segunda-feira, 15 de setembro de 2014

HISTÓRIA DISPERSA



COLÓNIAS DE POPULAÇÃO
Feitoria Portuguesa no Reino de Siam
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Não andaremos longe da verdade, afirmando que em Portugal, muita gente ignora que possuímos em Bangkok desde 1786, territórios oferecidos por S.M. Magnífica, o Rei de Siam.
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Não tendo a principio limites definidos, esta nossa possessão ocupa uma parte da margem esquerda do rio Menam-Chao Phry, fixando-se hoje numa área, de norte a sul, em 114 metros de um lado e 122 de outro e de largura, ao norte 88 metros e no extremo sul 106.
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Em 1833, quando a superfície da concessão portuguesa era muito maior, foi nomeado nosso cônsul, um tal Marcelino de Araújo Rosa, natural de Macau, que, tendo em pouca conta os bens nacionaes, dispôs de uma parte d´eles a favor de uma mulher siamesa com quem viveu!
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Tendo esta contrahido uma dívida em jogo, diz-se, que a não podendo satisfazer, hipotecara por 60 dólares à missão americana os terrenos que não lhe pertencia, os quaes nunca mais foram restituídos. E a nossa possessão de Bangkok, na reduzida área a que hoje se restringe, e que fica situada a 26 milhas da capital, do reino, que foi dado o nome de Feitoria Portugueza.
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Durante muito tempo esteve ela sob a dependência do governo de Macau, que nomeava para Bangkok os cônsules, até 1887, passando a ser de carreira o consulado. O Ministro dos Negócios Estrangeiros começou a ter direta ingerência.
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A Feitoria é em terreno baixo, e a principio constava de uma casita de olas, coberta com folhas de coqueiro. Estabeleceram-se ali algumas docas, que produziam um pequeno rendimento.
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Em 1859 começaram a ser alugados os terrenos da feitoria a subditos estrangeiros, que foram construindo casas e armazens, passando tudo a ser propriedade do Estado, findos os arrendamentos.
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Os cônsules, com pequenos rendimentos de que dispunham, edificaram a residência e uma cadeia consular, continuando a arrendar a maior parte dos terrenos a negociantes europeus. Estes terrenos, divididos em lotes, rendem aproximadamente 18:000 ticais, mas de mil libras.
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Os interesses portuguezes no Siam  e a importância económica e política da feitoria, fizeram com que o consul-geral fosse levado à categoria de Encarregado de Negócios.
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Lamentavelmente foi que, durante tão longos anos descurassemos o valor da generosa concessão do rei siamez e tão pouco tenhamos sabido aproveitar a influencia que ali tivemos, como nenhum outro povo da Europa.
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A carta autografa de 28 de Dezembro de 1786, em que a el-rei de Portugal era oferecido o terreno para que subditos portuguezes podessem construir uma egreja, terem o seu culto e os sacerdotes, é um documento que prova bem essa influencia, que não quisemos frutificar. 
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E, todavia, a colonia portugueza, por todo o reino de Siam é considerável, sob qualquer aspéto, mas vive muito fraccionada , havendo necessidade de coligar todos os seus esforços no interesse proprio e no do nosso Paíz.
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Não é dificil tarefa.
Ainda há poucos mezes, a chegada dos aviadores a Bangkok fez reunir e vibrar o coração de tantos portuguezes que trabalham ali isoladamente, nunca esquecendo, porém, da Mãe Pátria, á vista de tanta recordação que permanentemente lhes retrata o nosso passado.
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Pois não fômos nós os primeiros que do Ocidente ali fômos e auxiliamos os siamezes nas guerras em que andaram empenhados contra o rei do Pegú e contra os birmanezes?
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As foratelezas à entrada do rio Menam-Chow-Prya construídas por nós e reformadas posteriormente, lá estão a atesta-lo. Afirmam até alguns escritores estrangeiros que o nome de Siam fôra dado ao reino pelos portuguezes, porque o seu verdadeiro nome era Muang-Thae, país dos homens livres. Ao passo que Siam proviria de Sajam, raça escura.
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As numerosas expedições que foram a Siam, os comerciantes e aventureiros portugueses que ali se estabeleceram é que deram orígem a numerosas famílias que se constituiram, deixando descendencia que ainda hoje existe.
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Sentiram estes portuguezes a benéfica influencia dos missionários seus compatriotas, que acudiam ao seu chamamento, idos de Macau, para fundarem a primeira igreja católica e confraria de Nossa Senhora do Roasário, mas, os missionários portuguezes foram substituidos por religiosos francezes e, assim se perdeu o melhor vehiculo que trazia tão solidademente reunida a comunidade portugueza de Siam, ora dispersa, e que lhe sabia imprimir um cunho nacional, a par de outras comunidades dirigidas espiritualmente por missionários estrangeiros.
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Faz pena realmente pensar e ver que o dominio que as congregações estrangeiras teem em todo reino de Siam podia estar nas mãos dos nossos padres.
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A antiga egreja portugueza foi destruida  por incendio e em seu lugar, um novo templo, magnifico e grandioso, foi levantado, principalmente com o subsidio do governo francez.
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Haveria meio de, por qualquer fórma, estimular o animo de todos os colonos portuguezes, unil-os por  vinculos de interesses comuns e despertar-lhes o sentimento patriotico, mostrando-lhes a importancia da colonia, compenetrados todos de que unidos, serão uma fõrça?
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Sem duvida que alguma coisa ainda é dado fazer n´este sentido, desde que o Governo Portuguez, principalmente, esteja na disposição de atuar. Os consules portuguezes de Bangkok quando provem bem, não devem ser afastados dos seus logares, seja qual fõr a razão, antes de um longo periodo de permanencia em que possam ter conhecimento absoluto do que interessa a Portugal e aos seus subditos n´aquelas paragens.
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Se o clima não é bom, de-se-lhes qualquer compensação vantajosa e dirige-se o funcionario a ir retemperar-se a um paiz, onde o clima seja melhor. Faça-se com que o porto seja visitado, de ves enquando, por um navio da nossa nacionalidade e permita-se que junto do consulado funcione uma escola, onde a nossa língua possa ser ensinada. Esta escola deveria ser, de preferencia entregue a um missonario portuguez.
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Veriamos, então, como até o nosso comércio metropolitano lucraria com tão acertadas medidas, pois julgamos desnecessario encarecer os produtos que de lá poderiamos diretamente importar. E os nossos vinhos e conservas fariam boa concorrencia aos qua ali são colocados por outros países europeus.
ARTHUR TAMAGNINI

P.S. Arthur Tamagnini foi Governador de Macau. Saber mais clique http://cronicasmacaenses.com/2013/02/03/tamagnini-barbosa-3-vezes-governador-de-macau/
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Este documento não tem data, mas tudo nos indica escrito no ano de 1924, dado que o autor se refere aos aviadores portugueses, cuja passagem de Sarmento de Beire e Brito Pais, pilotando o avião Pátria, aterrou em Banguecoque no dia 9 de Junho de 1924 a caminho de Macau.