Tuesday, 31 January 2012

HENRIQUE CALISTO E CAJUDA SEM AZIAS - DO JORNAL A BOLA

Manuel Cajuda (foto ASF)
Calisto e Cajuda sem azias


Por Pedro Cadima

Históricos e autênticos trotamundos, Manuel Cajuda e Henrique Calisto protagonizaram no Porto o prolongamento do jogo entre Leiria e Paços Ferreira de domingo passado, que sorriu ao clube da capital do móvel e ao antigo selecionador do Vietname.

Presentes na discussão ‘O treinador português é um dos melhores do mundo?’, fazendo parte de um painel ao lado de Bernardino Pedroto e José Peseiro, os dois animaram a conversa com enriquecedoras experiências de vida e relatos desconcertantes para uma plateia numerosa, a gozar intensamente o estilo jocoso do técnico algarvio do Leiria e a visão mais contundente do matosinhense que orienta o Paços Ferreira. O jogo foi, curiosamente, diversas vezes lembrado pelo perdedor. Que não perde o humor...

«Não bastava ter-me ganho e ter-me marcado quatro, faço aqui o reconhecimento ao Henrique, pois foi ele que incentivou e encorajou a cumprir as etapas de formação como técnico. Hoje pertenço a uma das classes que mais dignifica o país», disse Manuel Cajuda, enaltecendo o facto de conviver hoje numa Liga preenchida em exclusivo com treinadores portugueses.

«Quando comecei deviam ser 17 em 18 do estrangeiro. Esta é a prova do desenvolvimento conseguido. Temos 3 treinadores na lista dos dez melhores do mundo», sublinha Cajuda a sua satisfação, ele que fora de Portugal provou experiências no Egito e Emirados Árabes Unidos.

«A sensação mais incrível surgiu numa final da Taça do Egito, eu de um lado e o Manuel José do outro e muitas bandeiras de Portugal na bancada. Perdi, claro, ele ganhava tudo lá e era idolatrado. Afinal ganhou só quatro taças de campeão africano», elogiou.

Rio acusado de «miopia intelectual»

Estimadíssimo no Vietname, Calisto viu a vitória em Leiria viajar pelo mundo supersónico da Internet até ao país asiático.

«Para se perceber as diferenças como somos encarados por Portugal quando estamos fora. Pelo facto de ter ganho este último jogo e o Paços ter deixado a linha de água, fui bombardeado por chamadas do Vietname», confidenciou Henrique Calisto, um dia político, político toda a vida, soltando no meio da intervenção mais inflamada e crítica para a falta de carinho ao futebol em Portugal
«Não sabemos vender e promover o que de melhor temos. Veja-se este caso de autêntica miopia intelectual do presidente da Câmara Municipal do Porto de não ligar a cidade ao clube», acusou.

Peseiro adepto do corporativismo

Henrique Calisto quantificou em números o emergente papel do treinador português.

«Ele tem a capacidade única de humanizar o futebol, de criar laços e empatias muito fortes com vários povos em todos os continentes. Temos ganho muita coisa e isso assenta numa formação abrangente que leva anos a ser trabalhada pela Associação Nacional de Treinadores. Se olharmos à evolução registada nos últimos 15 anos, hoje temos 100 treinadores no estrangeiro. Pergunto quantos tínhamos antes?», questionou o treinador do Paços Ferreira. Nesta matéria, José Peseiro ressaltou um sucesso conseguido «sem lobbies»

«O espaço que foi conseguido foi sem essa presença de lobbies, como é normal com os técnicos brasileiros e do Balcãs. Existe uma ação importante de alguns agentes pois Portugal em si não tem peso mediático no estrangeiro. Podemos ser, sim, mais corporativistas e recomendar os nossos colegas. Eu, pele menos, prefiro sempre ajudar um português a um estrangeiro», frisou o antigo técnico do Sporting.

Colóquio fechado com Alexandre Mestre

Presente para fecho do Fórum de Treinadores, Alexandre Mestre, secretário de Estado do Desporto e Juventude, fechou a iniciativa, prometendo como governante ajudar a encontrar uma mais correta e consensual legislação para definir o enquadramento legal do treinador em Portugal, neste momento altamente dúbio, entre um estatuto de praticante e um contrato normal de trabalho, gerador de diferentes interpretações nos tribunais.

Rejeitando comentar as acusações de Mário Figueiredo, novo presidente da Liga de Clubes, de que o Estado não cumpriu o estipulado nas negociações do Totonegócio em 1999, Alexandre Mestre escudou-se nas palavras do ministro Miguel Relvas:

- Reitero o que foi dito pelo Ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares Nada tenho a acrescentar».
Sobre a sua presença no Fórum, deixou um elogio ao treinador:

«Agregar todos estes agentes para discutirem os assuntos que mais lhes interessam mostra que têm cada vez mais força. Longe vai o tempo em que só se falava dos jogadores. Agora fala-se do papel treinador, reconhece-se que esse papel é decisivo», rematou.
22:38 - 31-01-2012