quinta-feira, 3 de abril de 2014

PORTUGAL E A TAILÂNDIA-COMÉRCIO DE VINHOS DESDE HÁ MAIS DE MEIO SÉCULO

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O comércio entre Portugal e a Tailândia, na nova capital, Banguecoque, fundada em 1782, nunca atingiu um significado importante. 
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Os cônsules também não se deram, por aí além, ao cuidado de o divulgar. Assim Portugal depois de se ter instalado no terreno, aonde hoje se encontra a chancelaria e a residência dos embaixadores, doado pelo Rei do Sião, os representantes, ocupavam-se no serviço de chancelaria em favor da comunidade portuguesa, residente e dos "protegidos", cujos estes, de etnia chinesa, chegavam a Banguecoque, com um documento de viagem emitido em Macau que lhes dava a concessão de se estabelecerem na capital do Reino do Sião com o estatuto de "protegido" sob a jurisdição da Feitoria de Portugal. 
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Protegidos chineses chegados a Banguecoque em meados do século XIX e (supomos) na década de oitenta não atingiria o meio milhar, enquanto o Reino Unido, importou, através de Hong Kong, uns largos milhares.  


Era espécie de uma escravatura, camuflada, em que os consulados estrangeiros se aproveitavam dos benefícios do pagamento dos emolumentos, nos serviços consulares de que essa gente necessitava. 
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Esses protegidos, dentro do reino do Sião, teriam a protecção total, dos consulados e se abrissem uma "tenda" para vender arroz ou vinho deste grão, outro negócio, o alvará ser-lhe-ía emitido pelo seu consulado. Se prevaricassem e detidos pela polícia siamesa seriam levados, por esta, ao consulado que os protegia julgados no tribunal consular e presos (conforme o crime) na cadeia do posto. 
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As penas aplicadas no Reino do Sião eram demasidamente pesadas e os consulados estrangeiros ou para proteger a sua gente ou para aumentar as receitas consulares, houve um Tratado entre o Sião em que um dos instrumentos seria o de chamar a si a protecção dos seus súbditos. Porém o Rei do Sião, para desenvolver o seu reino necessitava a presença de gentes da Europa e dos estados Unidos e não se teria oposto a que as representações estrangeiras tomassem conta dos seus nacionais. Mais tarde S.M. o Rei do Sião retirou esse privilégio aos consulados estrangeiros e chama a si a jurisdição dos residentes.
Mas voltando à continuação do que iniciamos acima sobre o comércio de Portugal na Tailândia, depois de termos consultado vários documentos antigos, não encontramos nenhum que nos informasse de transacções, de vulto, comerciais entre Portugal e o reino do Sião. 
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Possivelmente teriam havido algumas, mas em pequena escala, entre o Sião e Macau. Mais tarde e já depois de meados do século passado, existiu a venda de arroz tailandês ao consulado de Portugal, para consumo da população de Goa.
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Como não existia comércio e dada a extensão do terreno doado a Portugal (em finais do século XVII e oficializado em 1820), os cônsules começaram arrendar parcelas a chineses e empresas estrangeiras onde construiram armazéns. 
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Recebiam as rendas; enviando as receitas para a Repartição de Fazenda em Lisboa ou as utilizavam (juntando às receitas de emolumentos cobrados), para fazer face às despezas do funcionamento do consulado.  


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O MNE, pouca importância dispensava ao Consulado de Banguecoque e chegou aventar-se (na década de quarenta do século passado) em vender o terreno e o palacete (residência dos embaixadores de Portugal), uma peça única da arquitectura Sino/Portuguesa, em Banguecoque e construído, por volta de 1860 e 1865. 
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O Consulado por dezenas de anos é uma "peça" morta. Muda periódicamente de cônsules; tem uma gerência de Luis Leopoldo Flores por cerca de 17 anos (1900 a 1917), emprega no consulado filho, sobrinho e a clã Flores ocupa-se em obras, outras " mesquinhices", onde se reporta tudo, miudinho e nunca o interesse de divulgar o comércio de Portugal, mesmo que fosse, a venda de vinhos de mesa, do Porto e da Madeira; latas de sardinha e de atum em conserva. 
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O Flores morre e o Consulado, fica um orfão, hoje tem um representante português, noutro dia um estrangeiro e segue assim até que o Dr. Joaquim Campos toma conta da gerência em 1935 e que viria a falecer dez anos (1945) depois. 
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O Dr. Campos fez obra notável em Banguecoque, avivou a história de Portugal no reino do Sião, morreu muito novo quando ainda teria muito para oferecer. 
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Dr. Campos teria, tentado introduzir os vinhos portugueses na Tailândia, em 1938, de que não temos cópia de documentos para que nos desse a oportunidade de aqui inserir. 
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Depois de uma gerência interina de José Ramos (que mais tarde seria acusado pelo Encarregado de Negócios, Dr. Sebastião de Castello-Branco, de vender passaportes a 60 contos, o exemplar, a chineses 1962/1964), durante dois anos até à chegada do Cônsul de 1ª classe Dr. José Ferreira Pedroso de Lima em 1947. 
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O novo cônsul pretende introduzir os vinhos portugueses no mercado e seguir, com isto, o propósito do falecido Dr. Joaquim Campos. Contacta o Instituto do Vinho do Porto e as maiores empresas exportadoras de vinhos do Porto, da Madeira e de mesa. 
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Dá conta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros do que está fazendo na promoção dos vinhos. Entretanto passados dois anos é chamado em serviço à Secretaria de Estado dos Estrangeiros e assume a gerência do posto o Cônsul de 3ª classe o Dr. Humberto Alves Morgado (em comissão de serviço).
 
Dr. Morgado continua a obra de promoção de vinhos, deixada pelo Dr. Pedroso Lima e num longo ofício informava a Secretaria de Estado: 
"  (que na Tailândia o número de consumidores de vinhos era reduzido e os vinhos mais conhecidos eram os franceses, consumidos pela comunidade residente, estrangeira, que não ia além de duas mil pessoas e que pouquíssimos tailandeses bebiam vinho". 
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Entrou em contacto com a "Junta Nacional Vinho" e informa este departamento que para o vinho português entrar no mercado tailandês era necessário o investimento em publicidade nos jornais locais. A Junta Nacional do Vinho não mostrou interesse algum e informa que o vinho português raramente penetrou no mercado do Extremo-Oriente. 
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Num outro ofício informava o Ministério dos Negócios Estrangeiros, em LIsboa, a quantidade de vinhos portugueses que a Tailândia tinha importado desde 1947 a 1950: do Porto (em 3 anos) 365 caixas e da Madeira 25. Humberto Alves Morgada deixa o posto em 1950. 
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Durante seis anos o Consulado de Portugal tem como gerentes cinco diplomatas: Vasco Vieira Garin (por duas vezes), Fernando Magalhães da Cruz, José dos Santos Taveira e Fernando Delfim Maria Lopes Vieira.  
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O clima tropical, a distância e juntando as más condições, precárias, de vivência não seduzia os diplomatas portugueses. Seria por isso que o consulado esteve sob a gerência de cônsules e funcionários, naturais das ex-possessões, portuguesas, da Índia. (6)
Em 1956 assume a gerência do consulado como Encarregado de Negócios o Dr. Albertino dos Santos Martins que permanece por dois anos no posto. Não se conhece que tenha havido interesse em promover os vinhos portugueses os quatro gerentes acima mencionados. 
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O Dr. Albertino dos Santos e porque deveria ter lido a documentação em cima da promoção de vinhos, pelos seus antecessores, mexe no assunto e volta a contactar vários exportadores portugueses. 
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O seu projecto é ambiciosao e vem-lhe à mente tentar que as frotas, navais, militares, americanas no mar e bases do Oriente estivessem abastecidas suas despensas vinhos portugueses. Em Banguecoque existe um armazém-geral "American Naval Exchange Store" e pensa, o cônsul-geral de Portugal que seria um óptimo cliente de vinhos do Porto e de mesa. 
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Aproveita-se do seu estatuto de diplomata e representante do Governo Português em Banguecoque e um dia encontrou-se com um seu colega, diplomata, da Embaixada dos Estados Unidos, o sr. James R. Falzone e solicita-lhe a sua influência perante o gerente do armazém, sr. Alan Rauch, para que encomendasse vinhos de Portugal. 
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O sr. Falzone interessou-se pelo caso e em 6 de Fevereiro de 1958, enviou-lhe uma simpática carta onde o informava que Alan Rauch não estava autorizado a fazer compras em Banguecoque.  (7)
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As compras eram efectuadas nas Filipinas. Para ali, se deveriam dirigir, os exportadores de vinhos portugueses e contactar: "U.S. Naval Exchange - U.S. Naval Training Station - Sangley Point - Cavite, Luzon - P.I".
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Recomendava que as associações do comércio de vinhos, portugueses, deveriam anexar, junto à carta de 
apresentação, toda a informação possível e incluir catálogos. A propaganda e encomendas de vinhos portuguesa fica pelo caminho. 
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Em Banguecoque, havia de facto, vinho do Porto, mas o generoso não chegava de Portugal, mas engarrafado no Reino Unido que depois o exportava para o seu império colonial e outros países onde se incluia o Reino do Sião. Pensavam assim, em Banguecoque, os consumidores, que o Vinho do Porto era das vinhas britânicas e não das de Portugal. 
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O Reino Unido, era o maior cliente de vinho do Porto de Portugal e consumia-o desde meados do século XVIII, seria depois incrementado pela "Casa Ferreirinha", apresentando-se neste texto, o documento de embarque, do carregamento de 100 pipas, com destino a Londres, exportadas em 1816 pelo António Bernardo Pereira, tio da Dona Antónia Ferreira que viria, mais tarde, a fundar a "Casa Ferreirinha". O vinho do Porto, onde se incluia o "quinado" (especialmente o Ferreirinha) era famoso nos climas tropicais e recomendado pelos médicos para evitar a "malária". 
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O "quinado", tinha o nome muito similar aos comprimidos de "quinino" para curar o evitar a malária e outras maleitas, nos climas tropicais e na Europa. A publicidade e a colocação do vinho português fica pelo caminho, por cerca de 24 anos, embora houvessem umas caixas na garrafeira do chefe do posto para oferecer aos seus convidados. 
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Mas durante este largo interregno, agora o vinho do Porto já não chegava do engarrafado no Reino Unido, mas directamente de Portugal. 
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Sem grande quantidade, era importado por empresas tailandesas e multinacionais que vendiam todo o género de bebidas, já internacionalmente, conhecidas. 


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No consulado do Embaixador Mello-Gouveia, a SOGRAPE - Vinhos de Portugal, um seu representante, visitava de tempos a tempos Banguecoque e sempre bem recebido por Mello Gouveia e consegue penetrar no mercado da Tailândia e um representante na capital tailandesa. 
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O "Matéus Rosé" já mundialmente conhecido está nos "bottles stores" de toda a cidade (as grandes superfícies viriam depois da década noventa, século passado) e, devido ao interesse que a SOGRAPE nutria pelo mercado tailandês oferecia, umas caixas de vinho, gratuitamente, à missão diplomática de Banguecoque para ser oferecido aos convidados nas recepções ou eventos culturais. 
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Mesas com cobertura de azulejos sempre cheias de garrafas e cada convidado se deliciasse, conforme a vontade, de vinho Grão Vasco, Matéus Rosé e outros de boa "cepa". Entretanto o embaixador Mello Gouveia partiu do posto e foi assumir a gerência da Embaixada de Portugal em Tóquio e o novo embaixador Castello-Branco, não viria a encomendar vinhos à SOGRAPE. 
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Um dia a empresa entrou em contacto com o embaixador Castello-Branco e perguntou-lhe qual o motivo porque a embaixada não estava a encomendar vinhos à sua empresa. Perentóriamente, o embaixador respondeu-lhe que o "insípido Matéus Rosé não chegava à sua mesa!"  
 
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 Aquela resposta foi ofender a SOGRAPE e durante sete anos não mais entrou uma garrafa que fosse da SOGRAPE na missão, tão-pouco a visita, de cortesia, do seu representante. 
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O embaixador Castello Branco começou a fazer encomendas a uma empresa de Lisboa "Vinhos de Selecção" de onde partiam, para Banguecoque, os melhores produzidos em Portugal, inclusivamente o "Barca Velha". 
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De tempos a tempos, expedidas para Banguecoque, razoáveis quantidades de excelente "pinga", armazenado num quarto da Secção Consular e vendido a seus homólogos, que mandavam à chancelaria seus motoristas carregar caixas. O "Barca Velha" era vendido por 550 bahts que na altura seriam uns 25 dólares americanos. 
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Não deixaremos de aqui frisar que num Natal lhe pedimos que nos vendesse uma garrafa de "Barca Velha" para a nossa ceia de consoada e desde logo nos informou, o embaixador Castello-Branco, que teríamos de a pagar ao preço que as vendia para fora. 
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Nós sabendo o preço que o vinho tinha custado (menos de metade do preço) desistimos da compra de uma garrafa, que bem poderia ser oferecida a um seu subordinado como uma "boroa" de Natal.  Em fim eram estas "misérias humanas" do embaixador Castello-Branco. 
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Com a chegada do embaixador Mesquita de Brito em Abril de 1995 (já a tratarmos dos assuntos comerciais da embaixada), comunicamos com a SOGRAPE e conseguimos aproximar a empresa à embaixada. 
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Fomos informados que o Director de Exportação e o novo vendedor para Ásia e Pacífico Dr. Júlio Martins (com quem lidamos vários anos), chegariam, próximamente, a Banguecoque e com o pedido de lhe reservarmos quarto em hotel. 
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No dia anunciado da chegada, no nosso velho Volvo de 22 anos, fomos buscar os dois representantes à saída do avião e transportados para o Hotel Royal Orchid Sheraton, a portas com a Embaixada de Portugal. Haveria toda a vantagem nossa em os apresentarmos ao embaixador Mesquita de Brito. 
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Foram recebidos no Salão Nobre da Residência e as pazes estão feitas entre a embaixada de Portugal em Banguecoque e a SOGRAPE. Desde logo apresentamos aos dois representantes os projectos que tínhamos em mente de efectuar provas de vinhos portugueses nos hoteis de Banguecoque. O Director de Exportações se coloca na disponibilidade de contribuir com vinhos para essas provas. 
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E quando o informei que a embaixada estaria nos bazares de caridade da Cruz Vermelha Internacional com produtos portugueses logo, naquele instante, nos ofereceu 20 caixas de Matéus Rosé (240 garrafas) para serem vendidas e o produto reverter para a instituição de caridade. 
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Durante as encomendas, anuais, de 1995 a 2002, consulados do embaixadores Mesquita de Brito e Tadeu Soares, nunca nos foi pedido uma garrafa que fosse para a garrafeira da embaixada. O vinho era vendido nos bazares e faziam-se boas receitas para depois oferecer à instituição, internacional, de caridade.
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O Matéus Rosé volta famoso nos bazares e verem-se as pessoas a correrem, logo que abrisse o pavilhão de Portugal, para o adquirir. Entretanto no Bazar de 2002 as caixas não chegaram a tempo do dia da realização do evento e ficaram armazenadas do Gabinete do ICEP (gerido por nós como representante). 
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O embaixador Lima Pimentel assume a gerência da Missão de Banguecoque, entrou no gabinete, damos-lhe conta da oferta do vinho Matéus Rosé e disse-nos, como voz autoritária: "esse vinho vai para a garrafeira da residência". Foi uma autêntica "baldada" de água fria que caiu na nossa cabeça. Porém ainda conseguimos retirar-lhe quatro caixas dizendo-lhe (falsamente) que já estavam vendidas. 
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Durante quatro anos, encomendavamos, anualmente, vinhos para a embaixada e deixámos de esmolar vinho Matéus Rosé para os bazares porque saberíamos, de antemão, que seguia para a garrafeira de Lima Pimentel. Só depois de ter partido de Banguecoque, para Oslo o esmolamos novamente e chegou, como nos anos de 1995 a 2002.  (11)
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Em Março de 1997 somos nomeados representante do ICEP para a Tailândia e países onde o chefe de missão estava acreditado. O comércio de vinhos, na Tailândia, estava no auge. 
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O vinho acompanhou a "crise" do crescimento, tremendo, do país. O vinho toma o lugar ao uisque e outras bebidas, estrangeiras, nas festas e parties. Beber vinho é "fashion" entre as camadas jovens. Nasce em Banguecoque a febre de beber vinho. Abrem lojas de vinhos em vários pontos da capital tailandesa. 
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São duas lojas abertas, exclusivamente, para vender vinhos de Portugal, uma só para vender vinhos do Alentejo, na baixa banguecoquiana e outra na Sukhumvit Road que oferecia vinhos do Douro e de outras regiões.Mas foi bem de pouca dura! A crise económica "rebentou", em princípios de Julho de 1997, primeiro na Tailândia e viria a estender-se a outros países da Ásia. 
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A quase a totalidade das lojas de vinhos, abertas por pequenos empresários, fecharam, as duas portuguesas foram, igualmente, na leva. Entretanto, mesmo sob a crise financeira continuamos a nossa cruzada do lançamento dos vinhos portugueses. 
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Organizamos várias provas em "lobies" de hoteis e retirava do magro orçamento do funcionamento do gabinete comercial do ICEP um montante para pagar o vinho que fosse servido, em algumas,  provas. 
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Mesmo sob a crise as provas foram-se levando a cabo em certos hoteis de cinco estrelas e clubes da alta sociedade de Banguecoque. Em Junho de 2002 o gabinete do ICEP foi encerrado e, já lá vão seis anos que estamos desligados da parte comercial, que aqui não vou apontar as razões. 
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O vinho português continua, no ano de 2014, a vender-se em Banguecoque, mas mais se poderia vender se nossa actividade não tivesse sido tolhida, em 2002, que reverteu para a estagnação e divulgação dos vinhos de Portugal na Tailândia.
José Martins