sábado, 15 de setembro de 2018

"MEMÓRIAS DOS TEMPOS IDOS (CAPITULO 4)

 

O tempo passa por nós à velocidade do vento! (Capítulo 4)

Na viagem seguinte a Banguecoque, comigo, a Certidão de Nascimento e fui, de novo, à Embaixada de Portugal, visitar vice-Cônsul José de Souza e requerer um novo passaporte. Corria o ano de 1980. O Souza teve que render-se à evidência de me passar um novo documento de viagem. Documento que demorou 14 dias a ser emitido! Todos os 14 dias de férias seguia para a Embaixada à procura do passaporte. 


A resposta era sempre a mesma do Souza: venha amanhã... essa manhã aconteceu numa tarde, quando à noite teria que voar para a Arábia Saudita e retomar o meu trabalho com a Geophisical Service Inc. (subsidiária da Texas Instrumentos), como encarregado de secção da revisão e montagem de motores, alemães, Deutz e americanos GM Detroit, nas oficinas gerais de Dhahran.
Dado ao mau insípido acolhimento que tive na Secção Consular da Embaixada em Banguecoque, pouco interesse existia em mim para a voltar visitar. Apenas pela necessidade de requerer um novo passaporte, isto porque as 21 páginas, para vistos, dos passaportes, verdes, portugueses da altura, esgotavam-se normalmente em dois anos aos viajantes como eu que constantemente viajavam.

Banguecoque, para mim, era a magia daquilo que a cidade encerrava onde passava umas maravilhosas férias que muitas vezes as repartia com saídas para Singapura, Filipinas, Hong Kong e Macau. As visitas a Macau eram para saborear comida portuguesa no restaurante "Pinóquio" cujas instalações eram, na altura, espécie de um barracão coberto a folhas de zinco ondulado.

Em Maio de 1983 o meu passaporte estavam, outra vez, com as 21 páginas esgotadas. Lá segui, a segunda vez, para a Embaixada de Portugal. A Secção Consular encontrava-se precisamente no mesmo espaço que se quedava em 1980, na Residencia do Chefe de Missão. Desconhecia,ainda, que o Embaixador Melo Gouveia tinha substituído o Embaixador Renato Pinto Soares, em 1982.

Havia obras no armazém que hoje é a Chancelaria. Pouca ou quase nenhuma importância lhes dei. Depois de ter preenchido o impresso para a substituição do passaporte, esgotado, entrou na Secção Consular o Embaixador Melo Gouveia. Não o conhecia. O vice-Cônsul fez a minha apresentação dizendo-lhe: Senhor Embaixador este senhor é português!O diplomata, cumprimentou-me á portuguesa e de imediato perguntou-me:
- Por Banguecoque?
- Veio passear?
- Sim, sim Senhor Embaixador, estou de férias e trabalho para uma firma americana na Arábia Saudita.

Perguntei-lhe, depois, qual seria o melhor negócio com que me poderia estabelecer,no futuro, na Tailândia. Falou-se no vinho português o montante avultado do previsível capital para o investimento e ficou por aqui a nossa apresentação.

Não deixarei de colocar em realce a figura humana do Embaixador Melo Gouveia que na altura lhe encontrei sem qualquer preconceito, como diplomata de prestigio que já o era devido aos bons seviços que havia praticado aos portugueses na ocasião dificil que estes viveram em Moçambique após a independência, ter falado, abertamente, com um português vulgar e anónimo, que eu era na altura.

Desde o primeiro dia dessa apresentação, entre mim e o Diplomata firmou-se uma amizade, que já perdura na proximidade dos 20 anos. Por este grande Português e Homem de Alma Lusa enorme, vão os meus maiores respeitos e o entusiasmo, criado, em mim pelas raizes históricas de Portugal na Tailândia.

A Embaixada de Portugal em Banguecoque, depois da minha apresentação ao Embaixador Melo Gouveia, começou a ser um ponto obrigatório de visitas, quase diáriamente â Chancelaria, quando me encontrava de férias. No "barracão" degradado (ver 1º capítulo destas memórias) tinha sido construida e instalada uma autêntica sala de visitas de Portugal na Tailândia. Ali havia frescura, quadros com imagens de homens e personalidades que tinham passado na Ásia havia séculos, pendurados nas paredes ou em suportes no centro desse airoso espaço, onde o chão espelhava, devido aos ladrilhos de cortiça, oferecidos graciosamente, pelo Grupo Amorim.

Foi esse espaço, durante a permanência, em Banguecoque do Embaixador Melo Gouveia, uma Sala de Cultura, onde académicos,gente das letras e das artes que, assiduamente, ali se reuniam para ouvir as palestras proferidas por figuras proeminentes, cujo tema de todas elas, era a expansão portuguesa na Ásia que transforma o mundo a partir do século XVI.
 
As relações históricas entre Portugal e a Tailândia foram tópicos ali discutidos por diversas vezes por individualidades especialistas na matéria entre estas o Prof. John Villiers, (discípulo do historiador Prof. Charles Boxer autor de várias Obras sobre a expansão portuguesa na Ásia,entre estas "The Great Ship From Amacon"), a Prof.ª Virginia Di Crocco e ainda outras onde se incluem Reitores de universidade de Banguecoque.
Edições de monografias, patrocinadas pela Câmara Municipal de Lisboa " Early Portuguese Accounts of Thailand", Fundação Calouste Gulbenkian "THAILAND AND PORTUGAL 476 years of friendship" têm lugar a partir de 1982. Em Maio de 1983 a Imprensa Nacional de Macau,com o patrocínio da Direcção dos Serviços de Turismo, imprime o livro de 563 páginas, "Portugal na Tailândia", "Portugal no Camboja" e Portugal na Birmânia de Monsenhor Padre Manuel Teixeira. "East of Malaca" de John Villiers, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian foi publicada em 1985. Todas as edições encontram-se esgotadas.
José Gomes Martins





quinta-feira, 13 de setembro de 2018

MEMÓRIA DO TEMPO IDO (CAPITULO 3)


O tempo passa por nós à velocidade do vento! (Capítulo 3)


A magia de Banguecoque, das suas simples e atractivas gentes, fez que voltasse nas férias de 6 semanas seguintes. A capital tailandesa cativou-me. A poluição era práticamente nula. 
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O centro banguecoquiano era atravessado, às dezenas, por veículos de três rodas e popularmente conhecidos por "tuk-tuk" e uma invenção, da imaginação fértil, do homem tailandês que adaptou, motores a dois tempos, japoneses, aplicados a bombas de àgua ou a pequenos e manuais tractores agrícolas para fazer face às necessidades de transporte urbano da cidade que hoje, no ano 2000, ronda os cerca de dez milhões de habitantes. 
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O baptismo vem-lhe do motor de reduzido número de rotações e compassadas explosões que produziam o ruído: tuk,tuk,tuk e daí o nome do popular triciclo já famoso no Mundo.  
 Carros japoneses, muitos já de chapa corroída devido à humidade ensalitrada que paira, constantemente, na atmosfera de Banguecoque, serviam de táxis, sem taxímetro, cujas corridas eram ajustada discutidas com o motorista, antes da corrida.
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Cheguei ao fim da tarde. Instalei-me no "Honey Hotel", familiar aos técnicos da Texas Instrumentos, em férias. Estendi-me na cama e dormi, profundamente, até à manhã do dia seguinte, recompondo-me da péssima viagem, de 6 horas, a bordo de um (já bastante usado) DC8 Super que desde Dahran até ao aeroporto de Don Muang esteve sujeito ao mau tempo e quedas vertiginosas em poços de ar.

Destinei para o dia seguinte visitar a Embaixada de Portugal. Não fazia minima ideia a sua localização. Meti-me num táxi Blue Bird e assinalei, com o dedo indicador, ao motorista, no mapa de Bangucoque o círculo onde a bandeira da quinas servia de símbolo a dar conta do sitio.
Descemos a avenida Sukhumvit, na Ploenchit cortamos à esquerda para a Wireless Road onde a percorri debaixo de frondosas àrvores de Jacaranda e no lado direito a Embaixada de Espanha, a Residência do Embaixador dos Estados Unidos da América e mais abaixo, do lado esquerdo a Missão Diplomática americana. Pouco depois chegava a Rama IV e em baixo o Dusit Thani Hotel de construção arrojada de 20 e mais andares (tal como hoje se encontra) e, os seus proprietários, na época, apostavam num futuro promissor para o turismo, dos dias de hoje na Tailândia.
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O motorista tomou a direcção da Silom Road, um centro comercial importante, onde os edifícios não tinham, os mais altos, de uns 6 andares. 

Ao fundo encontramos um T onde terminava a Silom. Cortamos à direita para a New Road (Chalerm Krung), a primeira rua construida, na zona ribeirinha e nas proximidades de fazer 100 anos... 
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Depois de passarmos o elegante edifício dos Correios Centrais, construido no princípio do século XX, e no reinado do Rei Chulalongkorn, na travessa seguinte estavamos na Captain Bush Lane, 26 e à minha frente o Escudo Português, imprimido numa chapa oval de esmalte branco.
Senti um arrepio frio no meu corpo.

Era o patriotismo espontâneo, barato, mas sem preço para qualquer emigrante português, nómada, nesse tempo que pouca ou nada de importância lhe era dada pelos executivos dos constantes Governos que eram mudados em Portugal como quem mudava de camisa. O 25 de Abril tinha pouco mais de 4 anos de existência.
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O meu patriotismo quedava-se dentro de uma enormidade exuberante que não conseguia saber e descobrir o porquê de tão grande entusiasmo encontrar-me em terras tão longinquas numa Ásia Portuguesa, que ainda o era, as 5 Quinas e os 7 Castelos.
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Fiquei triste, porque ao lado direito da cancela de vara de "sobe e desce" quedavam-se uns armazéns, barracões, degradados, que não futurei ser o solo, onde as paredes assentavam, também de Portugal.

Um guarda, olhando para mim futurou, talvez ser um Português, raro naquelas paragens, a pedir apoio à Embaixada.
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Acompanhou-me até a um velho edifício (a Nobre Casa), que o apreciei antes de me apromixar e logo me saltou à mente uma casa de linhas arquitectónicas coloniais muito familiares em Moçambique. Murmurei: isto é que é a Embaixada de Portugal em Banguecoque?
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Fui conduzido por uma elegante arcada e entrei na Chancelaria da Embaixada. Chegado ao salão (onde hoje são levadas a efeito recepções) encontrei-o um espaço gélido onde pouco depois era atendido pelo Chanceler, de Nacionalidade tailandesa, Chalerm, (com 50 anos a serviço de Portugal) que ficaria até hoje um grande amigo meu.

Num banco sentava-se a Noi a mulher de limpeza e ao fundo o Vice-cônsul José de Souza, de etnia goesa. Atendeu-me, o vice-cônsul Souza, friamente, o que feriu a minha sensibilidade de Português. Perguntou-me a razão do porquê que ali tinha ido. Respondi-lhe: visitar a nossa Embaixada em Banguecoque. 
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Informei-o de onde vinha e aproveitava a pedir a emissão de um novo passaporte dado que o que possuia estava a expirar as folhas. 

O José de Souza (que mais tarde o teria como colega) ia-me dizendo-me: vá pedi-lo ao Consulado de Portugal no Bharén (do outro lado do Golfo da Arábia Saudita). 

Mas eu tenho o Bilhete de Identidade comigo e a Lei diz que o posso adquirir com este documento de identificação. Li isto há pouco nos jornais...
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Não, não é assim, é necessária a Cerdidão de Nascimento, ilucidou-me o Cônsul Souza com um sorriso mórbido.

José Gomes Martins




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

MEMÓRIAS DO TEMPO IDO (CAPITULO 2)


O tempo passa por nós à velocidade do vento! (Capítulo 2)

Chegado, ao fim da tarde, ao acampamento denominado G6 onde 16 técnicos de várias nacionalidades e cerca de 200 trabalhadores, paquistaneses, indianos, Sri Lanka e filipinos se dedicavam à prospecção de petróleo, ao serviço da empresa multinacional, americana, Texas Instrumentos, onde eram usados os mais modernos e sofisticados aparelhos de sismica computorizados.
Cordialmente fui recebido pelo "Campo Manager", de nacionalidade inglesa, com quém, mais tarde o tive, outra vez, como manager em Sfax na Tunisia.
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A vida do deserto era duríssima onde estava sujeito às constantes variações do clima,tempestades de areia que me fustigada o corpo e os olhos. Trabalho de 12 horas diárias, durante os dias de seis semanas. Estas doze horas dava-me o privilégio de acumular mais 22 dias por cada 42. Com isto um invejável salário, mensal, pago em libras esterlinas e pontualmente depositado no National Westminster Bank sem quaisquer descontos.


Ao fim de quarenta e dois dias no deserto, com condições excelentes de acomodação, em caravanas, herméticas, a fim de proteger, do calor incessante da noite, o pessoal e dar-lhe um perfeito repouso para no dia seguinte estar novamente fresco para as suas atribuições, a "blaser Chevrolet" transportava-me para Dahran,onde um bilhete de avião me esperava para gozar as minhas merecidas férias de duas semanas em Portugal.

Antes que continue o fio da meada da história interrompo-a aqui e colocar em relevo a forma com que os americanos classificam o pessoal e as oportunidades dadas aos técnicos que neles encontraram qualidades de trabalho, inteligência e produtividade nas atribuições que lhe foram conferidas. Não existem privilégios de "compadrio" ou mesmo proteccionismo de nacionalidade perante o manejamento.

Foi assim que durante os quase dez anos que servi a Texas Instrumentos e com uma ponta de vaidade fui dado como mecânico engenheiro supervisor em vários países e ordenador do funcionamento de "workshops mecânicos", com trinta e mais mecânicos, sob a minha gerência, vitais para a boa produtividade das várias brigadas que operavam em diversas partes do deserto, montanhas da Turquia ou nos terrenos, planos, dos olivais da Tunísia.

O primeiro ano no deserto optei por passar as duas semanas em Portugal e esporádicamente, no regresso à Arábia Saudita, uns dias em Las Palmas, nas Ilhas Canárias.

Uma noite, depois de terminado o serviço, na caravana restaurante encontrava-me com um inglês, jovem como eu e pergunta-me:

- José onde costumas passar as tuas férias?
- Em Portugal John.
- You are a crazy (Tu és maluco.)
- Why? (Porquê?)
- You must go to Bangkok... the best place for holidays... ( Tu deves visitar Banguecoque um óptimo lugar para passar férias)

Logo nessa noite o John entregou-me brochuras turisticas da Cidade dos Anjos e desde logo, ao outro dia, informei a secção de viagens dos escritórios centrais da Texas Instrumentos para trocar o habitual itinerário de Dahran, Lisboa para Banguecoque.
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Poucos conhecimentos tinha da Tailândia, dos costumes e até da história. Sobre esta monarquia, apenas, tinha anos atrás visto o filme o Rei e Eu no Porto inspirado no livro da Ana Leonowens.

Banguecoque em 1977 era uma cidade de facto grande de casas baixas, cobertas de zinco ondulado e desde o aeroporto, de pequenas dimensões, até à baixa citadina (30 quilómetros), nas margens da estrada, de duas vias, havia searas de arroz verdejante onde se viam pessoas a mondá-lo ou na azáfama do transplante.

Tudo que os meus olhos viam, através dos vidros do táxi "Blue Bird", à minha volta, fascinava-me. Eram as camionetas decoradas com figuras, estampadas e artisticamente cinzeladas, mitológicas da cultura siamesa, sem portas na cabine do motorista, os trajes das mulheres, os rostos enfarinhados para lhes proteger a pele do calor e da humidade e os sorrisos que distribuiam à minha passagem.

Em Banguecoque, práticamente não existia turismo, os hoteis muito poucos na área da Sumkhunvit e o mais importante era o Dusit Thani à entrada da Silom Road. Na rua Sukumvit havia mulheres nos passeios que vendiam frutas, tropicais, frescas e muitos "oil mens" que basofiamente ostentavam grandes aneis nos dedos, máquina fotográfica ao tiracolo e botas bicudas (estilo americano) de cano alto. Durante a noite bebiam litros de cerveja no "Soi Cowboys", acompanhados de raparigas que estas, depois de embriagados, os levavam, como crianças, pela mão para os hoteis à volta da "Soi Asoke".

Não pensava sequer que Portugal estivesse representado com uma Missão Diplomática, em Banguecoque, tão-pouco tivessem sido os portugueses a conhecerem o Sião em 1511. No último dia das minhas ferias, excelentemente passadas em Banguecoque, ao passar uma vista de olhos à revista turística "This Week" encontrei ali designada a Embaixada de Portugal.
José Gomes Martins

MEMÓRIAS DO TEMPO IDO (CAPITULO 1)

O tempo passa por nós à velocidade do vento! (Capítulo 1)

E, depois de tantas andanças, por África, durante 16 anos divididos por Angola,Moçambique e Rodhésia (Zimbabwe) e acidentalmente, em 1977, encontrei-me na Tailândia na cidade de Banguecoque.  O espírito português dos homens quinhentistas apoderou-se de mim. Esse entrou no meu ser nos bancos da escola primária,que frequentei na minha aldeia, situada no sopé da Serra da Estrêla.
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Surgiu o 25 de Abril e após a independência de Moçambique, em 1975, a Rodhésia deixou de ser um lugar estável e seguro para o homem branco.

Regressei a Portugal em Agosto de de 1977. O meu país, deixado em 1962,durante os 16 anos da minha ausência nada tinha mudado. Paredes conspurcadas com literatura política de "cordel", comícios dos partidos quase diários que me levaram a não me adaptar ao viver de momento.Os meus amigos chamaram-me homem de sorte porque após três dias de chegar a Portugal já estava empregado, como mecânico, numa empresa distribuidora de bebidas com um ordenado de 8 contos lá para os lados de Ramalde, no Porto, junto à Via Norte que ainda só ligava o Porto à estrada da Circunvalação.
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O homem emigrante português tem dificil adaptação a Portugal quando este permaneceu anos no estrangeiro, mesmo que tivesse sido nas ex-colónias.
Isto aconteceu, assim, comigo..

Todas as manhãs quando me deslocava de comboio de Pedras Rubras para a estação da Senhora da Hora e depois a pé até junto ao Largo da Cooperativa de Ramalde, lia o Jornal de Notícias de fio a pavio a secção de anúncios "precisa-se".

Um dia o milagre aconteceu: uma empresa americana necessitava de mecânicos para trabalhar no deserto da Arábia Saudita.Logo nessa manhã respondi ao anúncio e passado seis mêses estava a tomar o avião da TAP,para Londres e daqui para Dahran, na Arábia Saudita e na costa do Golfo Pérsico.
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Salário convidativo 38 contos, acomodação e em cada 6 semanas de trabalho contínuo, duas semanas de férias em Portugal com viagens de avião pagas de ida e volta.
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Bem me lembro, numa tarde quente do mês de Abril, quando a porta do avião foi aberta a baforada de vento quente que entra no espaço dos passageiros a cheirar a petróleo. Depois das formalidades, rígidas no aeroporto em procura de bebidas alcoólicas e material pornográficos (sem ter conhecimento) entrei na terra de religião muçulmana com uma garrafa de whiskie que inocentemente tinha adquirido no aeroporto de Heatrow na Inglaterra.  .

Fui perdoado,dado ao desconhecimento, de uma dose de vergastadas,uns meses no calabouço e direito a um bilhete de uma viagem de retorno a Portugal. Depois de uns 10 minutos de doutrinação, lá deixei, no Serviço da Alfândega, o whiskie de rótulo preto e as 15 libras estrelinas que levava comigo,para as primeiras impressões.
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Não houve tempo para vencer o "jetlag"! O deserto, esse mar imenso seco, esperava por mim. Um motorista paquistanês, transporta-me durante quase um dia inteiro,ao direcção à fronteira do Koweit, através dessa imensão árida e de areias em movimento onde pela primeira vez admirei a maravilhosas mirages que apenas as conhecia pelos livros. Estas existe e ao longe verifica-se a transpiração da areia que nos dá a visão de pedras polidas, negras, na àgua da corrente do rio.
José Gomes Martins

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Esta série de 4 artigos foi publicado, em 1997, no website "Portugal-em-Linha"

"A CONFERÊNCIA, CONFERENCISTA E QUEM A ENCOMENDOU"

Deturpar a história é muito feio! Levar mentiras a uma instituição, cultural, das mais prestigiosas de toda a Ásia não fica bem a Portugal. Respeitei a história e aprendi com historiadores consagrados. 
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Sobre a História de Portugal na Tailândia, a minha biblioteca possui o máximo de livros e até, alguns, esgotados e raros. Nos 41 anos de vivência na Tailândia outra coisa não fiz que debruçar-me sobre a história de 518 anos entre Portugal e a Tailândia. 
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Não são “caramelos”, oportunistas, que aqui chegam de Lisboa a descobrir o que foi descoberto há muito. Em 1516 (embora historiadores escrevam que houve tratado), houveram palavras de honra em que os portugueses poderiam vir ao Reino do Sião, negociar e trazer armas, cujo estas eram desconhecidas. 
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Sabido que as naus portugueses transportavam homens, muitos soldados, e se foram distribuindo por diversos países da Ásia que os navegantes foram conhecendo em procura do Eldorado. Em 1516 com as relações consolidadas o Rei Rama Tibodi II, contratou 120 soldados para guarda do Palácio Real. 
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Fernão Mendes Pinto, na Peregrinação, 2º Volume página 727 escreve: 
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“ E os cento e vinte portugueses que com lealdade vigiaram sempre na guarda de minha pessoa, darão meio ano do tributo da rainha de Guilbém e liberdade em minhas alfândegas por tempo de três anos, sem lhes levarem coisa  alguma por suas fazendas  e seus sacerdotes poderão publicar nas suas cidades e vilas de todo o meu reino, a lei que professam do Deus feito homem para salvação dos nascidos, como algumas vezes me têm afirmado”
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Fernão Mendes Pinto chegou ao Sião pelos anos 1539 e acreditamos que ainda, no seu tempo, havia guardas portugueses no Palácio Real, em Ayuthaya.
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Será necessário que os homens que seguem por aí, em comissão de serviço, 2,3,4 e mais anos, a ganharem balúrdios do contribuinte português, que não coloquem floreiras de rosas mal-cheirosas em cima de mesas, cujo objectivo é de se promoverem e encobrir a mediocridade. Haja honestidade!
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Os verdadeiros Tratados, escritos, entre Portugal e o Reino do Sião, tiveram lugar nos anos 1820 e 1858. O Reino do Sião passou para Tailândia em 23 de Junho de 1939. 
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O apalavrado, tratado (que não existe nada escrito) foi, na pena de vários, consagrados, historiadores em 1516 e não em 1518. vejamos a seguir.
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The well-known historian of Macao Montalto de Jesus writes: “Moreover the military prestige of the Portuguese led the King of Siam, after  concluding a treaty with them in 1516, to engage Portuguese guards  for the Royal establishment of Ayuthaya, where the soldiers married local women and founded a Portuguese settlement, which missionaries and merchants from Macao did much to develop”
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António da Silva Rego -  Thailand and Portugal – 470 Years of Friendship – Calouste Gulbenkin Foundation – Lisboa – 1982
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Tradução: O conhecido historiador de Macau Montalto de Jesus escreve: “Além disso, o prestígio militar dos portugueses levou o rei do Sião, depois de concluir um tratado com eles em 1516, para contratar guardas portugueses para o estabelecimento (Palácio Real) Real de Ayuthaya, onde os soldados se casaram com mulheres locais e fundaram um assentamento português, que missionários e mercadores de Macau fizeram muito para desenvolver ”António da Silva Rego - Tailândia e Portugal - 470 Anos de Amizade - Fundação Calouste Gulbenkin - Lisboa – 1982
A fanfarronice, acima não merece crédito algum. Seria dezenas de páginas que escreveria sobre o tema: "Catolicismo do Padroado Português do Oriente" na Tailândia.
José Martins

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A portuguesa Inês Caldeira acaba de assumir a liderança da L’Oréal na Tailândia

Marketing

A CEO da L’Oréal Tailândia é portuguesa: Inês Caldeira

A portuguesa Inês Caldeira acaba de assumir a liderança da L’Oréal na Tailândia, depois de uma carreira de quase 17 anos na Europa, quatro dos quais como CEO em Portugal.
segunda, 03 setembro 2018 12:25
A CEO da L’Oréal Tailândia é portuguesa: Inês Caldeira
Em comunicado, a empresa recorda que, no seu percurso, Inês assumiu três missões internacionais, tendo desempenhado um papel de desenvolvimento na sede e dirigido operações em Espanha.
Comentando a nomeação, o vice-presidente para a região da Ásia e Pacífico, Pierre-Yves Arzel, afirma que a gestora portuguesa deu provas de incorporar totalmente o espírito da empresa, enquanto líder que potencia o talento das suas equipas. “Estou convencido de que se integrará suavemente na Tailândia e que fará com sucesso escolhas estratégicas”.
Por sua vez, Inês Caldeira sustenta que irá continuar a promover as quatro prioridades de desenvolvimento da L’Oréal – o consumidor no centro, a aceleração digital, ser um bom empregador e desenvolver a cidadania, de modo a potenciar o talento, a promover o crescimento da subsidiária, bem como contribuir para a comunidade tailandesa.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

JOSÉ AVILEZ CHEFE DE COZINHA, PORTUGUÊS, EM BANGUECOQUE"


19º World Gourmet Festival com gastronomia portuguesa promovida pelo Chef José Avillez

19º World Gourmet Festival com gastronomia portuguesa promovida pelo Chef José Avillez D.R.
A primeira edição do Guia Michelin em Banguecoque, no ano passado, reservou à capital tailandesa um lugar no palco da gastronomia internacional.
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Em reconhecimento da merecida posição, um dos mais ilustres chefs portugueses vai juntar-se à lista de chefs de doze restaurantes premiados com estrela Michelin que irão dirigir um dos locais mais exclusivos de Banguecoque. 
. Assim entre 03 e 09 de Setembro de 2018, os chefs mais conhecidos de nove países que vão de Portugal ao Japão e dos Estados Unidos da América à Suíça, irão preparar um banquete internacional no 19º World Gourmet Festival que irá decorrer no Anantara Siam Bangkok Hotel.   .
O World Gourmet Festival ganhou importância desde a primeira edição, ao apresentar um extraordinário elenco que integra os melhores chefs, enólogos e especialistas em comida de todo o mundo, reunidos sob o mesmo tecto para celebrar, ao longo de uma semana, gastronomia e vinhos de excelência.
. Este ano, o Anantara Siam Bangkok Hotel, em parceria com Sanpellegrino e Gastronauts Asia, convida cada chef a apresentar dois jantares nos restaurantes galardoados do hotel: Biscotti, Madison, Spice Market e Shintaro. . “O chef José Avillez irá representar Portugal nesta edição servindo os dois jantares, nos dias 03 e 04 de Setembro. Através da sua participação, dará a conhecer a gastronomia portuguesa apresentando pratos do seu restaurante Belcanto, distinguido com duas estrelas Michelin e ocupando a 75ª posição na lista “The World’s 50 Best Restaurants”.“
José Avillez, hoje considerado uma das grandes referências gastronómicas em Portugal, tem-se distinguido pela sua dedicação e pelo seu espírito empreendedor.

Actualmente, tem vários restaurantes em Lisboa e no Porto, cada um com um conceito diferente, mas partilhando a sua enorme paixão pela cozinha. Entre os seus restaurantes, destaca-se o Belcanto.
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Aqui, José Avillez oferece alta-cozinha portuguesa, num ambiente sofisticado. Esta é a cozinha que traduz a sua evolução criativa. No Belcanto, José Avillez partilha as suas inspirações e emoções. Cada prato conta uma história e tem como principal objectivo emocionar quem o aceita provar.”, refere a nota de imprensa.



A 19ª edição do World Gourmet Festival conta ainda com a presença, já confirmada, dos seguintes chefs:
- Bernard Bach: Le Puits Saint-Jacques em Toulouse, França (2 estrelas Michelin) - Martin Dalsass: Talvo by Dalsass em St. Moritz, Suíça (1 estrela Michelin) - Alessandra del Favero e Oliver Piras: AGA Ristorante em San Vito di Cadore, Itália (1 estrela Michelin) - Srijith Gopinathan: TAJ Campton Place em São Francisco, EUA (1 estrela Michelin) - Han Li Guang: Labyrinth em Singapura (1 estrela Michelin) - Ryohei Hieda: Shoun RyuGin em Taipei, Taiwan (2 estrelas Michelin) - Giuseppe Iannotti: Krèsios em Nápoles, Itália (1 estrela Michelin) - Shinji Ishida: Nogizaka Shin em Tóquio, Japão (1 estrela Michelin) - Jeong Ho Kim: Jungsik em Seoul, Coreia do Sul (2 estrelas Michelin) - Shinya Otsuchihashi: CRAFTALE em Tóquio, Japão (1 estrela Michelin) - Luigi Taglienti: LUME em Milão, Itália (1 estrela Michelin)
segunda, 16 julho 2018 16:35
terça, 17 julho 2018 00:16

domingo, 19 de agosto de 2018

PORTUGAL NA TAILÂNDIA - BAN PORTUGUET


Retalhos de minhas memórias
Ban Portuguet - Peregrinos da Fé
Depois de as ruinas do Campo de São Domingos estarem a descoberto, em 1984, graças ao Embaixador Mello Gouveia e ao Dr. José Blanco, Administrador da Fundação Calouste Gulbenkiam, ficam a aguardar, por cerca de 10 anos, para que um edifício de largas dimensões e de linhas arquitectónicas elegantes, viesse, finalmente a ser inaugurado, em Abril de 1995. Assunto a ser tratado nas próximas crónicas. 
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De um matagal espesso, surge um campo de oração e da prática do culto da religião católica, esta que os missionários do Padroado Português do Oriente introduziram no Reino do Sião, em todo o Oriente, após as Cortes de Portugal e do Sião assinarem Acordos de Amizade Comércio e Navegação. O Padroado desempenha, durante as descobertas portuguesas, um papel primordial nessa expansão. A cruz, as armas, a pólvora e o amor são, assim, factores importantes para o encetamento de relações entre o ocidente e o oriente. Com isto a transformação do mundo. 
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A mitologia, as crenças religiosas, sejam quais forem os princípios das suas ideologias tem servido para o equilíbrio, ligação e harmonização das civilizações inseridas no planeta mundo. No Ban Portuguet, mesmo dentro de um matagal espesso os católicos contemporâneos, que herdaram o catolicismo do seus antepassados de séculos, de joelhos, em frente à capelinha, feita de madeira tosca, é ali que vão fazer as sua preces. 
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Agradecer a imagem de São José, dentro, iluminado por uma vela de cera, fundida dos favos, construídos num ramo de árvore, pelas abelhas silvestres do Bang Portuguet. A partir do ano de 1985 a Aldeia dos Portugueses passa a ser, todos os anos, depois do Domingo da Páscoa um local de peregrinação dos católicos locais e outros vindos de partes mais distantes da Tailândia. São os Peregrinos da Fé.
São quase 500 anos em romagem a um local que consideram como fazendo parte de si mesmos. Desde há séculos, de geração em geração, tem passado este costume, inclusivamente aumentando de ano para ano, o número de romeiros ao Campo Português de Ayuthaya. 
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Em 1767 as três igrejas portuguesas que existiam no Campo Português de Ayuthaya, antiga capital do Reino do Sião, São Domingos, dos dominicanos, São Paulo, dos Jesuítas, e a de São Francisco dos Franciscanos, foram incendiadas e saqueadas pelas tropas invasoras birmanesas, depois de estas terem destruído os palácios reais e os templos budistas, na outra margem do Rio Menam, onde a corte siamesa, com todo o esplendor, se instalara a partir do ano de 1350.
A ferocidade destas destruições fora motivada pelas guerras seculares e por ódios gerados entre birmaneses e siameses, apenas terminados com a queda de Ayuthaya. Os missionários do Padroado Português do Oriente, embora com imensas dificuldades em converter os siameses ao cristianismo, uma vez que a monarquia era budista, chegaram a converter mais de três mil almas distribuídas pelas três paróquias da Aldeia dos Portugueses. 
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Ainda hoje se conservam cerca de cinco centenas deles, uns vivendo nas proximidades das igrejas, outros nas redondezas. Muitos vêm, agora, das províncias, a muitas centenas de quilómetros de Ayuthaya, para assistirem às cerimónias religiosas celebradas depois da quaresma, em cima das ruínas de São Domingos.
São os peregrinos da fé com quase 500 anos em romagem a um local que consideram como fazendo parte de si mesmos. Ainda o sol não raiou no horizonte já os primeiros romeiros começam a chegar, pelos mais diversos meios de transporte, entoando cânticos religiosos, na esperança de que a prece feita ao seu santo, seja atendida nesse dia. Ergue-se uma tenda que cobre uma área considerável das ruínas da igreja de São Domingos, abrigando de um sol a pino, os que assistem a celebração da missa campal. É ali que é armado um altar onde o grupo de padres celebrarão a missa para os peregrinos da fé. O ambiente é de grande fervor, e concentração. 
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Na homilia, a meio da missa, o prelado relembra aos fiéis presentes a importância do lugar sagrado onde todos se encontram, e diz que ali se acendeu pela primeira vez há séculos, o farol do cristianismo na Tailândia, pelos missionários portugueses. Frades franciscanos, jesuítas, padres de outras congregações católicas de Banguecoque e igrejas da província, confessam ao ar livre os crentes, para que se sintam livres de algum pecado que julgam carregar com eles.
A missa campal, uns anos é celebrada em cima das ruínas, outros junto à margem do Rio Chao Prya, onde aqui a frescura da água e a verdura dos jacintos, a flutuar na corrente, ajudam a suavizar a humidade e o calor que abrasa o local. Os padres celebrantes, quatro da Missão de São José, da missão francesa, a dois quilometros das ruínas de São Domingos, e dois vindos de Banguecoque. 
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Através de uma potente aparelhagem sonora, dobram os sinos, antes da celebração da missa, e um grupo coral entoa cantos sacros. No fim da missa, todos os presentes, em procissão dão uma volta às ruínas acompanhando um andor da Virgem Maria e São José por quatro jovens..
.No fim, há a adoração aos mortos no cemitério, onde desde Abril de 1767, quando da queda de Ayuthaya, ninguém ali foi sepultado, são acendidas velas nas campas com as ossadas, a descoberto, que foram de homens lusos, mulheres siamesas e luso-descendentes. Colares de jasmim são colocados em pequenas cruzes de madeira e os cristãos permanencem, por períodos longos, junto às sepulturas, rezando.
São visíveis numerosos esqueletes sepultados há mais de 240 anos, no que foi o adro da Igreja de São Domingos. Não tem sido sem emoção que desde há varios anos, tenha sido eu o único português a assistir a este ritual no Bang Portuguet. É gratificante ouvir-se durante as cerimónias religiosas o nome de Portugal. Um passado de riqueza histórica que Portugal, passados quase cinco séculos se mantem, vivo, na Tailândia. José Martins
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(Publicado em 1996 na "Tribuna de Macau", "Notícias de Gouveia" e no website Portugal em Linha que ainda hoje se encontra a circular.
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Tradução para a língua tailandesa: Maturos Suphaphon, que não me recorda em que revista ou jornal tailandês foi publicado.
Fotos do autor
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