cultivo dos campos e hortas na proximidade do Ban Portuguete  onde crescia o arroz e os vegetais para alimentação dos seus.
.
Durante a invasão, peguana, Aiutaá está despida de gente e de bens. Membros da família real mortos e outros que fugiram da hecatombe. As comunidades: chinesa, malaia, portuguesa e japonesas estão nos seus territórios, sem terem sido molestados, fazem contas à vida como seria  o próximo futuro. 


A ex-capital do Reino do Sião com familias dizimadas, outras em debandada para as terras das províncias de Lopburi, Saraburi e mais para o nordeste e, distanciando-se, assim, da fronteira, que demarca, o Sião com o Pegú. Com isto para se protegerem de novos ataques dos peguanos. A cidade, que um cronista, francês informou Luis XIV que Aiutaá possuia mais ouro que a França. 
.
As cinzas dos escombros ainda fumegam, quando se levanta o General Thaksin filho de pai chinês e mãe siamesa e, promete a si próprio, que irá, reunificar os siameses; dar caça aos peguanos e expulsá-los do Reino do Sião. Thaksin, reorganiza os poucos soldados siameses, que restaram da invasão (possivelmente com residentes estrangeiros)  e começa a luta sem tréguas puxando os birmaneses para o seu território.

As lutas de Thaksin contra os peguanos ainda não chegaram ao fim. Gentes fugidas, residentes em Aiutaá e destruída durante a invasão, estão de regresso.
.
O grande General além de um excelente e arrojado comandante das forças militares, tem um poder, extraordinário, de organização das massas cujas estas são o seu Povo e as quatro comunidades estrangeiras que sofreram as sevícias da soldadesca do exército peguano. Aiutaá é para Thaksin “capital queimada” que não pretente, por ora, reconstrui-la. 
.
Não sua mente, existe: reconstrução e Aiutaá e a sua glória, depois da derrota, ficará para mais tarde. As invasões e derrota de batalhas também, um dia, serão vitória e não menos glórias!
.
Thaksin escolheu Thomburi, como o melhor ponto estratégico para  se defender de previsíveis invasões dos peguanos por terra e pelo lado da foz do rio Chao Praiá que dista a cerca de uns 15 quilómetros.
.
Por lado terreste, Thaksin está defendido, por uma faixa estreita do território, dos contra-ataques, dos peguanos entrarem no Sião pela fronteira dos Quatro Pagodes (ao oeste na província da Kanchanaburi) e o controlo absoluto de se defender-se dos juncos, armados, na passagem estreita do rio e a poucos metros das bocas de fogo, instaladas, entre ameias portugueses, no fortim de Thomburi.


As tropas do General Thaksin continuam a empurrar os peguanos, das terras do Siamesas. Thaksin pela sua frente tem a espinhosa missão de instalar as populações desalojadas e despojadas dos bens possuídos, em Aiutaá. A comunidade lusa-tailandesa encontra-se em absoluta extrema pobreza.  
.
Deslocam-se do “Ban Portuguete” em barcos siameses, com a protecção  de Thaksin. Oferece-lhes uma parcela de terreno, para que ali começassem vida nova. 
.
Além, da generosa e valiosa dávida oferece-lhe, também, a madeira para que construissem as suas casas para habitarem e igreja para a continuação, da prática da religião católica, a que por tradição já professavam no Ban Portuguete por mais de dois séculos. Ao bairro é lhe dado o nome de Santa Cruz. 
.
A designação é o símbolo da Cruz e o lenho que carregaram de Aiutaá e o recomeçar, da estaca zero, nova vida em Thomburi. Os nomes  comunidade são integralmente portugueses. Católicos de pureza extrema e regem-se pela lei, sagrada, dos 10 Mandamentes da Santa Madre Igreja. 
.
Ajudam-se mutuamente e vivem numa comunidade onde a palavra de ordem é a união  (ainda hoje assim é): “um por todos e todos por um”. 
.
Os homens constroiem o bairro para a vivência da comunidade; as mulheres dedicam-se à confecção do “FoiTong” (os fios de ovos de orígem portuguesas e o doce mais popular em toda a Tailândia), e os queques, também portugueses (já fabricados em Aiutaá) e que nos dias hoje, continuam a ser produzidos no sistema tradicional introduzido há quase 500 anos no “Ban Portuguete”. 


Os queques são cozidos em fornos de cavacas e moldados e formas, onduladas, de lata. A “fabriqueta” dos queques, situa-se numa viela estreitinha do bairro, no chão de uma casa construida de madeira de teca  tem passado de geração em geração, desde o final do século XVIII e até hoje, o fabrico  continua manter-se nas mãos da mesma família.  
.
No Bairro de Santa Cruz nasceu a Paula Cruz com descendência, portuguesa, cujo os seus antepassados, a família Cruz, residente no Bang Portuguete, fora, também, vitíma da caida da capital.


Entretanto, depois de analisar, as fotos de Paula Cruz, o seu rosto não me restam dúvidas que a bela senhora é lusa-descendente e dá-me uma certa convicção que é de orígem, étnica, macaense. Na Bairro de Santa Cruz, nos anos de 1868, nasceu uma verdadeira história de amor entre Paula Cruz  Albert Jucker de nacionalidade suiça.
.
Idílio, absolutamente, desconhecida dos portugueses que vale a pena de ser contada e, meditarmos, sobre a “Alma Lusa” e os impulsos do coração, enorme, que os portugueses possuiem e quando assimilados a pessoas de outras etnias cujo o sangue português lhes  corre nas veias.
.
Albert Jucker um jovem Suiço, nascido de uma família de média classe, com um pequeno estabelecimento na povoação de Winthur, depois de ter concluido a instrução primária e a secundária, partiu para Paris com 19 anos.

.
Empregou-se numa empresa especializada com negócios na Indochina e com uma filial em Saigão. Com 22 anos e em 1866, a empresa francesa envia-o para Banguecoque como assistente do director-geral da filial que acabara de inaugurar na capital siamesa. 
.
Seis anos depois, em 1872, Albert Jucker de sociedade com um primo que mandou  vir de Winthur fundam a Jucker & Sigg & Cª . Juntam-se mais dois jovens, que Albert manda vir, da Suiça e a empresa em poucos anos volta na maior dentro do Reino do Sião.
.
A empresa Jucker & Sigg & Cª está sitiada junto ao Bairro de Santa Cruz e nas redondezas os grandes armazens onde as mercadorias era guardadas as importadas ou as para exportar. 
.
O jovem Albert Jucker viva a paredes meias do Bairro de Santa Cruz e no seu quotidiano de ida para o escritória e regresso para casa, pelo seu pé (os automóveis ainda não tinham, sido inventados e chegados ao Reino do Sião) uma jovem luso-tailandesa, por quem se cruzava nesse vai-e-vém, a sua beleza começou a impressionar o jovem Albert e, amá-la em silêncio.
.
Paula Cruz, lapidava o seu ser, na Escola do Bairro Português de Santa Cruz, cujos mestres eram padres missionários do Padroado Português do Oriente. 
.
Albert Jucker na flor da sua idade e um homem de negócios de retumbante sucesso, como todos os jovens, aspiram formar uma família e ter filhos. Em Maio de 1868 o Alberto com a idade de 24 anos casa com a bela, lusa-tailandesa, Paula Cruz, na Igreja de Santa Cruz.


Da união matrimonial Paula Cruz brinda seu marido com três filhos e duas filhas. A cidade de Banguecoque no século XIX era o cemitério dos europeus. A cólera a malária e outras doenças tropicais eram moléstias comuns que dizimavam muita população quer fosse esta siamesa ou europeia. 
.
Os banguecoquianos viviam sob o terror das pestes. Gente, ainda com sopro de vida, os familiares aterrorizados, é lançada ao Chao Praiá. Outra,  apavorada, deixáva-a, agonizante, nas casas construídas de canas de bambú à espera do último suspiro.
.
Acodem a esssa pobre gente os missionários adventistas, americanos oferecendo-lhe palavras de conforto. Morrem assim milhares de siameses na época pestosa e com eles alguns dos poucos estrangeiros que viviam na nova capital do Sião, erguida no pântano e ao nível da água do mar. 
.
Albert Jucker, que tinha formado um grupo empresarial, gigante, na capital do Sião morre, vitimado, pela cólera em 1886, com 42 anos!
.
Deixa Paula Cruz com cinco filhos e uma enorme fortuna. Paula Cruz corajosamente e sem desânimo coloca-se à frente e administra todas as empresas herdadas do seu marido.
.
Partiu para a Suiça, e para Winterthur, a terra onde nasceu o seu marido Albert Jucker,  talvez ali fique e educar os seus cinco filhos!
.
Paula Cruz não se adapta aos hábitos e o modo de vida da Suiça. As saudades do Bairro de Santa de Cruz mortifica a alma da jovem viúva.

Regressa ao Reino do Sião e deixa os seus filhos em Winterthur, entregues a tutores, para seguirem os estudos nos moldes da europeus. 
.
Paula Cruz, uma visionária, bem sabia que as suas numerosas empresas estabelecidas, no Reino do Sião, já virados para os grandes negócios com o ocidente necessitam, no futuro, que os seus cinco filhos as venham administrar. 
.
Paula Cruz, além de admistrar o grupo  Jucker & Sigg & Cª é personalidade feminina, grada, na Corte do Rei Chulalongkorn, onde a lusa-tailandesa é a principal fornecedora de peças finas de joalharia para a rainha e as princesas reais. 
.
Foi agraciada pelo Rei Chulalongkorn com o título, real “Mae Phan” assim como já tinha, o monarca siamês, galardoado o seu marido Alberto Jucker com título  honorífico: “Cavallier” e acreditá-lo como Cônsul Honorário de Itália.
.
O Rei Chulalongkorn na sua visita à Europa  à 1907,  numa altura que Paula Cruz se encontrava na Suiça, o monarca, visitou este país e deseja avistar-se e cumprimentar “Mae Phan”. 
.
O Encontro realizou-se em Zurich.Paula Cruz é a primeira lusa-tailandesa, católica a ser recebida por um Papa e teve uma audiência com Pio X no Vaticano. Paula Cruz, já em idade avançada, reparte o seu tempo: uns meses em Banguecoque e outros na Suiça. 
 
Os seus filhos tomam conta da administração do Grupo Jucker & Sigg & Cª , em Banguecoque e das filiais espalhadas pelo mundo.
.
Paula Cruz de idade avançada e de uma vida feliz de tragédia e glória decide passar o resto da vida que tem pela frente, na seu confortável palacete, na Rua Surawongse, a menos de meia légua do Consulado de Portugal. 
.
Na altura sob a gerència do Comendador Goffred Bovo, e  cônsul de Itália de que  por várias vezes, de 1920 a 1934 é lhe entregue a administração da representação portuguesa no Reio do Sião! 
.
A Casa de Portugal em Banguecoque está nas mãos de um estrangeiro, os interesse portugueses abandonados e os luso-tailandeses igualmente... Paula Cruz, uma grande mulher, luso-tailandesa, morre na paz serena ao 84 anos em 1934. 
.
Não sei onde repousam os seus restos mortais. Penso que foram transladados para o novo Cemiterio de Nakhon Phaton, a uns 30 quilómetros de Banguecoque, propriedade da Santa Sé, que deu lugar aos cemitérios, católicos dos bairros portugueses; o da Silom Road, onde eram sepultados os católicos, de várias nacionalidades e residentes na capitão do Sião. 
.
Terrenos, sagrados, propriedades dos mortos que neles foram dormir a eternidade foram sujeitos à profanação e à pilhagem, desses espaços para construir residências de padres e freiras, campos para a prática de desportos, cuja obra é: 
Da Divina Graça do Espirito Santo dos Apóstulos de Sua Santidade o Papa Sentado num Cadeirão de Oiro no Vaticano!Amen

 
À margen. Graças a uma brochura editada pela Berli Jucker (nome que substitui a Jucker & Siggs & Cª) em 1982 e, durante as festividades dos 200 anos da existência de Banguecoque, que mão amiga me fez chegar. 
.
Durante mais de 20 anos dediquei parte da minha vida a investigar a história  do passado de Portugal no Reino do Sião. 
.
A história de Paula Cruz, assim como a da lusa-japonesa Maria Guiomar de Pina , apaixonam-me e merecem todo o meu cuidado em continuar a investigar as suas obras, dá-las a conhecer para que não se perca a história no correr do  tempo. 
.
Porém na “papelada” velha, dos arquivos da Embaixada de Portugal (infelizmente muito mal cuidada e preservada no século XIX e no XX)  nunca encontrei, referênncia que fosse, no livro de Assentos de Nascimentos, Casamento e Óbitos que me dessem conta de Paula Cruz. 
.
Penso que todos os registos de nascimento, baptismo e casamento e até do óbito, foram efectuados na Paróquia do Bairro de Santa Cruz e já seguiram (não me restando dúvidas) para os arquivos do Vaticano, onde neles é missão impossível penetrar nesse santuário político e eclesiástico.
.

José Martins/Banguecoque 2006