domingo, 27 de outubro de 2013

TAILÂNDIA – OS QUEQUES DO BAIRRO PORTUGUÊS DE SANTA CRUZ

À entrada do bairro de Santa Cruz uma vendedeira carrega na sua banca de rua, de rodas, uma encomenda de queques que irá vender na proximidade do bairro.
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A norte e a poucos quilómetros da baixa da cidade de Banguecoque, na margem direita do grande rio Chao Prya, ou Menam (Mãe das Águas), existe o Bairro Português de Santa Cruz que parou no tempo, alheando-se ao desenvolvimento, progressivo, da cidade de Banguecoque que desde os anos de 1990, do século passado, jamais parou. 
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Caminha-se pela rua adjacente à Igreja de Santa Cruz, cuja frontaria virada para o rio Chao Prya....
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O Bairro de Santa Cruz é o segundo de três genuinamente lusos, Imaculada Conceição e Senhora do Rosário, fundados pelos portugueses, cuja doação dos terrenos foram graciosamente concedidos por reis do Sião (Tailândia) pelos bons serviços prestados, pela comunidade lusa, na velha capital, Ayuthaya, a 100 quilómetros da hoje e há  231 anos, estabelecida, capital do reino a cidade de  Banguecoque.
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...e quase a chegar à frontaria da igreja, ao nosso lado direito, encontran-se duas setas a indicar, em lingua tailandesa a localização da fabriqueta de queques portugueses....
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O terreno foi concedido pouco depois da queda de Ayuthaya em Abril de 1767 AQUI pelo Rei Thaksin, o libertador, que fez debandar as tropas invasoras do Reino do Pegú (Birmânia) que depois da concessão da larga área ofertou à comunidade luso-descendente madeira para construirem suas casas e igreja para a prática da religião católica.


...caminha-se por um emaranhado de vielas, acanhadas e encontra-se o soi Kudeejeen 7 e mais uma seta a indicar onde se confeccionam os queques portugueses.
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Sem haverem dados, concretos, de qual o número de pessoas ali estabelecidas, calcula-se que seriam umas três mil almas transportadas em embarcações do aglomerado populacional que os portugueses e suas mulheres siamesas e filhos ocuparam “Ban Portuguet” (Aldeia dos Portugueses) por cerca  de 250 anos AQUI .


Na casa, centenária, saiem todos os dias os queques para os mercados e bancas rolantes de rua...
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A localização do Bairro de Santa Cruz situa-se a jusante de pouco mais de uns 400 metros do Forte de Banguecoque, ali construído, meados do século XVII, como baluarte de defesa e controlo das navegações entre o Golfo do Sião e a capital Ayuthaya. No forte e provas escritas há que ali permaneceram artilheiros portugueses, muito antes da queda de Ayuthaya.


Uma salinha à entrada onde efectuam as encomendas de queques....
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Seria uma história longa aqui descrita a fundação da capital de hoje de muitos milhões de habitantes que foi edificada em terreno alagadiço e onde crescia o mangal. 
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 ...um jovem transporta os queques da secção de fabrico

Partiu do nada. Poderemos no entanto afirmar com toda a convicção que a comunidade lusa e descendente deu contributo para a construção da nova capital. Não descuramos a larga comunidade chinesa, a maior em densidade populacional, a malaia, com a portuguesa foram as únicas que residiam em Ayuthaya de quando a queda. 
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 ... a secção de embalagem em "saquinhos" de papel celofane...
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A comunidade lusa e descendente começam suas vidas do nada e dependentes dos serviços prestados à corte siamesa que gradualmente vai progredindo e acentuado-se o desenvolvimentos a partir da década vinte do século XIX.
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.... o enchimento das formas com massa para a cozedura...
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Compõe-se o núcleo habitacional luso de homens portugueses e outros de sangue já diluído com outras etnias e conhecido por macaense que viria esta gente a contribuir para o relacionamento com a nova comunidade estrangeira, ocidental, que aporta em Banguecoque depois do aparecimento do barco a vapor e, viria, a destronar os milenários juncos  chineses.
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 ...queques, gigantes, embalados para seguirem para mercado com o certificado de orígem, portuguesa e do Bairro de Santa Cruz....
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Os portugueses, como acima escrevemos sendo os primeiros da Europa a travarem relacionamento diplomático, comercial e humano com o Sião introduziram técnicas no reino desconhecidas naquela distante época entre as quais a arte da construção de fortes, de trabalhar o ferro, fundição do bronze, fabrico de armas, canhões, a  gastronomia portuguesa, onde sem haver dados concretos, acreditamos a doçaria, conventual, os fios de ovos e os queques, confeccionados em Ayuthaya  são trazidos para Banguecoque e serve, o fabrico, das doçarias, como meio subsistência de famílias que de momento está na posse de uma família que segue na quinta geração. 
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 ... no Bairro Português de Santa Cruz, uma senhora, prepara doces tailandeses e na sua banca de venda lá estão os queques, lusos, embalados...
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Os proprietários da fabriqueta, um casal ainda jovem, desconhece  os anteriores proprietários, o que nos leva afirmar que os “queques do bairro de Santa Cruz” continuam a seguir a geração dos primeiros que os hajam fabricados há 246 anos. 
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 ... uma relíquia do passado a fazer lembrar a fundação e a construção das paredes de casas, de madeira de Teca, decoradas que bem denotam a habilidade dos portugueses, cujo algumas destas moradias vão resistindo ao tempo no Bairro Português de Santa Cruz e o primeiro núcleo habitacional da cidade de Banguecoque e na área denominada de Thomburi... A parede na imagem está a paredes meias da fábrica de queques...
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O fio de ovos, que ainda conhecemos, há 27 anos, uma velha senhora que confeccionava para colocar no mercado, no bairro terminou o fabrico artesanal e continua, agora, em quantidades industriais, noutros locais, dado que o fio de ovos é a especialidade de doçaria mais famosa da Tailândia e um composto em outras especialidades.
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O casal Teepahorn Sudjidjune os proprietários, da quinta geração (conhecida) do fabrico de queques portugueses. A criança, filha do jovem casal, certamente, dará continuação e, perfazendo, a sexta geração....
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Os queques do Bairro de Santa Cruz, por mais estranho que nos possa parecer, famosos e consumidos como o são, nas redondezas do bairro e na outra margem esquerda no “China Town” continua, a confecção, no igual processos e receita, como tem sido há cinco séculos em Ayuthaya e Banguecoque.
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...cozidos os queques há 30 anos, como ainda hoje o são... 
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Durante vários anos páginas de revistas e jornais dedicaram longos artigos ao queque português do bairro de Santa Cruz pelo qualidade e originalidade do sabor... 
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Sua Alteza a Princesa Real  Galyani Vadhana (falecida em 2.01.2018) irmã de Sua Majestade o Rei Bhumibol Adulyadej, Rei da Tailândia, visitou a fabriqueta de queques portugueses no bairro de Santa Cruz a quem lhe foi oferecidos a doçaria de orígem lusa.
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 O Primeiro-Ministro Samak Sundaravej (falecido em 24.11.2009), conhecido na Tailândia como "bom cozinheiro" visitou  o Bairro de Santa Cruz e adquiriu a especialidade portuguesa.
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À MARGEM: Há 30 anos que visitamos, o Bairro Português de Santa Cruz e chegamos a faze-lo em peregrinação. Numa altura em que a capital tailandesa era composta de casas baixas e contados, pelos dedos, os edifícios com mais de 10 andares. No Bairro de Santa Cruz muito se haja mudado, mas que não vamos aqui, aprofundar o que desapareceu e ficou o nome português. 


A igreja de Santa Cruz com a frontaria virada para o rio Chao Prya. Todas as construções da cidade de Banguecoque, desde a sua fundação (1782) até príncipio de 1900, as frentes viradas para o rio e o meio de movimentação entre as pessoas e mercadorias.
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Actualmente no bairro há uns poucos de velhos com sangue luso diluído com chinês e tailandês é o correr do tempo e com ele as mudanças. 
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Domingo de Páscoa de 1996.  Um grupo de  luso descendentes, do Bairro de Santa Cruz, reunidos para o almoço, depois da missa celebrada na igreja do bairro. De destaque as iguarias na mesa similares às dos portugueses na época festiva da Páscoa.
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 Um dos poucos rostos, com vida, com sangue português que nasceu e reside no Bairro de Santa Cruz, o neto do Capitão Filipe que foi um dos directores do porto de Banguecoque.
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 A casa do neto do capitão Filipe no bairro Português de Santa Cruz
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Voltaremos, um dia, a contar mais coisas do Bairro de Santa Cruz.